Grama

Ele nunca admitiu não saber o que falar, por simplesmente não ter o que falar. Em algum momento, o assunto corrói, os assuntos se tornam óbvios demais para ser expressados. A última coisa que Roger queria ser era inexpressivo e repetitivo. Às vezes conversava meio temeroso, não pelo que falava, mas por já estar pensando num próximo assunto, sem que o silêncio se prevaleça. Não era um grande conversador, pois sabia buscar também pretextos para nada falar. Amarrava o cadarço ou ligava a televisão, fingindo possuir uma grande atenção no que via. Os comerciais, às vezes, eram um martírio. Dizem, entretanto, que uma amizade se vê quando você fica em silêncio com o amigo e não se sente constrangido, quando os dois já trocam sílabas telepáticas.

Roger não queria pôr em prova essa teoria ao lado de Vera. Poria tudo a perder, seria um ponto negativo para ele, poderia encará-lo como só um possível namoro rápido, já que depois de uma semana caminhando juntos até em casa, voltando do colégio, o momento-sem-assunto se reinaria. 


Ao mesmo tempo Roger não queria ser piegas. Sentia-se como numa prova insolucionável quando o ponteiro do relógio já indica o fim dos tempos. Branco na mente e preto na criatividade. Onde estavam as idéias?

Roger tinha o símbolo do seu colégio no peito e uma mochila nas costas assim como Vera. Ambos estudantes e quase vizinhos. Ela era uma caloura na sala dele, a oitava série SALA 04. Só após três semanas estudando no mesmo cubículo de trinta alunos, descobriu que moravam perto. Outro ponto em comum: pais com medo da gasolina, assim preferiam deixar os filhos andarem por um quilômetro. Caminhando por uma trilha de árvores em meio à duas avenidas movimentadas. Era um paradoxo urbano, uma selva tecnológica, onde carros grunhiam ao invés de bichos. Mas não era um inferno, era apenas um prelúdio de purgatório. 

Roger e Vera caminhavam lado a lado, cobertos pelas sombras imensas das árvores, ao mesmo tempo que vinham brilhos nos veículos. Sem paredes e sem grades de proteção. Vulneráveis aos solavancos da rotação e à colisões de valores. Um menino e uma menina percorrendo uma trilha. Hoje em dia, dizem que até isso já é preliminar. 

O garoto de catorze anos e onze meses queria a garota de catorze anos e três meses por motivos óbvios: ele era homem e Vera uma singular e bela jovem. Agora era só uma questão de tempo e do divertido jogo sedutor, sendo este um dos melhores momentos da relação. Alguns colegas não gostavam quando percebia que tinham de agir, como se estivesse devorando uma fruta nem verde, nem completo e visse que ela amadurecera em suas mãos.

Roger olhou para o lado e viu o tapete de grama que era logo embaixo das árvores. Quando já se contava quinze segundos em silêncio, ele apontou para o verde e disse:

- A natureza é magnífica, não? - mesmo que já tivesse comentado isso alguma vez.

- Tem razão. - a menina parecia até o estar testando, pois não dava aberturas. Por que não dizia: "É lindo! Você precisa ver na fazenda de meu tio, um louco que adora colecionar pontas de lápis caídas..."

- O que você acha de se deitar aí?

- Como assim deitar-se aí? - perguntou Vera, indrécula.

- Assim como se faz na cama para dormir. 

- Mas a minha cama é em meu quarto, muito longe de tanta gente estranha e é algo totalmente normal. 

- É clichê perguntar "o que é normal"?

- Totalmente.

- Mas pense que sensação de paz não deve ser. 

Vera riu brincalhona:

- Eu bem que desconfiava da sua loucura

- Do que tem medo ao se deitar aí?

Nesse momento eles já estavam parados no passeio, com o tênis confortando e a camisa absorvendo o calor do meio-dia. 

- As pessoas olhariam feio e diriam que eu sou doida. 

- Por que isso lhe incomoda?

- Não me sinto legal. 

- Eu não me convenço. - falou Roger - E a sua recompensa? Quem sabe uma boa sensação ou só o fato de um dia poder contar que se deitou nessa grama em plena hora do rush? 

Ela se mostrou um pouco mais convencida, então permaneceu-se calada, para que logo Roger continuasse a discursar:

- Se não forem esses pequenos fatos, o que terá para contar? Situações engraçadas ou que as pessoas possam usar para suas vidas! Eu sei que você deve ouvir muito sua avó dizer, mas não acho que as pessoas estejam mais interessadas em saber se você gosta de comer pão ou não. 

- Você está dizendo que cada vez mais todos vão perder o interesse pela individualidade do outro?

- Possivelmente, a corrida do conhecimento pode começar a nos privar de assuntos mundanos, ou como alguns declaram: fúteis. É só minha opinião, pois não quero generalizar - e ele sorriu ao completar - Deve ter um autor ou compositor agora mesmo me xingando de alienado, sem-liberdade, egoísta, maquiavélico, triste e que não sei o que fazer com minha vida. 

Vera se admirou com a afirmação dele, e Roger sentiu o impacto de suas palavras, sorrindo internamente com isso. 

- Ah, Roger. Eu não sei... Sabia que na época da Ditadura Militar não gostavam de ver nem duas pessoas juntas, sentadas numa grama, pois já pensavam que estavam conspirando contra o Estado? A polícia começava a se incomodar mesmo quando via uns quatro...

- Hoje não precisa se incomodar, querida! Estamos na democracia e somos seres livres. Podemos nos deitar numa grama bela perto de vários pneus de carros se quisermos. E quanto os policiais... se eles ligassem realmente pra nós, não atiraria tanto em nossas cabeças. 

Roger retirou a mochila das costas e lançou na grama fofa:

- Vamos provar nosso senso de liberdade. Vamos deitar na grama contra os olhares reprovadores, contra os nossos pudores, contra as formigas!

Vera encarou o companheiro de volta do colégio. Por um momento, passou-lhe pela cabeça as tantas provas que fizera. As questões matemáticas que a fizeram chorar por incompetência, as garotas que a humilharam por ela não gostar do mesmo menino que elas na quarta série, a gaiola mínima de seu primo e os seus quatro periquitos. Tudo isso lhe veio à mente e logo ela lançou a mochila na grama também. Caminhou até o centro da grama, passando por cima de tudo o que havia passado em sua mente, vencendo-os, sobressaíra por ter-se deitado na grama. 

Roger sorriu em satisfação e a acompanhou.

Deitaram-se um do lado do outro, sentindo cócegas gostosas no antebraço, inalando o cheiro da sombra. Olhavam para um infinito verde que era o teto de suas realidades presentes. Deliciaram-se ao descer das aeronaves da rotina um pouco e olharem para folhas, refletirem em lagartas que comem verde, degustam verde e vivem no esquecimento preto. 

Roger permaneceu em silêncio por todo o tempo, mas sempre com, no mínimo, um sorriso tênue. 

Mesmo sem se olharem, em um momento, a mão esquerda de cada um se chocou contra a direita do outro. As mãos se entrelaçaram e a grama os declarou, em nome do valor e da emoção, pessoas.


SAULO DOURADO, estudante, 15 anos. Já publicou um conto na coletânea ISBA-2003, um conto foi impresso em cinqüenta exemplares para uma feira colegial. Escreve desde os doze anos e costuma participar de concursos nacionais de contos.