Insegurança. Vertigem. Uma certa esquisita fobia das luzes lá fora do camarim. Tudo isso antes que a cortina se erga e me exponha aos olhos. Aos olhos multifacetados, maxilares contraídos, às sobrancelhas críticas, pupilas que vigiam a presa, estreitas fendas reluzindo no escuro da platéia. As poltronas rangem, viciosas, buliçosas. Há pelo ar fervição, tresfuror, tesústia.
O camarim feito um sarcófago, um berço de recém-nascido, placenta. Acochado, sufocante, apesar do ar-condicionado a mil. Cabelos encharcados de suor. Maquiagem escorrida no rosto feito os restos de um parto, máscara mortuária, bagaço de flores. Dá impressão que estou de olheiras. Se bem que estou mesmo. Mas não era pra realçar assim. Fico melhor de olheiras? Bem mais intelectual? Mais boêmia? Mais artista? E por que artista tem que ter esse jeito de cachorro que apanhou demais do dono?
Something in the way she moves. A luz negra do meu destino cruel. Ah, cantei. Ninguém cantou tão lindo assim. Um canto de assassino, anjo vingador, bebê chorando no colo da mãe, acalanto, réquiem, tambores de guerra dentro de mim. Sei que tá todo mundo lá fora, minha patota, corte fiel, a de sempre, que coleciona meus discos como troféus de caçador. Todo mundo lá fora, menos ele. Ele não vem, nem virá hoje. Sacana. For once in my life I need somebody. Filho da puta, foi embora, me deixou na mão. Besteira de machão. Se mandou de casa só porque dormi com o guitarrista espanhol, o pianista italiano, o violeiro cearense. Me xingou de promíscua, boceta de lama, puta, galinha oferecida, o ventre numa bandeja feito a cabeça de João Batista. Cold, cold heart. Inútil paisagem em torno de mim. Espelhos, microfones, partituras, bilhetes de fãs, aquele agudo que desafinei outro dia swingando um blues.
Machão de merda, corno safado, cafetão. Gosto dele mais que de mim. Cry baby, cry, a barra pesou. Feito todos os outros não sacou nada de mim, do como é que eu sou, de como a minha banda toca. Meu coração é dele, do homem que eu amo. Lá isso é, por inteiro. Me desdobro, lavo cueca, faço comidinha, faço cafuné, acendo suas virilhas. Meu corpo é de quem me der vontade. Deu vontade no espanhol, comi. Como posso dormir com um homem amando outro desesperadamente? Não sei. Nunca me expliquei. Nem quero. Sou assim e pronto. Novidadeira, inconstante, volúvel, facho aceso dia e noite. Meu ventre é um fogareiro, vagina incediada, fornalha corporal, fogo de morro acima. Do tanto que costumo arder. E queimo. Um tormento nas noites solitárias de domingo que ele passa com a esposa paralítica, cheia da grana. Vadia, cachorra troncha eu grito na cara dele e ele me enche de porrada, gritando: –Respeite a mãe dos meus filhos, respeite a mãe dos meus filhos, transtornado. Dá-me uma ânsia, um vazio, vontade de morrer.
Subo neste palco, alma cheirando a talco feito bunda de bebê, embora haja em mim uma encruzilhada com despacho de macumba. Macumba preta, poderosa, regada a sangue de bode negro. O uísque ajuda a descer um nó de cuspe, sabor de vidro e corte. Até parece que morro de medo do público. Nada disso. Vou lá daqui a pouco, encaro a manada de zebus e canto para tangê-la rumo ao matadouro ou ao encantamento. Meu fascínio, minha maldição. Vou como sempre, vou diante deles, encaro e canto. Não tem mistério. Vou sozinha, na marra, na porrada, no veludo-carícia de minha voz. Uma canção, um som vindo de dentro do meu inferno, do meu paraíso. Tomando-me as entranhas, boca, língua, lábios, diafragma, útero, o buraco do gozo. Eu canto toda. O canto sai de mim e bate neles na veia, feito um pico de coca. Todos sentados lá fora à minha espera, menos ele. Desgraçado. You´ve got a friend. Sei disso de cor e salteado. Ele não virá. Puxa. Nunca pensei que fosse doer tanto nele uma traiçãozinha de merda. Não compreende que meu caso com o tenor polonês foi coisa de pele, sem menor importância? Burro, cavalo.
Outros homens nunca me deixaram marcas, além dos contornos azulados, roxos, vermelhos em minha branca pele, seios, coxas, nádegas. Qualquer modo, estou limpa de cicatrizes afetivas. A memória não guarda nomes, datas, locais, tempos, amores. Outros homens apenas passaram, se foram. Ele, não. Ele é meu homem vestindo uma camisa amarela na quarta-feira de cinzas. Meu moreno fez bobagem. Dessa vez, acho que o perdi. Coitado dele, coitada de mim. Acorda, amor, que eu tive um pesadelo agora. Sinal fechado para nós, ai.
Difícil conviver com tantos fantasmas entre nós. Sei lá, em mim não dói transas antigas. Nele deve doer. Se eu fosse você, eu não voltava pra mim. Voltava sim, seu desgraçado. Não dói em mim ele dormir com outra mulher. Dói muito nele eu trepando com outro, sei disso. Sinto, percebo. Incompatibilidade de gênios. Garçom, se o telefone tocar e se for pra mim, vá e diga pra ele que vivo melhor assim. Mentira, mentira noturna de bar. Que posso fazer? Sou assim tão eu mesma. Meu corpo não sabe de freios, limites. Não sou eu quem vai domá-lo. Gosto do jeito que sou, tal e qual. Ora porra, eu canto pra caralho e ele ainda quer que eu seja fiel?
Lembro. Depois de cada briga, ele mais que puto dentro das calças, depois de me encher de porradas (por vezes merecidas) eu começava a cantarolar I´m a Blues imitando Billie Hollyday, enquanto ele bebia e bebia e mordia os lábios pálidos de ódio. E eu cantando “tire a moça da cabeça ou mereça a moça que você tem”. O Chico me dava uma certeza, uma segurança no meu destino, essas coisas de mulher que os homens não entendem. Na última do guitarrista espanhol, ele se mandou. Sem retrato, sem bilhete, sem violão, sem luar. E hoje vive a me difamar, certamente. Arrumou seus teréns e se foi batendo a porta com tanta força que o trinco quebrou. If you go away. Get back to me, é preciso coragem pra despertar de um sonho bom.
Mais um pouco, estarei lá, entre as feras. Fazer com que entrem na minha. Que vibrem na mesma sintonia. Eu e eles, juntos. Feito ir pra a cama com um carinha tesudo. Desses que me deixam molhadinha só com o olhar. Pois é, solamente uma vez besame mucho como se fuera esta noche la última do universo inteiro. Assim que me sinto em relação a eles, o respeitável público. Um corpo único a que devo seduzir. Aí minha sensualidade explode como uma galáxia, divina, maravilhosa, poderosamente terrível. Eu e minha voz. Brilhando intensamente, ao mesmo tempo perto e distante. Agora eu sou uma estrela, a voz de todos nós. Eu e eles envoltos numa aura de minha voz, em cima, embaixo, na frente, atrás, lá e cá, uma coisa que vai e vem dentro de mim num trem gostoso que nem. Nem vou dizer. Eu canto. Fico arrepiada. Olhos nos olhos. Meus bicos dos peitos crescem, o clitóris se encrespa como se eu estivesse prestes a emprenhar não sei de quem. Quanto mais rápido em cair em cima deles, melhor. Sossego.
Tu me acostumbraste. Tá na hora agá. Vontade de voar numa clave de fá. Estarei pronta? Estou. Digo pra mim mesmo: merda! Onde andarás nesta noite vazia? Com quem estás agora? A gente nunca sabe como vai ser mesmo. Só na hora. Eu e eles. Minha voz entre nós, cada vez mais dentro. Acendo unzinho paraguaio. Smoke gets in your eyes. As times goes by. Minha voz em volta deles, ímã, visgo de pegar passarinho, purple haze. Eu sonhei que estou tão linda, minha voz esplendor. Minha voz. Anzol abstrato dos peixes-alma, sei lá o que esta coisa louca que mexe, remexe, bole, aflitiva, tremeção gostosa antes do próximo orgasmo.
Entre o camarim e o palco, luzes, surpresas, vertigem, medo, susto, I should have know better. Subo cada degrau com pânico de cair. I´m fall in love. Agora, no centro do palco feito uma flor indecifrável, esfinge, esperando o descerrar das cortinas vermelhas, olhos semicerrados enquanto os músicos afiam os instrumentos. Só ando sozinha e no meu caminho o mundo é cada vez maior. Tomorrow is a long time. Que falta me faz meu táxi lunar. Like a rolling stone numa ponte sobre águas revoltas. Fecho os olhos, viajo plena de mim, rouxinol, voz e voz, a minha voz, desespero, gozo, coisa mais linda que existe.
Quando o canhão de luz finalmente tocar meu rosto, meu corpo, todos me verão como sou agora no centro do palco, soberba, órfã de tudo. Palco iluminado, minha vida. Sou uma deusa pagã, enlouquecida, em cujas veias o sangue ferve de símbolos. Todos ficarão seduzidos, eu sereia cantando no alto do rochedo muito distante, para muito além deste mundinho acanhado demais para o que trago na garganta. Eu sou as luzes da ribalta, a fascinação encarnada, a voz misturada de Deus e o Diabo.
A voz cresce na goela, grito alado. E eu querendo um xodó feito a menina da ladeira, morena marina, Amélia, mulher de trinta. A voz fala por si mesma. A voz só é no que sou agora, no palco. O som, a música, o ritmo, o feeling, o bater do coração geral. Nem todo mundo é filho de Papai Noel, seu filho da puta. A voz me rasga a alma feito um frevo crivado de adagas. Foi quando eu topei com você. Você de camisa listrada, canivete na mão e me bateu na cara e me dobrou os joelhos. E o sax cortando o silêncio do palco, soluço abafado, Stella by Starlight sou eu. Não vou passar a vida esperando por ele, cantando um samba de uma nota só. Eu sei que vou te amar, desesperadamente eu vou te amar.
Nunca mais a chama de seu olho verde, olhar tão tímido, tão ingenuamente impuro, o dele. O fogo do desejo em qualquer homem, em qualquer mulher que me deseje, o fogo do desejo de todos, menos dele. Ficarei mais sozinha no centro deste palco imenso, igualzinha a uma flor que se derrete e afunda lenta no charco da beleza. Esfinge. Pra que mentir? De palavra em palavra, metáfora. I´ve got under my skin night and day. O medo de amar é o medo de ser livre. Tirem o meu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor.


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Antônio Airton Machado Monte nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1949. Médico-psiquiatra formado pela Universidade Federal do Ceará; cronista do jornal O Povo, mas essencialmente poeta e contista. Iniciou-se na revista O Saco, onde publicou contos. Um dos fundadores do Grupo Siriará de Literatura. Estreou, no gênero conto, com O Grande Pânico (1979), seguido de Homem não Chora (1981) e Alba Sangüinea (1983), Tem no prelo Os Bailarinos. Participou de algumas antologias: Queda de Braço: uma antologia do conto marginal, Os Novos Poetas do Ceará III, Antologia da Nova Poesia Cearense, Verdeversos e 10 Contistas Cearenses. Tem também uma coletânea de crônicas – Moça com Flor na Boca (Fortaleza: FUNCET, 2004; Ed. UFC, 2005) - e um livro de poesia – Memórias de Botequim (Fortaleza: Ed. do autor, 1978 - Prêmio Governo do Estado do Ceará, 1978).