O papa-figos

Maria Inês Drummond Fortes

A um amigo d’outras terras que também ama a Terra.

Era uma vez um menino. Bom... “Era uma vez”, não parece muito verdadeiro, pois remete ao illo tempori, princípio tão remoto que o próprio tempo esqueceu. Não quero isso. O protagonista desta historieta foi menino num passado nem tão distante assim. Quatro décadas, talvez um pouco mais. Cinco? Não saberia dizer, mas isso pouco importa, Afinal, o que poderiam representar uns poucos decênios diante dos evos e evos de um simples piscar dos olhos de Brahma? Neste caso, mudarei a fórmula e começarei de novo: “Um dia, um menino” — assim me parece melhor e então....

Um dia, um menino acordou meio sem ter o que fazer ou, pelo menos, achava que não. Perambulou pelo quintal, consciente, em parte, do cheiro bom e fresco que emanava do chão. Chovera durante a noite, mas, de certo, não fora uma tempestade. Pancada rápida, só para aliviar as plantas, sentar a poeira e acordar a terra. O perfume da terra...
O menino desta história vivia num lugar diferente do meu, um oceano inteiro mais longe. Por isso, naquela manhã, não sentiu no ar o leve travo do ferro molhado. Mas quem se importa? Em compensação, ele deve ter percebido mil outros olores que não fazem parte do meu buquê. Isso é irrelevante. Tanto a terra quanto os meninos são similares em qualquer lugar e as pequenas diferenças que, por ventura, possamos detectar, decorrem apenas das incontáveis variações sobre um mesmo tema, pois que a melodia ou a “Grande Sinfonia”, esta é universal.

No quintal havia uma figueira. Enorme, fecunda, generosa. Generosidade expressa em figos, perfumados, deliciosos. Sabiam a flor e a mel.
Frutos e abrigo atraiam não somente os tordos da região, mas toda uma irrequieta população de outros pássaros, para os quais a figueira não só era, como sempre fora. Estivera naquele lugar, desde sempre, participando da eternidade cósmica dos deuses, vegetais ou não. Mas a esta ralé alada nada disso importava, que eles só vinham por causa dos figos. Porém, abrigados ali, havia ainda uma outra raça de pássaros. Estes dividiam a figueira com a arraia miúda, pois que os tempos, que ora corriam, não eram fáceis... Pertenciam, contudo, a uma outra raça. Maiores e mais bonitos, eram também, muito, mas muito mais antigos. E mais sábios, pois desta antiguidade remota lhes viera a sageza. O tempo os tornara ariscos. Difíceis de se ver e mais difíceis ainda de se deixarem apanhar. O povo da terra os chamava “papa-figos”.

E o povo não estava de todo errado, pois nunca está, entretanto, pouco sabia daquela raça de aves, além do fato de também tirarem seu sustento dos figos maduros.
Porém, entre os “papa-figos” e o resto dos inquilinos da figueira havia uma diferença abissal: aqueles compartiam da natureza da árvore. Eram sua alma e sua essência. Mas, o maior, mais belo e mais sábio, dentre todos eles, era Garuda, seu rei.

O menino sonolento que vagava pelo quintal naquela manhã, tampouco sabia nada disso. Entretanto, pisava com seus pés descalços o solo úmido, suavizado pela chuva da véspera, percebia o cheiro e as cores da terra e sem que se desse conta, tornara-se uno com ela. Por isso, ao olhar para figueira pode ver Garuda, ainda que este estivesse camuflado sob uma folha. Garuda também viu o menino, mas nada podia fazer, pois, naquele instante, ambos haviam se tornado um só.

Entretanto, a visão do “papa-figo” acordou no garoto seu instinto de Homem e ele se lembrou da velha espingarda do pai. Talvez a arma nem fosse grande coisa, pouco mais do que aqui chamamos “pica-pau”... Ainda assim, saiu disparado em busca dela. Sob a folha da figueira, Garuda o esperou. Sabia que o sacrifício era inevitável.

Já armado, o menino olhou firme para o pássaro, ainda imóvel, mirou com cuidado e puxou o gatilho. O estampido causou um rebuliço consternado na figueira e dezenas e dezenas de aves fugiram para longe, em grande alarido. Todavia, ao olhar para o chão, o rapazinho viu um “papa-figos”, morto aos pés da árvore. Recolheu-o e o pendurou na cozinha. Na verdade, estava algo apreensivo, pois não sabia como reagiria o pai, mas tinha uma leve esperança que tudo decorreria pelo melhor. O uso da arma tinha sido um ato não consentido, mas havia um troféu...
Assim, quando o pai chegou, à noite, olhou, sorriu e considerou o feito como uma façanha porque é bem difícil apanhar uma ave daquelas.

Não se sabe se por isso, ou por qualquer outra razão, os "papa-figos" foram desaparecendo e agora já não se vêem. Existe, porém, a remota esperança que voltem, mas tudo dependerá da próxima encarnação de Garuda. Aliás, com os deuses do panteão indiano nunca se sabe... Encarnam e desencarnam com a maior facilidade e a gente jamais pode adivinhar sob qual forma voltarão. Sem falar na dificuldade extra em imaginar por que diabos, Garuda resolveu encarnar em terras minhotas, tão longe do seu país natal. Talvez tenha vindo em alguma caravela. Quem sabe?

O menino cresceu e agora já é um homem, pra lá de feito. Talvez, por influência de Garuda, andou a vida toda em busca do Sagrado. Chegou a estudar numa escola de magos negros e percorreu todos seus meandros, mas não pode encontrá-lo, pois, simplesmente, não estava lá. Desanimado, freqüentou um ashram para guerreiros, onde lhe ensinaram a manipular armas bem mais sofisticadas que a velha “pica–pau” do seu pai. Lutou muitas guerras, tanto as sutis quanto as concretas e, talvez, tenha derramado algum sangue além do de Garuda. Talvez...

Aprendera sobre a Morte, mas ainda não encontrara o Sagrado.

Um dia, cruzou o Lethes de volta ao seu lugar. Bem... Não era exatamente o Lethes e sim, o rio Lima, mas que diferença faz? Ele já não era mais um garoto sonolento. Ao contrário, andava bem acordado. Por isso, ao trabalhar o solo e pisar, descalço, o chão que era seu, aspirou de novo o cheiro da terra. O cheiro bom e limpo da Terra. Mas era diferente agora e ele se sentia Uno com ela. Compreendeu então, que o Sagrado pelo qual tanto buscara, sempre estivera nesta união. Assim, a verdade imemorial foi assimilada e renovada com a força de uma primeira vez.

Até acredito (e será bem possível) que Garuda resolva reencarnar em seu sítio, de novo, como "papa-figos". Pelas artes do eterno retorno, é claro...

MARIA INÊS DRUMMOND FORTES, brasileira, médica, reside no Estado do Rio de Janeiro