O visitante

Era a última caixa que eu carregava. Cheia de objetos pessoais, bugigangas acumuladas por vários anos. Esparramei tudo em cima da mesa, tinha que achar um lugar pra arrumar cada uma. No fundo da caixa, encontrei uma moldura com uma foto que eu nem lembrava mais que existia, a única coisa que me sobrou dos tempos de faculdade. Coloquei o quadro em cima do balcão da cozinha, foi o lugar que me pareceu mais apropriado no momento. Pelo menos até que eu arrumasse toda a mudança.

A casa não era grande, mas nos fundos, grudado na parte principal, tinha um galpão. O acesso era pelo lado de fora, e podia ser utilizado como depósito de velharias. Eu sempre tive dificuldade de me desfazer das coisas antigas. Quando substituídas, ficavam depositadas em algum lugar, às vezes ocupando espaço. Agora, com aquele cômodo sobrando, isso não era mais problema.

Foi lá que meu pai morou quando separou da minha mãe. Era da irmã mais velha dele, então ela vendeu pra mim, num negócio de família. Ir morar naquela casa foi uma maneira de voltar ao meio familiar, pois minha mãe já tinha morrido, e meu pai sumiu pouco depois da separação, quando eu era criança, e nunca mais ninguém soube notícias dele. A imagem que me ficou na lembrança é muito vaga, e minha mãe também não falava no assunto, desconversava quando eu perguntava, de maneira que eu nunca soube direito o que foi que aconteceu. Uma das poucas coisas que lembro é que, à noite, depois da janta, ele servia um cafezinho, pegava um cigarro, sentava na beira da porta da cozinha, virado pra rua, e ficava fumando. Passava bastante tempo ali, em silêncio, com o olhar perdido no vazio da noite. E não adiantava a gente inventar uma brincadeira, nem mesmo chorar, ele olhava um pouco, acho que via que não era nada demais, fazia uma cara meio de brabo, se virava de novo pra rua, e continuava fumando. Minha mãe implicava, fumando daquele jeito ia estourar o pulmão!

No primeiro dia de mudança fiquei exausto de tanto trabalhar sozinho, nem vi a noite chegar, e já era hora de trancar as portas e descansar. Pela janela da sala avistei uma pequena mala esquecida lá fora, e saí pela cozinha em direção à rua. Ao me aproximar, percebi a porta do galpão entreaberta, e lá de dentro, um ruído. De longe não identifiquei o que era, de perto parecia uma tosse, um gemido. Imaginei algum cão da rua escondido do frio. Na escuridão não era possível enxergar o que acontecia lá dentro. Apenas um vulto se mexia num canto. Cheguei mais perto, perguntei se tinha alguém ali e ele, de um pulo, pôs-se de pé. Era um homem. Recuei sobressaltado. Ele se jogou no chão, como um animal acuado, com as mãos em posição de defesa, como se estivesse sob ameaça. Apesar de assustado, pedi que se acalmasse, ele não corria perigo, Perguntei quem era, de onde vinha, se não tinha outro lugar pra dormir. Não obtive nenhuma resposta. Ele apenas foi se enroscando no próprio corpo, e os gemidos foram diminuindo, até que ficou em completo silêncio. Falei que podia dormir ali aquela noite, mas que no dia seguinte procurasse outro lugar; a casa agora era minha, eu acabava de me mudar, não permitiria mais que entrasse. No galpão não havia lâmpadas instaladas e já era noite escura. Tudo o que pude ver, auxiliado por raios de luar nas frestas da parede, era que ele tinha barba grande e uma cabeleira comprida e desgrenhada. A roupa consistia de trapos. De perto exalava um cheiro bem desagradável. Aquela insistência em ignorar minha presença começava a me irritar, eu não queria chegar a extremos. Resolvi deixar para o dia seguinte, voltei pra dentro de casa e tranquei todas as portas e janelas. Antes de ir deitar ainda verifiquei tudo mais uma vez.
Dormi muito mal, acordei cedo e cansado. Levantei e corri para o galpão. Não havia mais ninguém lá. Vestígios no local denunciavam que o meu visitante habitava ali há bastante tempo. Um pequeno banco de madeira, já meio apodrecida, os trapos velhos usados como cama, e na parede, uns pregos que serviam de cabides. Era preciso remover toda aquela sujeira. Varri o chão, tirei muitas teias de aranhas dos cantos, juntei os panos, o banco e queimei tudo numa fogueira no pátio. Depois instalei uma lâmpada e consertei a porta de madeira.

Passei aquele dia inteiro envolvido com arrumações e limpeza. Não podia perder tempo, no céu nuvens pretas se acumulavam comprovando a previsão do rádio de forte chuva e temporal para as próximas horas. Era tanta coisa pra fazer que nem vi a noite chegar. Distraído entre tantas tarefas, e empolgado com os planos para a nova morada, esqueci de cuidar a entrada. Quando ouvi um barulho nas correntes que seguravam o portão de ferro, era tarde demais, o homem já vinha entrando, se dirigia ao galpão. Agora chega, pensei, isso não pode continuar. Corri a interditar o caminho, ia expulsar aquele intruso que já começava a me incomodar. Falei que não podia mais entrar, minha casa não era um asilo, que procurasse outro lugar, a noite seria muito fria. Foi tudo inútil, ele seguiu em frente, como se não me ouvisse, nem mesmo me enxergasse. Ao perceber o galpão limpo e arrumado, sem os trapos que usava para dormir, abriu um saco que trazia nas costas e tirou um monte de jornais, fez com eles um ninho, e deitou-se, como se eu não estivesse ali falando com ele. O único som que emitia era aquela tosse seca de vez em quando. Era como se eu fosse um ser completamente invisível para ele. Fui pra dentro de casa desanimado, com medo. Numa hora dessas seria bom ter alguém a quem pudesse chamar, pedir ajuda. Depois me arrependi de ter queimado tudo o que ele usava pra se agasalhar. Com aquele frio poderia ter problema de saúde. E se morresse na minha casa? Essa idéia me deixou apreensivo e com remorso. Talvez ele não fosse uma pessoa ruim, apenas um pobre infeliz que vivia como um animal. Já era tarde e eu sentia o estômago vazio. Servi o resto do almoço que eu mesmo fiz. Ainda tinha o suficiente para duas pessoas. Poderia ser uma maneira de eu quebrar aquela barreira intransponível entre eu e ele. Dividi em dois pratos e levei um para ele. Meio assustado aceitou a comida e se serviu. Era pouco, mas ainda estava boa, eu disse. Ele não respondeu, apenas olhou firme dentro dos meus olhos, depois desviou o olhar, e comeu em silêncio. Tentei uma aproximação, perguntei seu nome, de onde vinha, por que escolheu aquela casa? Para todas as interrogações o mesmo silêncio e o mesmo olhar enigmático, como se precisasse refletir muito para entender o sentido das perguntas. Agora, com a lâmpada no galpão, eu podia observar melhor, vi que era velho, curvado, uma expressão de cansaço. Por fim terminou a refeição, devolveu o prato, meteu a mão na mochila de saco encardido, pegou uma bagana de cigarro e um isqueiro. Acendeu, deu uma tragada profunda, com expressão de grande prazer, foi soltando lentamente, e se pôs a observar a fumaça subindo no ar. Um vento forte invadiu o galpão, batendo a porta para trás. Um redemoinho varreu o chão levantando poeira, e o ar frio vindo da rua provocou nele arrepios e um acesso de tosse, que fez com que ele retornasse do estado de meditação. Largou o cigarro no chão, se aninhou em cima dos jornais, com o corpo encolhido abraçado às próprias pernas.

Eu também me sentia cansado e com sono, não tinha mais motivo para permanecer ali. Ainda precisava arrumar minha cama. No quarto, abri o roupeiro e o contato com a roupa grossa de lã me fez pensar no frio que aquele homem ia sentir durante a noite. Peguei um acolchoado velho reservado para as noites de inverno mais rigoroso. Fui até o galpão, me aproximei em silêncio e estendi a coberta por cima dele. Não reagiu, apenas estendeu o corpo e se encolheu novamente, como se precisasse se ajustar ao agasalho. Eu voltei pro meu quarto, deitei e apaguei a luz.

Não conseguia dormir. Lá fora o vento, batendo no canto da casa, uivava, como uma pessoa gemendo. Aquilo me atordoava, eu tapei a cabeça com o travesseiro, mas não conseguia me livrar do barulho. Quando criança eu tinha medo de temporal, me escondia em baixo da mesa da cozinha, onde minha mãe estava sempre ocupada com as costuras dela. Teve uma vez em que começou a chover e trovoar, eu corri pra me esconder, e por baixo da mesa dei com os olhos do meu pai me olhando. Sentado ao lado da minha mãe ele ajudava no trabalho. Olhou pra mim, deu um sorriso, levantou e saiu, sem falar nada. Ali na escuridão do meu quarto o barulho do vento me trazia de volta o silêncio do meu pai, junto com a presença incômoda daquele pobre infeliz lá no galpão.

Depois da ventania uma forte chuva se abateu sobre a casa, as goteiras agrediam os vidros das janelas. Exausto, eu adormeci.
No dia seguinte fui ver como estava meu hóspede. Minha cabeça doía por mais uma noite maldormida. Eu estava decidido a fazer ele falar, dizer quem era. Talvez uma xícara de café quente quebrasse aquele silêncio. Mas, como aconteceu antes, ele tinha partido, deixando apenas a coberta que lhe dei.

Era o meu último dia de folga para a mudança e ainda havia bastante pra arrumar, precisava me apressar, pois o clima ainda era muito instável e a chuva poderia voltar a qualquer momento. O dia se passou, eu envolvido com minha casa nova. Me apresentei aos novos vizinhos, na tentativa de conseguir alguma informação sobre o meu visitante. Ninguém sabia quem era ele, o que me deixou ainda mais intrigado. Quanto mais eu tentava me distrair na arrumação da casa, mais aquela história me incomodava, tornava-se uma obsessão. Com certeza ele voltaria à noite, eu desesperava por uma maneira de esclarecer tudo. Eu precisava conquistar a confiança, fazer ele falar.Talvez ele tivesse algum parente, um lugar para onde pudesse ser levado. Seria uma maneira de me livrar dele sem dor e sem cenas dramáticas. Apelei para o instinto de caridade. No roupeiro separei algumas calças e camisas velhas que não me serviam mais e eu mantinha guardadas À noite, quando ele chegou, convidei para entrar, mostrei as roupas, seriam dele se quisesse. Não respondeu nada, apenas olhava, sem uma reação. Mostrei também o banheiro, uma toalha limpa e o sabonete, que ele tomasse um banho pra vestir a roupa nova. Enquanto isso, eu prepararia uma janta. Quando saiu do banho, os pratos já estavam na mesa. Dei uma risada de satisfação ao perceber que aquele traje servia perfeitamente a ele. Sentamos à mesa e eu servi a comida. Ele olhava para o prato, olhava pra mim, como se não soubesse o que devia fazer. Eu disse que comesse senão a comida ia esfriar. Decidi que não perguntaria mais nada, se ele quisesse falaria alguma coisa. Terminada a janta fiz um cafezinho. No primeiro gole estalou a língua no céu da boca, e no seu rosto percebi uma expressão de prazer, como se estivesse provando uma iguaria rara. Pegou uma bagana na mochila, acendeu, deu uma tragada forte, soltou lentamente a fumaça e contemplou absorto o risco azulado que se perdia no ar. Aquele ritual me deixou tenso novamente. Eu olhava fixamente o seu rosto, ansiava por uma palavra, uma resposta. Enquanto fumava, corria o olhar pelos objetos da cozinha, até que deu com os olhos na minha foto em cima do balcão. Levantou devagar, se aproximou e olhou a foto com atenção, olhou para mim como para conferir se era eu mesmo, achei que ia falar alguma coisa, mas a expressão do rosto mudou de repente, ele voltou a ter aquele olhar vago, como que perdido no vazio, pegou a sacola no chão, jogou sobre o ombro, e se retirou, tão depressa que não tive tempo de agir. Ainda pensei em convidar pra dormir dentro de casa, eu faria uma cama no chão da sala, ele dormiria protegido do frio. Mas aquela retirada foi tão repentina que eu não tive ânimo para impedir.

No dia seguinte levantei mais cedo e corri para o galpão, Ainda no lado de fora ouvi um gemido mais forte, e uma tosse intermitente. Perguntei se estava passando mal, sem lembrar que ele não respondia minhas perguntas. Mas não precisou responder, pois ao me aproximar vi manchas de sangue no chão onde ele dormia.

Chamei um táxi e corri para o hospital. Fui direto ao atendimento de emergência, onde ele foi colocado numa maca e carregado para dentro. Fiquei na sala de espera, observava as pessoas que vinham em busca de socorro, algumas chegavam sozinhas. De repente me ocorreu que se eu precisasse dar entrada no hospital teria que vir sozinho. O aparelho de TV ligado à minha frente me fez dormir. Acordei com a voz da enfermeira e percebi a sala já quase vazia. Perguntou se eu era parente. Respondi que sim, não estava disposto a explicar toda aquela história. Ela fez um sinal pra que eu seguisse na frente. Entrei na sala e avistei a cama onde ele estava, com as costas voltadas para a porta. Como se sentisse minha presença, virou para mim. Girou o corpo com dificuldade, e seus olhos procuraram os meus. Me olhava fixamente com aquele mesmo olhar misterioso que me interrogava. Eu sabia que ele queria me dizer alguma coisa. Parado no meio do quarto esperava ainda uma palavra, um sinal que me dissesse algo sobre ele. Mas aos poucos seus olhos foram perdendo o brilho, desfalecendo e o olhar se perdeu no vazio. Já não me via mais. Numa última tentativa de obter uma resposta me aproximei do leito, mas fui retido por um toque no braço. Era a enfermeira. Aproximou-se, pôs a mão levemente sobre a testa do homem e deslizou sobre sua face. Eu olhava passivamente aquela cena, até que ela fez um sinal pra eu me aproximar. Obedeci. O rosto dele estava transfigurado, embranquecido, os olhos fechados. Ela, então, olhou para mim e falou "Pronto, acabou". Fiquei ainda parado um pouco no meio do quarto, olhando para aquele corpo inerte em cima da cama, depois caminhei em direção à porta.