ÉTICA, POLÍTICA E ESCLARECIMENTO PÚBLICO
ENSAIOS EM HOMENAGEM A NELSON BOEIRA
Ana Fonseca, Eduardo Pohlmann e Gabriel Goldmeier (org.)

Esta obra, em homenagem ao Prof. Nelson Boeira, contém artigos de filosofia prática (ética e filosofia política) de seus colegas e alunos, com quem Boeira conviveu ao longo de muitos anos e para quem foi uma importante referência.

Ensaios de Alfredo Storck, Ana Carolina da Costa e Fonseca, André Klaudat, César Schirmer dos Santos, Claudio Michelon, Daniela Goya Tocchetto, Eduardo Augusto Pohlmann, Eduardo Wolf, Fabian Scholze, Domingues, Fernando Luís Schüler, Gabriel Goldmeier, Gunter Axt, Jaime P. Rebello, João Carlos Brum Torres, Jose Alexandre Durry Guerzoni, José Pinheiro Pertille, Lia Levy, Marco Antonio Azevedo, Marco Zingano, Maria Borges, Milton Fisk, Nikolay Steffens, Norman Daniels, Nythamar de Oliveira, Oswaldo Giacoia Junior, Paulo Baptista Caruso MacDonald, Paulo Faria, Peter Naumann, Renato Duarte Fonseca e Sílvia Altmann.

Afinal, foi naquele chão social e cultural peculiar que Boeira pôde recusar as saídas fáceis e simplificadoras do automatismo ideológico que imperava entre os intelectuais (como ele) à esquerda no espectro político. Ali travou contato com um novo horizonte de pesquisas, seja em seus estudos sobre Max Weber, lido fora das lentes do contraste com o marxismo doutrinário, seja em seu interesse – pioneiro em nosso cenário, aliás – por John Rawls e seu Uma Teoria da Justiça ou, mais tardiamente e, ainda assim, mais uma vez, com novidade para o ambiente brasileiro, em seu interesse por Bernard Williams como um filósofo moral original. Foi esse novo e mais largo universo de interesses filosóficos e políticos que o professor Nelson Boeira ajudou a introduzir no horizonte mental brasileiro, quer orientando teses, quer no debate com seus pares, quer no simples e sagrado ambiente da sala de aula, tanto em sua passagem pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), quanto ao longo de sua carreira no Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Não foi apenas o desafio de escapar das amarras de uma especialização acadêmica limitadora que Nelson Boeira venceu. Sua atuação como homem público – foi Presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS), Secretário de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul e Reitor da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) – não deve ser entendida como um capítulo à parte em sua vida. A lisura no trato da coisa pública, a atitude liberal e democrática na lida com as divergências e a dedicação do indivíduo à construção de uma sociedade melhor e mais justa compõem um todo harmônico com o homem que se entregou aos estudos de Filosofia, Sociologia e História. As duas pontas da filosofia, quando não da vida, para lembrar o célebre romance de Machado de Assis, foram devidamente atadas.
            Vista em perspectiva, essa trajetória revela o empenho em manter viva, em transmitir e em renovar a empreitada do pensamento humanístico e da forma de vida que lhe acompanha. Um interesse traduzidopublicamente, quer por sua atuação como professor e formador, quer por sua atividade de homem público, uma e outra coisa vindo de par, pois temos todos um interesse em tal empreitada – como afirma Bernard Williams, not just a shared interest, but an interest in a shared activity.
Não nos causaria espécie se nosso homenageado, diante da narrativa de sua trajetória intelectual que ora apresentamos – e que subscrevemos por meio deste livro –, constatando-lhe não apenas a coerência que lhe dá unidade como a relevância que lhe confere sentido, buscasse dela como que se defender. Sua nada afetada humildade bem poderia ver ali onde apontamos a convergência de interesses intelectuais diversos tão somente a mais estrita contingência; onde sugerimos a benfazeja união entre formação acadêmica e atuação como homem público, nada além do mais feroz acaso; e onde vemos a exemplaridade de sua entrega à res publica em seu significado mais rico, apenas a mais instintiva improvisação diante das circunstâncias reais que o destino nos vai impondo a todos.
É que a vida de um homem justo – o homem cujo caráter exibe a virtude da relação com o próximo em seu mais alto grau – mostra seu sentido muito mais facilmente quando vista desde a perspectiva da terceira pessoa: o sentido da vida do homem justo reside, por assim dizer, nos outros. E é por isso que coube agora anós, amigos, colegas e ex-alunos, reconhecer na trajetória dele, Nelson Boeira, essa plenitude de sentido. Só podemos desejar que continue a nos ensinar por ainda muitos anos, para que porventura tenhamos a chance de lhe retribuir, cada qual à sua maneira, suas preciosas lições.

Ana Carolina da Costa e Fonseca,
Eduardo Augusto Pohlmann,
Eduardo Wolf,
Gabriel Goldmeier