Por que o sono não vem? Nunca, desde que estou nesta casa escutei o relógio bater tantas vezes. As louças já não estão lavadas, os dois meninos já não estão dormindo? Então?: Já não fiz tudo na minha vida? Ah, lembrei: falta passar o pano na cozinha. Mas minha patroa é miserável mesmo: essas fraldas velhas como pano de chão não ajudam.

— Rita, corre lá na roça, chama teu pai, depressa, tua irmãzinha já está saindo.

— Mas, mãe, se ela não existe, como é que já está saindo?

— Vai logo, diabo.

...Rede chata, esse armador rangendo. Queria ser aquela barata ali da parede, que vive sem fazer zoada... Ave Maria, cheia de Graça, Senhora é conosco...

— Mãe, por que as outras meninas estão com vestido de primeira comunhão e só eu com esse vestido encarnado velho?

— O vestido não ‘tá lavado, menina? Pára de querer ter tudo. Tu, que hoje vai receber a hóstia sagrada pela primeira vez, Deus pode te castigar e virar sangue na tua boca.

Queria muito dar uma leitura nos Salmos. Essa Bíblia devia ter umas figuras como os livrinhos de cordel do mestre Antônio.
— Dona Mundinha, chamamos a senhora, olha, não adianta, a Escola já fez de tudo, a Rita não consegue aprender. É todo dia essa cara parada no tempo, o olho espichado para a merenda dos outros meninos. A sua filha parece que não existe.

Calor, aqui. Bem que D. Germana podia deixar neste quartinho aquele ventilador que vive parado no depósito. Se o acendedor do fogão não fizesse esse arranhão na calada, eu ia amornar um leitinho; se o chuveiro não fizesse barulho, eu ia tomar um banho; se a vida não fizesse barulho podia ser até bom...

— Raimunda, água do céu não vem mais, e a roça ‘tá se acabando. Vai botando cada vez menos comida no fogo, senão daqui a pouco não tem mais é nada.

Vou ligar o radinho. Bem baixinho, pra nem eu mesma escutar. “Olha você tem todas as coisas/que um dia eu sonhei pra mim”...



— Ritinha, deixa eu ver só mais uma vez... Agora bota a mão aqui, ó, bem aqui, que eu te dou esse bombom.

— Isso não é bombom, é um pedaço de rapadura.

— ‘Tá doida? Não está vendo o papel celofone? Pega logo aqui, senão digo ao teu pai que tu pegou ontem.

— Mas eu nunca peguei, João, só fiz mostrar, nunca peguei...

Essa dor nas costas que não me larga. É esse tal de aspirador que a patroa me obriga a usar. Ou essa banda da rede que é muito torta. Meu Deus me deixa dormir: Juro que não vou sonhar.

— Não, pai, de correia, não, ai, ai, dói muito... Eu nunca peguei, pai, nunca peguei, ai...

— Toma, toma, tu não serve pra nada mesmo, não quer ir pra roça, não quer estudar, só quer fazer coisa ruim. Tu só serve pra apanhar.

“Tem os olhos cheios de esperança”... (clic). Me levantar de novo. Um copo d’água. Ah tomara que amanheça logo. Bom era no tempo do rio cheio, eu mais a Marilu, as outras meninas, tudo brincando de pular do galho do pé-de-oiticica. Tudo gritando, rindo, cantando... Esse sonzinho da torneira do filtro, esse eu gosto porque é miudinho como asa dos mosquitos no meu pé-de-ouvido.

— Mulher, não chove mais neste mundo. Não tem mais nem calango de garrancho correndo por aí. Amanhã o caminhão do Genésio vai para a Capital. Manda a filharada para a casa do Galdino.

(O pó, o sol, o solavanco, o ranger das engrenagens do caminhão; e depois da viagem, um emprego, outro, outro... E os dias, os dias pouquissimamente desiguais).

Boca seca. Esse armador rangendo. Estou mais magra do que no ano passado. Amanhã é meu aniversário. Será que Marilu vai se lembrar?

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Carlos Alberto Medeiros Nóbrega nasceu em Fortaleza, Ceará, em 29 de outubro de 1955. Recebeu os seguintes prêmios literários: I e II Prêmio Cidade de Fortaleza (FUNCET, 1988 e 1990); Prêmio Estado do Ceará de Literatura (SECULT, 1993); Prêmio Osmundo Pontes (Academia Cearense de Letras, 1995); e o Prêmio Estado de Minas de Cultura – XVI Emílio Moura, com Breviário (Governo de Minas Gerais, 1994).
Tem editado os livros A sono solto (1988), Outros Poemas (2000) e Breviário (2003); e inédito Árvore de Manivelas.