O trapezista

A paixão pelo ato de escrever criando outro ser que não eu, dentro de mim mora o quê? Só lembro do circo, do circo... Muitos anos depois, já adulta, descobri que algumas meninas da minha geração também tentaram fugir com o circo. Conseguiram? A paixão por qualquer ato... fazer toneladas de coisas e, eternamente, se manter bem distante (bem distante mesmo!) dos seres que habitam cabeças vazias. Tanques lotados de palavras me aguardam: mãos enérgicas arrancarão delas o encardido, limo do tempo, do destino.

O céu azul com espessas nuvens brancas. Eu, lá em cima, vendo a minha vida passar, depois de subir, subir - quantos degraus? - o Cristo ainda sem escada rolante. A verdade é que eu não suportava mais levar priminhos e tios para conhecerem o Cristo e o Pão de Açúcar. Precisava arranjar um jeito de acabar com aquilo, a terceira vez em apenas cinco meses que eu voltava ao Cristo... e ainda teria o Pão de Açúcar pela frente. Aos quinze anos eu já pagava o maior mico, mesmo com tal gíria ainda presa na cabeça de alguém que nem tivesse nascido.

Só com Cássia Eller consigo reavivar a memória. Aumento o volume do CD - eu gostava tanto do encarte do LP. Como Cássia e Clarice, continuo inquieta, áspera e desesperançada*... Mas, aos quinze anos, farta de passeios turísticos, aconteceu uma mágica que aliviou bastante a aspereza e a desesperança: o que vivi com o trapezista ninguém jamais poderá roubar. Amada tatuagem indelével na memória afetiva, lavar pra quê?

Só esfrego palavras, este o meu ofício, minha única paixão. Tanques cheios continuam me aguardando...

38 graus, espessas nuvens passando no azul-celeste, priminhos e tios tirando fotos e mais fotos. Eu vendo a minha vida passar ao léu, em brancas nuvens, sem nenhum vestígio.

"Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão."
Fernando Pessoa

Naquele tempo eu já me amarrava no Fernando Pessoa. Hoje, inutilmente, tento me amarrar no fio da meada.

"Oi", ele disse. Deixei pra lá as espessas nuvens e fui hipnotizada por aquele homem ma-ra-vi-lho-so!

Não lembro o que respondi, não lembro de mais nada do que aconteceu no Cristo, nem como desci... provavelmente flutuei até a praia, não lembro se disse alguma coisa aos primos e tios ou se simplesmente os abandonei.

É assim mesmo que acontece conosco, mulheres: o príncipe chega e as abóboras explodem, viramos mulheres fatais. Foi o que aconteceu comigo, mesmo virgem, aos 15 anos.

Do Cristo, num passe de mágica, estávamos numa praia deserta... Ele começou beijando os meus pés... Ícaro, o trapezista, me lambendo o corpo todo... Depois, enquanto nos amávamos, Ícaro passava as mãos suave e insistentemente nas minhas costas, bem abaixo dos ombros.

Foi assim que aconteceu a primeira paixão física... O encontro foi tão esplêndido, que até hoje me satisfaço só com a lembrança. Desde que perdi Ícaro, não preciso de homem nenhum, nem de mulher, se é que vocês entendem.

Da praia fomos correndo ao circo, estava na hora do espetáculo. Meu trapezista, segundo disseram o palhaço, a domadora e o mágico, nunca atuara tão bem. "Leveza de corpo e alma", disse a cartomante, me olhando de um jeito que eu vou contar... Acho que, através das cartas, ela tinha visto como fora a nossa tarde.

Não existe o sublime sem o grotesco, a cartomante concluiu num tom zombeteiro: "panela velha é que faz comida boa". Não sei por que lembrei disso agora, esqueci durante anos essa cartomante, e agora ela habita a minha memória como se a coisa tivesse acontecido ontem... Por inveja, ciúme, despeito ou sei lá o quê, a cartomante se referia ao fato dos meus 15 contra os 50 de Ícaro, ele já tinha pêlos brancos.

Eu tentei fugir com o circo, alguém me dedurou... Só agora me dou conta disso: foi a cartomante quem delatou. Meus pais nem precisaram ir à polícia, no dia seguinte me encontraram e me levaram de volta pra casa. Muitas ameaças: corrupção e aliciamento de menores... Fui irredutível, que deixassem as coisas do jeito que estavam, diante de qualquer juiz eu falaria que fui por livre e espontânea vontade, seria até capaz de afirmar que seduzi aquele homem que tinha idade para ser o meu avô. Mas não era. Abóboras quando explodem ganham raciocínio rápido e argumentações infalíveis, a timidez foi trocada pela eloqüência.

A família continuou amolando, porém, eu continuava encontrando Ícaro. Independentemente de onde o circo estivesse, ele sempre dava um jeito de voltar ao Rio, e trazia flores, chocolates, anticoncepcionais (naquela época não existia AIDS). Ícaro nunca me passou nenhuma doença... Se eu sentisse tesão hoje em dia, não sei não, acho que me plastificaria inteira...

Rompi o círculo, avancei a periferia e estou no centro de mim. Muito tempo se passou e, às vezes, até esqueço Ícaro e só penso em palavras, é preciso arrancar delas o substrato, sem feri-las... Sei lidar com as palavras apaixonadas e também com as palavras mal-amadas.

Todos os meus antepassados correm no meu sangue, se transformam nas minhas unhas, fios de cabelo, saliva, coriza... A única coisa que me incomoda é que, de uns tempos pra cá, vem crescendo um músculo? osso? pele esponjosa? nas minhas costas, bem abaixo dos ombros... Preciso procurar um médico. Ontem, durante o banho, caiu um pedacinho dessa coisa, peguei com cuidado, antes que fosse pelo ralo... a coisa tinha a textura de uma pena.

* Referência à música Que o Deus Venha - Frejat / Cazuza / Clarice Lispector, in Cássia Eller, Cássia Eller

WAGNER MANGUEIRA, 39, é autor de
A gaveta, Pó, Vamos passear na floresta? e Prata.