Ocaso

Saíamos às tardes para ver o Sol na linha do horizonte... e ela a esboçar o que ainda restava fazer...

Dulce era sinônimo de ordem: tudo sempre à mão, dos alfinetes de fralda aos recibos dos dentistas. Eu... bem... quero dizer, deixava a desejar (segundo ela, sempre fui, etimologicamente, um desastre: desarticulado com a harmoniosa ordem cósmica!).

Depois de quarenta anos de casados, ela ainda me surpreendia com sua capacidade de planejamento.

Saíamos às tardes para ver o Sol na linha do horizonte, em qualquer estação do ano. No verão, me dava limonada fresca antes de retornarmos à casa. No inverno, um cachecol para me aquecer a garganta.

Dulce Mieli era seu nome de solteira. Só me lembro de tê-la pedido em casamento e, depois do aceite, nossa vida em comum. Ela organizou tudo: da recepção à viagem de núpcias.

Os filhos jamais comprometeram nossa vida de casal. Somaram. Um após o outro, até completar quatro. E ela no labiríntico e delicado comando de tudo. Mesmo quando estava desempregado, as celebrações aconteciam sem interrupções, nem economias. Tias, sogra e sobrinhos a agradecer os presentes e mimos, que eu jamais suspeitava tê-los comprado ou, até mesmo, enviado!

Saíamos às tardes para ver o Sol, e Dulce me fazia acreditar ser minha a decisão!

Depois, os filhos cresceram e partiram, e nossa vida se tornou ainda mais doce! Primeiro, os piqueniques pelas estradas durante a primavera. Depois, as leituras dos clássicos em alta voz para aquecer as noites de inverno. Ela lia, e eu ouvia em total fascínio.

Compotas alinhadas, filhos criados, jardineiras floridas, mortos enterrados: sensação de plenitude e segurança.

Saíamos às tardes...

Hoje eu penso: Mieli tem a ver com mel. E mel, com abelha. É claro! Dulce, a obreira a coletar néctar hexagonalmente organizado: eu, os quatro filhos e ela! Daí também o ritual diário do Sol nos últimos quarenta anos!

Saíamos...

Sozinho, não sei o que ainda resta a fazer!

MOACYR MENDES DE MORAIS (56) nasceu em São Paulo, Capital. Bacharel e licenciado em Letras e em Psicologia. Atua em clínica e dirige, há 20 anos, grupos de contos de fadas e de Cultivo da Fala na perspectiva de R. Steiner. Co-autor do blog literário Babel em www.amalgamar.com.br .