Testemunho

Chegara àquele lugar da minha infância. Abri as janelas do automóvel e respirei fundo, decidida a gozar uma parte do tempo que pretendia exclusivamente meu, daquela tarde quente ainda que de Inverno. Debaixo da sombra rala, o Citroen arrefecia lentamente, atravessado pela brisa leve oriunda do norte. Recostei-me no assento, fechei os olhos e vi aquele mesmo lugar, tão diferente hoje, ultrajado pela mão destruidora do homem: a charneca lodosa onde bailavam os nenúfares que encobriam quase por completo as águas semiparadas; as gralhas voando alto, rasgando o manto, o mesmo manto densamente azul que me cobria; o sol chapeando a terra chã, a verde terra onde o sol se deixara estrelejar e depositara milhões de sóis doirados - malmequeres amarelos, minúsculos, bem-me-quer, mal-me-quer, quantas vezes desfolhados...

Quando o ruído de vozes altas, por vezes sussurradas, me fez despertar do entorpecimento em que, as recordações, aquele lugar, o calor, a intensa luminosidade do dia, me haviam mergulhado. Tratava-se de um casal, um par de namorados, talvez. Sim, namorados que, abraçados, comungavam do calor comum, ela envolvendo a cintura magra do homem, ele cobrindo-lhe o ombro com um dos braços. Caminhavam tropegamente, paravam junto da charneca, pisavam os sóis amarelos...Ouvia-se distintamente o som de vozes ou inventei escutá-las. Ele falava alto, mas o vento, a ligeira brisa que amaciava o calor do dia, transportava para longe o que diziam; ficava, isso sim, o sorriso - ela sorria, dava uma ou outra gargalhada sacudindo os cabelos negros - e de novo se enlaçavam. Tinham parado mesmo em frente da viatura, de costas para mim, cuja curiosidade fora aguçada pela prata que faiscava nos cabelos do homem. Há muito que a idade moça fora enterrada noutros tempos, talvez noutros lugares. Ela, mais jovem que ele, via-se pela seriedade risonha com que o escutava, talvez pela ansiedade um pouco juvenil com que se abraçava ao companheiro, parecia-me na tentativa vã (quem sabe, como posso adivinhar?) de o reter junto de si, de preservar aqueles instantes (únicos, derradeiros?) em que eu, indiscreta, involuntária primeiro, voluntariamente depois, devassava sem que se apercebessem. Abraçavam-se. Ela erguia-se ligeiramente na ponta dos pés, aconchegava o corpo ao dele e, colados, num encaixe perfeito, iniciavam um ondear suave, olhos nos olhos, enquanto a mão dele, lhe descia ternamente (como dói recordar aquela ternura testemunhada) pela face e ao longo do corpo. As bocas procuravam-se ávidas, semiabertas, sedentas e sôfregas, mordendo-se. Foi ele quem primeiro me viu. Olhou-me sério e rápido. Voltou-se para a mulher e, reapossando-se do seu ombro, iniciaram uma nova caminhada sobre os malmequeres. Virei no assento do carro, procurando mostrar uma postura absorta e desinteressada. E mergulhei na leitura do livro que trazia.

Ele continuava a falar, mais ao fundo, e era impossível refugiarem-se no descampado da paisagem; ela bebia-lhe nos olhos as palavras, mergulhava na fundura líquida dum poço os seus escuros, patéticos por vezes, gaiatos e atrevidos outras. Olhou para o automóvel, sei que me viu, ou soube por ele da minha presença, e sorriu-me, um sorriso de mulher para mulher, cheio de cumplicidade. Cingiu-se com pressa à figura masculina, a mão acariciando a brancura do cabelo, tacteando a nuca, ameigando o peito deixado a descoberto pela camisa entreaberta; ele ainda fez um movimento para confirmar a minha presença. Ela colou-lhe a boca aos lábios, ajustou o corpo à urgência que se lhe impunha, sentiu-o crescer junto de si e, enlaçados ambos num beijo intemporal, desceram sobre aquela terra chã pontilhada de estrelas doiradas...

O sol tombou sobre os pequenos malmequeres, incendiando-os: à minha volta, pegando fogo, um vermelhão intenso substituiu a luz clara do dia. As águas da charneca agitaram-se num frenesim desusado. As gralhas, num voo atordoado, revolutearam infatigáveis num estrépito roçagar de asas... Cerrei os olhos a recusar o testemunho que me fora solicitado por aquele olhar cúmplice. E ardendo na mesma fonte abrasadora do sol, mergulhei na vertigem que os tomava, e se apossara também de toda aquela terra verde.

BERNARDETE COSTA, 54 anos, natural de Esposende, com registo em Barcelos, a residir em Vila Nova de Famalicão há vinte anos, exerce nesta cidade minhota a sua actividade docente. Publicou em 2000 "A Guardadora de Ausências", Poesia, com a chancela da editora "Campo das Letras"; seguem-se "Lugares do Tempo" e "Insubmissão dos Afectos" também Poesia e publicação da mesma editora. Tem a referida editora em fase de acabamento e para ser apresentado ainda este ano "O Riso...nas Cerejas dos teus Olhos", Poesia para a Infância.