Ele sempre se sentava na mesma cadeira de encosto alto e se balançava, olhando o tempo através da janela. Ele não mudava de roupa, o mesmo terno amarfanhado e sujo. Ele não calçava sapatos, meias furadas e chinelos, embora engravatado. Ele nunca sorria quando contava os cúmulos-nimbos que corriam no céu. Ele não cortava as unhas. Ele só se levantava para fazer suas necessidades. Ele dormia na velha cama, vestido como estava, mãos cruzadas ao peito, como morto ou como se rezasse. Ele só tomava a sopa chupando muito caldo da colher, numa sonoridade de doer nos ouvidos e nos ossos. Ele chamava a criadinha, balançava-se na cadeira e ordenava que ela se despisse. Ele a mandava embora em seguida com um gesto de mão e tédio. Ele pedia jornal, qualquer jornal, para uma corrida ligeira pelos títulos com os óculos na ponta do nariz, o jogava-o depois para o lado. Ele não se escanhoava quando fazia a barba, sentado na cadeira e a criadinha com um espelho na mão. Ele ficava com o rosto pontilhado de espuma. Ele não tomava o remédio que o médico receitara. Ele não cortava os cabelos. Ele roncava, cabeça bambeada, a saliva pingando na boca, quando o tempo ia mal e não se podia abrir a janela. Ele rezava e dizia palavrões. Ele recitava versos e os repetia até ficar rouco. Ele tossia e escarrava no chão. Ele soltava gases, em seqüências sonoras, que alcançavam a vizinhança. Ele resmungava e não dizia palavra. Ele cantarolava surdamente sempre a mesma canção. Ele me olhava com olhar neutro. Ele tossia a noite toda, sujava-se nas calças e não permitia que tocassem nele. Ele infernizava a minha vida e a vida da criadinha. Ele era o nosso pesadelo.

Ele ficou assim depois que a esposa se foi, entre círios e flores.

Ele então foi despachado para a companhia dela, depois que trocamos, eu e a criadinha, um olhar de cumplicidade.

Ele continuou presente com a sua ausência.

Ele me assusta quando olho para a criadinha. Ele a assusta quando ela olha para mim.

Ele aumentou enormemente a carga do nosso pesadelo.

Ele nos deixou sem remissão.

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Caio Porfírio de Castro Carneiro nasceu a 1º de julho de 1928, em Fortaleza, Ceará. Dedicou-se muito moço ao jornalismo, na terra natal. Bacharelou-se em Geografia e História pela Faculdade de Filosofia de Fortaleza. Transferiu-se para São Paulo em 1955, onde vive até hoje. Desde 1963 é secretário administrativo da União Brasileira de Escritores de São Paulo. Sócio titular do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do PEN CLUBE de São Paulo, da Academia Paulistana da História, da Academia de Letras do Brasil (Brasília), da Unión Cultural Americana (Buenos Aires) e sócio-correspondente da Academia Cearense de Letras. Ganhou vários prêmios literários e contos seus estão incluídos em duas dezenas de antologias do gênero e traduzidos para o espanhol, italiano, alemão e inglês. O seu romance O Sal da Terra foi traduzido para o italiano e árabe e adaptado em roteiro técnico para o cinema.

Obras publicadas:
Trapiá (contos), Ed. Francisco Alves, Rio, 1961. Mais duas edições posteriores: Coleção Saraiva, São Paulo; Editora Cátedra, Rio de Janeiro. O conto “O Padrinho” foi traduzido para o alemão e o “Come-gato” adaptado para a televisão.
Bala de Rifle (novela policial), em capítulos no jornal Última Hora, SP, 1963. Não levada ao livro.
O Sal da Terra (romance), Ed. Civilização Brasileira, Rio, 1965. Mais duas edições pela Editora Ática, São Paulo. Traduzido para o italiano e árabe. Adaptado em roteiro técnico para o cinema.
O Menino e o Agreste ( contos), Ed. Quatro Artes, SP, 1969; 2ª edição pela mesma editora, em convênio com o Instituto Nacional do Livro, Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, Menção Honrosa do Prêmio Governador do Estado de São Paulo.
Uma Luz no Sertão (romance-reportagem), Editora Clube do Livro, SP, 1973.
O Casarão (contos), Ed. do Escritor, SP, 1975. Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, S.Paulo. Menção Honrosa do Pen Clube de São Paulo.
Chuva – Os dez cavaleiros (contos), Ed. Hucites, SP, 1977.
O Contra-Espelho (contos), Traço Editora, SP, 1981.
10 Contos Escolhidos, Coleção 10 contos – Ed. horizonte, Brasília, 1983, em convênio com o instituto Nacional do Livro.
Viagem sem Volta (contos), Ed. Seiva, SP, 1985.
Quando o Sertão Virou Mar...(Lit. Juvenil), Ed. FTD, SP, 1987. Várias edições.
A Oportunidade (novela), Ed. Mercado Aberto, P. Alegre, 1986.
Profissão: Esperança (Lit. juvenil), Ed. do Brasil, SP, 1986.
Da terra para o mar, do mar para a terra (lit. juvenil), Ed. FTD, SP, 1987. Várias edições.
Três Caminhos (novela), Ed. FTD, SP, 1988. Várias edições.
Dias sem Sol (novela), Ed. Illa Palma – S. Paulo/Palermo, Itália, 1988.
Rastro Impreciso (poesias), Ed. Scortecci, SP, 1988.
Os Dedos e os Dados (contos), Ed. Pontes, Campinas, S. Paulo, 1989.
Primeira Peregrinação (Reminiscências), Ed. Scortecci, S. Paulo, 1994.
Cajueiro sem Sombra (Lit. juvenil), Ed. Saraiva, SP, 1997. Várias edições.
Mesa de Bar (quase diário), Ed. Toda prosa, SP, 1997.
Contagem Progressiva (memórias), Universidade Federal do Ceará, 1998.
Perfis de Memoráveis (autores brasileiros que não alcançaram o terceiro milênio), RG Editores, SP, 2002.
Uma Nova Esperança (de parceria com Maria José Viana e Paulo Veiga) (Lit. Juvenil), Editora Nativa, SP, 2002.
Maiores e Menores (contos), Alpharrabio Edições, São Paulo, 2003.