O Armário

Entras no quarto e não vês a cama que se estende, vazia de colchão e de cobertas, à tua esquerda, nem a cómoda que se desconjunta debaixo do espelho partido, à tua direita. Os teus olhos são capturados pelo armário que encosta a sua superfície de madeira suave à parede do fundo, e dele não se afastam um momento, como se esperassem que a qualquer momento as portas levemente onduladas se abrissem e delas saísse um qualquer perigo sem nome, ou que o próprio armário ganhasse vida e se precipitasse com estrondo na tua direcção. Mas mesmo assim aproximas-te, até todo o teu mundo se tornar castanho. Pensas por momentos em sair dali, porque realmente não tens qualquer motivo para ali estares, mas tão depressa este pensamento encontra o seu caminho através do labirinto das tuas sinapses, tão depressa a curiosidade te é despertada pelos sons surdos que deslizam pelos minúsculos interstícios e poros da porta do armário. Consegues ouvir pequenos cliques quase no limiar do inaudível, rápidos mas irregulares, interrompidos de quando em quando por um estalido mais grave, ou pelo som agudo de uma campainha.

Sabes que conheces aqueles sons. Mas nesse momento, por mais que os procures na memória, não os consegues encontrar.

Ergues a mão para a maçaneta e reparas que o armário está trancado. Não tens a chave. Na realidade, não consegues encontrar uma fechadura em nenhuma parte da superfície suave das portas do armário. Olhas em volta e nada vês. Acaricias a superfície de madeira com cuidado, quase com ternura, como se se tratasse da pele suave de um bebé, tentando encontrar uma irregularidade qualquer que pudesse trair a posição de uma fechadura secreta. Nada encontras. Encolhes os ombros, frustrado, e, ao mesmo tempo que a ideia de deixar o armário entregue a si próprio recupera o domínio sobre a curiosidade, endireitas-te e inicias um suspiro.

Uma voz profunda interrompe-te o suspiro e faz com que o teu corpo se volte a inclinar para o armário, quase involuntariamente, como se fosses um servo a atender ao seu senhor. É uma voz que soa como se chegasse aos teus ouvidos depois de ter as arestas filtradas por uma barba espessa, uma voz que transporta o sabor de cabelos brancos, velhos. Deve haver uma barba, pensas, e é talvez branca, provavelmente grisalha. A voz diz:

- Vais-te já embora? Não sejas nabo! Entra, a porta está aberta.

- Onde está? - perguntas, estupidamente. E depois, sentindo as orelhas a arder: - Quem é?

- Tantas perguntas, tão pouca acção! - diz a voz, em tom desiludido. Há um homem dentro deste armário, pensas, que está a erguer os olhos e a abanar a cabeça com um sorriso triste nos lábios. E tudo por minha causa.

Empurras a porta, que se abre sem um som para aquilo que se assemelha a um corredor curto que desemboca num lugar brilhantemente iluminado. A luz é quente como um dia de verão no Mediterrâneo, mas tu não o sabes - nunca estiveste no Mediterrâneo.

- Entra. - repete a voz, abafando os cliques, estalidos e campainhas que se tornaram mais fortes desde que a porta do armário se abriu, abrindo lugar no sótão dos sons sussurrados para novos ruídos, mais estranhos. - Demasiada timidez não é uma virtude.

Obedeces e atravessas o corredor, com as botas a ressoar no chão de madeira. O tecto baixo força-te a te inclinares. Quando entras na sala, ou lá o que é na realidade aquele lugar brilhante, tens de parar por um momento para que os teus olhos se ajustem à nova iluminação. O tecto continua a ser baixo demais para ti, e não estás confortável.

- Ah! Cá estás tu! - diz a voz, agora muito mais clara, embora mantenha aquela qualidade barbada que te agarrou a imaginação logo que a ouviste pela primeira vez. - Sim - continua a voz - és exactamente como eu esperava que fosses. - seguindo-se uma breve gargalhada condescendente, como se o homem achasse divertido um qualquer pensamento só dele.

- Mas senta-te, senta-te. - diz a voz, depois de outra breve pausa - Deve haver uma cadeira por aqui, algures.

Os teus olhos começam a ajustar-se e és agora capaz de ver a silhueta escura de um homem muito baixo, sentado num banco, inclinado sobre uma pequena mesa onde uma velha máquina de escrever se ergue, orgulhosa, ocupando todo o espaço disponível. No chão, várias pilhas de um material rugoso qualquer erguem-se até diferentes alturas, rodeando a mesa e o homem, fazendo com que este se assemelhe a um guerreiro antigo, vigiando os seus domínios do alto da torre mais elevada de um castelo em ruínas.

- Quem é você? - repetes. - E como é que sabe o meu nome?

- Oh, eu sei tudo sobre ti, filho. - ri o homem, deixando que os olhos se dirijam directamente para ti, por um momento, enquanto os dedos continuam a dactilografar como se estivessem em piloto automático, como se soubessem o que fazer mesmo que se separassem do resto do corpo. - Tudo e mais alguma coisa.

Começas a perguntar como pode ser isso, mas quando da tua voz sai a palavra "pode", os teus olhos, finalmente adaptados à força de toda aquela luz, reparam na decoração do armário, ou sala, ou lá o que aquilo é. O material enrugado que rodeia o homem revela-se papel, centenas, milhares de folhas de papel, algumas a reflectir luz branca com uma violência de fazer doer os olhos, outras pacificamente cheias por linhas ordenadas de tinta preta, desfocando-se na distância num tom difuso de cinzento. Mas o que faz com que o coração te salte no peito como um jogador de basquete, são as paredes. Estão cheias de prateleiras, as paredes, e as prateleiras são habitadas por dezenas de pares de mãos, algumas transparentes como vidro fino, outras rudes e cinzentas como se feitas de cimento, outras assemelhando-se a mãos vivas, cobertas por um material que parece mesmo ser pele, em todas as combinações de cores conhecidas da humanidade, outras ainda brilhando com reflexos metálicos, outras gotejando fluídos, fluídos vermelhos, verdes, lilases, que cascatam até ao chão onde criam poças cobertas de ondulações estáticas, outras cobertas de pêlo, animalescas, alienígenas, cada par mais bizarro que o anterior. E todas elas - todas elas! - em movimento, a aplaudir, a bater, a arranhar, a coçar, a desempenhar pantomimas de todos os movimentos de que verdadeiras mãos humanas, presas a verdadeiros braços humanos, são capazes. Ficas ali por um momento, submerso em espanto, e quando compreendes que muitas daquelas mãos estão a falar umas com as outras, em longas conversas em linguagem gestual que és totalmente incapaz de seguir, sentes que um arrepio te percorre a espinha de cima a baixo e perguntas a ti próprio que diabo estás ali a fazer.

E então, o homem fala, e tu saltas, quase em pânico:

- Gostas das minhas mãos? - pergunta.

Olhas para ele, e encontras o seu olhar fixo no teu, enquanto as mãos continuam a sua dactilografia sem fim. Vês como ele sorri, e então desvias o olhar para as suas mãos e reparas que estão cobertas por trapos empapados num líquido carmesim, e compreendes que deve ser sangue porque (reparas agora) os dedos são mais curtos do que deveriam ser. Todos aqueles anos a escrever à máquina devem ter-lhe gangrenado os dedos, pensas, mas logo depois o teu frágil equilíbrio começa a desfazer-se quando notas que a máquina de escrever tem lâminas em vez de teclas. Lâminas afiadas, lâminas cortantes, lâminas empapadas. Isto não pode estar a acontecer, gritas tu para ti mesmo, em silêncio, e sentes que o almoço se ergue do estômago, como se procurasse ar. Fechas a boca com firmeza, para o manter dentro do corpo, e gemes um pouco. O sorriso do homem alarga-se quando fala de novo:

- Oh, não me referia a estas - diz, levantando pela primeira vez as mãos da máquina de escrever e exibindo-as em frente dos teus olhos. - Não te preocupes: não dói. Muito. Na verdade, dói-te a ti mais do que me dói a mim. Mas espera, espera. - diz, enquanto se vira de costas para ti e move os braços, fazendo algo com eles longe da tua vista, algo que tu dizes para ti próprio que não queres mesmo ver. - Pronto - diz ele, voltando a encarar-te. - Está melhor? - Os trapos estão agora limpos, assemelhando-se um pouco mais a um par de luvas, e tu acenas com a cabeça, afirmativamente.

- Que é… tudo… isto? - consegues perguntar, com dificuldade.

- A tua vida - responde o homem, alegremente - Estou a escrever a tua vida - acrescenta, com orgulho - e finalmente consegui encontrar-me contigo em pessoa. Sempre quis fazer isso.

- Não! - gritas, e em seguida tropeças em direcção da máquina de escrever. Lês a página que lá está colocada, a página que o homem escrevia até há momentos:

- Que é… tudo… isto? - consegues perguntar, com dificuldade.

- A tua vida - responde o homem, alegremente - Estou a escrever a tua vida - acrescenta, com orgulho - e finalmente consegui encontrar-me contigo em pessoa. Sempre quis fazer isso.

- Não! - gritas, e em seguida tropeças em direcção da máquina de escrever.

Então paras de ler porque não acreditas, não podes acreditar, que todo o teu passado e o teu futuro estão ali, naquelas folhas de papel.

- Não! Não pode ser verdade! - gritas tu, mais alto, e o sorriso derrete-se na cara do homem. Lança um relance para a máquina de escrever, e começa:

- Eu…

Mas não consentes que ele diga o que quer que seja. Só queres fugir, esquecer, recusar aquela realidade demasiado dolorosa. Por isso gritas - Não! - e de novo - Não! - e outra vez, e outra, e outra ainda enquanto tropeças de costas, de regresso ao corredor. Quando o alcanças, viras-te e corres, sem sequer te importares quando a tua cabeça atinge o tecto com violência. Sais do armário, bates com a porta, e começas a correr para fora do quarto, ainda sem veres cama nem cómoda nem espelho. Mas um pensamento perdido faz-te parar e regressar até junto do armário, de novo fechado e sem dar mostras de se poder abrir. Colas o ouvido à madeira. Todas as entranhas se te revolvem quando escutas e compreendes o significado dos sons que ouves.

Dois cliques, um estalido, três cliques, outro estalido, dez cliques e, finalmente, o som agudo de uma campainha.