Rosa

a Clemente Bata, meu amigo

À entrada a rosa vinha nas mãos da Lola e o cobrador nem deu por ela porque estava mais preocupado com o dinheiro dos passageiros que desciam e depois pelos que chamava para entrarem, gritando Zimpeto, Zimpeto! Ela viajava sentada entre as coxas da Lola sentada no banco castanho. O Gito, de pé, tinha o olhar sobre a saia branca da Lola, onde ela, a rosa, sobressaía vermelha redonda, com as pétalas a armarem o voo. Zimpeto, Zimpeto! entra senhora! e ao motorista, vamos mestre!

Não vou para casa agora. E a Lola, ooh Gito, eu também não! Enquanto isso a rosa sugava o olhar do Gito, e ele desejando-a? entre as coxas da Lola, de pétalas abertas, sobre a saia branca.

Os passageiros fingiam não ver a rosa vermelha entre as coxas da Lola, pareciam ter medo de serem sorvidos por ela e ela divertia-se surpreendendo tímidos olhares de esguelhas. A velhota sentada ao lado da Lola olhava-a indiscreta, via os espinhos agarrados à saia, desfiando-a ligeiramente, e lembrava-se dos milhares de vezes em que estivera sentada em cima de coxas, há muitos muitos anos, quando ainda se era romântico sem o propósito de sê-lo, mas hoje não está mais, está dentro do chapa, milhares de vezes sentada num banco castanho e ao lado da Lola, em viagem para Zimpeto, com as florinhas da sua capulana fazendo cenas de ciúmes à rosa da Lola. Todos os outros passageiros fingiam não ver as florinhas das suas camisas, blusas, vestidos (cuecas e calcinhas) a murcharem ao lado daquela rosa e a deixarem de falar umas com as outras (camisas e blusas cuecas e calcinhas), não mais se ouvia o chinfrim habitual das flores das roupas, e a capulana da velhota apagava-se. Dentro do chapa, toda a cor era a rosa vermelha sobre a saia branca.

A rosa, espreitando entre as coxas da Lola, via tantas pernas no chapa em vasos de varios tamanhos, altos, rasos, largos, finos e de várias cores, e lia sadida, nique, vê-se que não sabia ler, e pensou alto: que jardim tão apertado este dos homens, não admira o mau cheiro. E olhando para o homem atrás do bigode, faces perladas e em baixo de fios de cabelo voando, pensou que ele tinha as raízes ao contrário. E na sua ideia o Gito vinha semeado num vaso 42, preto, sem escritas, e no entanto ele cheirava mais era pela boca que insistia que não ia para casa e a Lola rogando, vá lá, leva lá, e o Gito ok pronto... mas eu não vou para casa agora Lola, eu também não Gito. A velhota continuava no chapa e ia para casa, em Zimpeto.

Bota-Alta mestre, gritou o cobrador, e o Gito desceu com a rosa na mão. As florinhas nas capulanas da velhota indo para Zimpeto respiraram de alívio, murmuravam chamando-se umas outras como se estivessem a brincar às escondidas, faziam o chinfrim habitual as suas cores desbotadas pelo sabão dos anos. Todos os passageiros viraram seus olhos para a saída atraidos pela rosa. E as florinhas das suas roupas emergiam, e um vozear recomeçou.

Toda a gente olhava para o Gito com a rosa na mão, sem dar conta do espinho cravado na sua cabeça, mas eu não vou para casa agora. As abelhas na rua não sabiam onde olhar, para o Gito ou para a rosa? Achavam o Gito bonito, mas nenhuma olhava para ele, senão à rosa que fazia olhinhos para elas. E sabiam que não era para elas, que romântico o moço, certamente que ele vai oferecê-la, ou será que brigaram e vai fazer as pazes com ela, quem me dera! E Gito também não dava por elas a voarem em sapatos altos, rebolando as bundas que espreitavam pelas saias, tentando encetar um papo com os umbigos prateados e dourados outros, mas estes estavam mais preocupadas em ver os carros luxuosos que as bocas vermelhas anunciavam; tudo por causa do espinho cravado na sua cabeça repetindo não vou para casa agora, eu também não... entregas à minha mãe. O vaso em cima da mesa da sala esperava a rosa que pela rua admirava o feio jardim humano, vagabundo, acendendo os olhos fingidos de sol, referia-se aos óculos.

O Gito com a rosa na mão trémula, entrou num prédio. O elevador deu um solavanco, e a rosa lia 1, 2, 3... ui que tontura me dá isto. E o elevador viu ou ouviu o cheiro da rosa tonta, e de repente devagaroseou de propósito para se perfumar no máximo até chegar ao sétimo andar. E ele para a rosa, sétimo andar querida! onde o Gito era esperado. E o espinho não vou para casa agora, oh meu tempo! (tempo, deus das rosas) nunca mais o vaso em cima da mesa da sala, desesperava-se a rosa ao sentir suas pétalas encolherem, e o elevador volte sempre! Um beijo ansioso abriu a porta 7o direito antes da campainha, estilo a rosa anunciou a chegada. Os lábios da Carla nos do Gito nem deram pelo espinho na cabeça do moço. Que romântico amor! era a mão da Carla sobre a rosa esquiva e a queixar-se ao beijo na boca do Gito que gritou, não é para ti amor. Como não, amor? Não é minha rosa amor, não sou tua rosa amor, sou do vaso em cima da mesa à minha espera amor, mbora lá! Gito pá... oh meu tempo!

No chapa já não havia rosa, pairava o quotidiano cheiro a suor nas florinhas das camisas vestidos e blusas; o ciúme das florinhas na capulana da velhota desvanecendo-se, ria-se das coxas da Lola sem a rosa entre elas. A Lola não ia para casa, entregas à minha mãe, senão murcha.

À porta do sétimo andar, a Carla e o Gito: Então é para quem esta rosa? Minha vizinha, amor... então agora ofereces rosas à tua vizinha? Não, não é isso, é dela. Ah, ela ofereceu-te a ti como quê? Não, amor! é da minha vizinha, a Lola, entregou-ma no chapa porque não ia para casa. Ao menos saiba mentir. A rosa fingia não ouvir nada, baixinho, mentia uma reza pedindo para chegar ao vaso intacta, e ia puxando o Gito pela fralda da camisa: oh Gito, tanta sede, mas ele nem lhe ligava nenhuma: Tu-nã-traí-é-ste-isso-me amor-não-eu-te-ex-que-pli-ro-co ver-a-mais-amor!.... A rosa ouviu que não valia a pena. E uma gota choveu da cara nublada da Carla para cima da sua pétala e comoveu-a. A porta estrondosa na cara do Gito e ele abre a porta Carla, desesperado tentava explicar à rosa o mal que ela tinha causado, o espinho cravado na sua cabeça, repetindo eu também não vou para casa agora Lola. E agora?

A Lola a não subir o elevador que só sabia dizer avariado, avariado meninas e meninos, avariado à velhota que ia ao útlimo andar e avariado à todos os olhos que o olhavam. Ela subiu as escadas, 10 andares, balanceando, sem a rosa entre as coxas. Chegada ao nono andar, tirou da bolsa um lenço de papel para limpar o suor que lhe perlava as faces e enxugou os sovacos, e tirou também uma botija, alçou os braços, pxii, pxii, pxiiiiiiii. Não vou para casa agora, senão murcha.... tocou a campainha, e um beijo de bigodes picantes abriu-lhe a porta e suspirou que saudade! estás uma rosa amor. Os dois corpos num só foram engolidos pela porta que se fechou atrás deles, ajeitada com o pé do beijo de bigode picante.

A rosa premia o botão a chamar o elevador para o sétimo andar, Gito vamos, o vaso. Entregas à minha mãe é que senão ela murcha, mas eu também não vou para casa. Eu te explico amor! A mim não enganas. Gito vamos, o vaso à minha espera, oh amor, eu te explico o mal que me causaste, a rosa recusava-se a ouvir os lamentos do Gito, e o Gito irritado porque ela não queria ouvi-lo, abre a porta, e a rosa premia o botão do elevador outra vez, Gito vamos! E ele quase chorando e duplamente irritado, eu te explico amor, estás a ver o mal que me causaste?! Afinal a rosa a rolar desamparada pelas escadas abaixo, gritando socorrooo!!! o Gito a entrar no elevador, e este perguntando-lhe e a rosa? Cala-te! rés-do-chão...

A velhota a chegar a Zimpeto, a descer, com as suas florinhas na capulana a fazerem o chinfrim habitual, as abelhas não davam por elas, olhavam somente para a velhota de capulana, linda.

A mim não enganas. Ninguém vai para casa?

ROGÉRIO MANJATE nasceu em Abril de 1972, na cidade de Maputo, no bairro da Malanga, onde cresceu e vive. É actor de teatro, no grupo de Teatro Mutumbela Gogo, desde 1992; sendo que em 91, começou no grupo Mbêu, e trabalhou em ambos grupos os até 1995. Além disso é estudante de Agronomia na UEM. Em 2001 publicou o livro de contos »Amor Silvestre« – Ed. Ndjira (Prémio Literário TDM 2001 – Conto) e em 2000 fez a selecção dos textos do livro, »Colectânea Breve de Literatura Moçambicana« – Ed. Projecto Identidades e Gesto Cooperativa Cultural – Porto. Em breve publicará seu primeiro livro infanto-juvenil: »Casa em Flor« (Prémio de Literatura para Crianças do FBLP 2002). Além disso é membro da AEMO e tem colaborado em jornais e revistas com contos e poemas. Como jornalista é o responsável e editor da Revista Literária Maderazinco