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VISITA ÍNTIMA:
Sexo crime e negócios nas prisões

Fernanda Bassani
 
Este livro foi escrito na prisão. Parte dele, na maior instituição em atividade no Brasil: o Presídio Central de Porto Alegre, com seus quase 5.000 homens à época. Como psicóloga prisional, tive a oportunidade de respirar o cheiro da cadeia cada vez que procurava inspiração para produzi-lo.
Isso confere ao texto algumas características especiais, sobretudo quando se pensa no lugar de onde se fala: “o dentro” da prisão ou “o fora” na perspectiva da sociedade ampla. Falando de “dentro” da prisão, sofre-se influência das relações de poder internas, o que pode levar a análises contaminadas pelo ronco surdo da batalha. Por outro lado, tem-se visibilidade de uma maquinaria de difícil acesso, mas cada vez mais utilizada na gestão dos conflitos sociais.
Diante dessas condições movediças, procurei estabelecer um túnel que libertasse esse cotidiano: sua linguagem, imagens, lógica, história e personagens. Um túnel escavado com talheres, entre um atendimento e outro, quando a equipe de segurança não estava por perto, quando as luzes se apagavam e o desejo acordava. Assim como fazem os presos no interior de suas galerias, em busca de uma liberdade transgressora.
O túnel foi escavado no Rio Grande do Sul, mas sua luz ilumina um problema nacional: os resultados das políticas de encarceramento em massa adotadas nos últimos 30 anos. Atualmente o Brasil ocupa o 4º lugar em população presa, com 607.700 detentos e um aumento de 575% (Depen, MJ, 2014) nos últimos 25 anos. O livro demonstra que estes números são inferiores ao real impacto social do cárcere. Para manter-se estável, o sistema penitenciário tem utilizado uma grossa camada de cidadãos livres — os familiares dos presos — e um argumento inusitado: a sexualidade. Processo evidenciado nas filas de visitantes que semanalmente levam alimentos, roupas, dinheiro e outros recursos que o Estado não tem conseguido fornecer, mas que são essenciais na manutenção da paz em espaços superlotados e precários.
O desejo de escrever sobre o tema surgiu nos primeiros dias de trabalho, em meados de 2007, quando conheci uma “sociedade de dentro”, com regras e valores próprios. Mas foi na comunicação entre a prisão e a rua que emergiu o mote do livro: as relações entre os homens presos e as mulheres visitantes, a partir da prática da visita íntima.
Uma penitenciária instalada às margens de um rio em um território rural, onde o silêncio só é quebrado pelo burburinho das visitas ou pelo som de tiros, foi o cenário inicial. Afastada da cidade, parada no tempo e pesada na alma, a instituição proporcionou “o pensar a prisão”. Pensar que era estimulado pelas duas horas de viagem ao lado das visitantes. No ônibus, despejavam uma sexualidade despudorada, cujas cenas formavam enredos comuns: pela manhã, dramas ou suspenses. Conversas ansiosas, campainhas de telefone, dúvidas e medos de quem se dirigia para a prisão após uma semana de ausência. Ao final do dia: romances, com final feliz ou triste. Cabelos molhados, cheiro de sabonete, risadas e histórias picantes dividiam a cena com olhares desolados e semblantes cansados. Cotidiano que demonstrava os paradoxos de um amor que emergia entre grades.
Após a transferência ao Presídio Central de Porto Alegre, as sensações mudaram de olhar. Em uma instituição com 22.000 mil visitas mensais o interesse pelo “amor bandido” cedeu espaço à curiosidade sobre a gestão de uma prisão gigantesca em meio à precariedade estrutural. No dia-a-dia, observava da janela gradeada a imensidão de sacolas que passavam pela Sala de Visitas. Ouvia os relatos de presos sobre a organização criada para receber as companheiras nas galerias. Conhecia o comércio do entorno, no qual é possível encontrar “objetos que entram na cadeia” por enquadrarem-se nas regras de segurança. Mas também assistia aos flagrantes na Sala de Visitas, quando mulheres passavam da condição de visitantes para a de presas em fração de segundos. Em meio à multidão de pessoas e fluxos constatava que o amor no cárcere além de corajoso, também podia ser um negócio (de risco).
Como em todo túnel artesanal, não se sabe muito bem onde dará a escavação. Pode-se emergir em meio aos cães que fazem a guarda, antes do muro ou na rede elétrica. No meu caso, o risco de chegar a lugares diferentes dos imaginados confirmou-se. A visita íntima mostrou-se um catalisador de relações não só afetivas, mas comerciais e criminais que dão o tom das prisões brasileiras: não mais isoladas, mas conectadas em tempo real à sociedade livre.
Para entender como se constituiu esse cenário, foi necessário desacomodar verdades, recorrendo à história. Uma longa viagem no tempo foi trilhada, retornando até o início do século XIX para entender como o tema da sexualidade foi abordado nas prisões do passado. Nesse trajeto encontramos estabelecimentos em que homens e mulheres dividiam o mesmo espaço, aguardando o momento da pena de morte dada pelo rei; instituições que acharam na prostituição formas de aliviar as tensões do cárcere; outras em que os corpos dos prisioneiros eram objeto de pesquisa científica; e, em plena Ditadura Militar, momentos em que a visita tornou-se estratégia de resistência política. Época em que descobrimos um fato inusitado: no Rio Grande do Sul, a atual presidente Dilma Rousseff também foi uma visitante em presídios.
As surpresas foram muitas e as imagens que se descortinam ao fim do túnel mostram um cenário pouco romântico. O amor está lá, misturado às grades, muros, sentado junto às mulheres nos ônibus, no peito dos homens que aguardam, mas não é o protagonista. Lançar luz sobre a relação utilitarista que a sexualidade assumiu no ambiente carcerário e os efeitos disso sobre o fenômeno criminal, tornou-se o principal desafio da escavação. Por fim, a leitura desse livro exigirá a lembrança de que até mesmo o amor pode ser uma relação de interesses.