Dico

Rei, rei, rei, o Dico é nosso rei!

Eram quarenta e dois minutos do segundo tempo quando Dico roubou uma bola no meio do campo, driblou o volante adversário, armou um lançamento com precisão milimétrica para o lateral, disparou em direção à grande área, iludiu a zaga com uma ginga de corpo para criar espaço, recebeu de volta o cruzamento e chutou de voleio, com o pé direito, mandando uma bomba, sem a menor chance de defesa para o goleiro.

Rei, rei, rei, o Dico é nosso rei!

Eram quarenta e dois minutos do segundo tempo e ele marcava o gol da vitória na final do campeonato.

Rei, rei, rei, o Dico é nosso rei!

Eram quarenta e dois minutos do segundo tempo e a torcida não parava de declarar o seu amor a Dico, a maior revelação do futebol brasileiro.

Rei, rei, rei, o Dico é nosso rei!

Eram quarenta e dois minutos do segundo tempo e, na tribuna de honra do Maracanã, o técnico da seleção sorria, certo de ter encontrado o meia-direita para a Copa do Mundo, dali a dois anos.

Rei, rei, rei, o Dico é nosso rei!

Eram quarenta e duas linhas de texto do mais importante cronista esportivo do país derretendo-se em elogios e comparando Dico aos maiores craques da história do futebol brasileiro, no dia seguinte ao jogo.

Rei, rei, rei, o Dico é nosso rei!

Eram quarenta e dois quilômetros que faltavam para Dico chegar de volta à cidade onde nascera, dois dias depois da sua consagração, quando o carro que dirigia derrapou numa curva da estrada e bateu num ônibus que vinha em sentido contrário, num acidente que lhe esmagou a perna direita, obrigando os médicos a amputá-la.

Rei.

Eram quarenta e dois repórteres e cinegrafistas na saída do hospital e, pela primeira vez na sua curta carreira, Dico não fazia idéia do que dizer a eles. Não sabia sequer o que dizer a si mesmo.

O Dico.

Eram quarenta e dois meninos jogando bola na escolinha do Dico, e nenhum deles se lembrava da época em que ele jogava. Dico mesmo mal aparecia no campo: a maior parte do trabalho era feita por professores de Educação Física e ex-jogadores, que orientavam a garotada

É nosso.

A bola mal chutada por um dos alunos passou por cima da grade de proteção e veio quicando até onde Dico estava. Ele a aparou na coxa e, apoiando-se nas muletas, fez meia dúzia de embaixadinhas. Depois jogou-a para o alto e saltou, deixando caírem as muletas. A perna direita pedalou no ar e acertou a bola, mandando-a de volta para o campinho das crianças numa bicicleta perfeita, provocando uma ovação.

Rei!

Teria. Se ele tivesse uma perna direita. Se ele não tivesse caído no chão, pateticamente, enquanto a bola quicava junto às muletas.

Rei, rei, rei, o Dico é nosso rei!

Eram quarenta e dois músculos doloridos do tombo no chão, ou pelo menos assim parecia. E o pior não era isso. O pior não era também quando acordava no meio da noite sentindo dores numa perna que não está lá, como disse a um amigo. O pior não era querer coçar sem ter o que coçar. O pior não era ver um jogo de futebol e a perna que faltava tentar chutar.

Rei.

Eram quarenta e duas mil vozes repetindo nos seus ouvidos um grito que não parava de ecoar desde aquela tarde de êxtase no estádio. E que, ele sabia muito bem, nunca mais poderia ouvir de verdade.

MARCOS FARIA nasceu no Rio de Janeiro em 1970 e desde 1997 trabalha para o Jornal dos Sports. Escreve no site Saturnália (www.saturnalia.jor.br).