O livro em cima da mesa

Meu pai teve uma vida simples, um homem dedicado, prestimoso chefe de família e trabalhador. Estudou até a quarta série e com muito esforço criou e educou seus filhos. Embora com pouco estudo manteve-se sempre bem informado. Lia jornais, revistas e escutava rádio. Naqueles idos tempos o rádio era o principal veículo de comunicação. Todas os dias após o retorno do serviço ele ligava o seu antigo aparelho para saber das “últimas”. - como dizia.

Ele ficava sentado numa cadeira na varanda com o olhar distante e com os ouvidos nas notícias. Era o seu passatempo predileto no crepúsculo dos dias por vários anos.

Quando se aposentou arrumou uma escrivaninha e ajeitou uma peça no fundo da casa. Um lugar para ler e escrever. O seu lugar doravante. No pequeno, mas confortável, aposento, o velho dedicava o seu tempo à literatura. Ali passava longas horas lendo e estudando. No silêncio das letras lentas. Naquele “cantinho”, como comentou certa vez, montou uma pequena biblioteca. Literatura diversificada. Vários títulos, diversos autores. Vez por outra escrevia, mas jamais alguém leu um manuscrito do velho. Meu pai tinha uma caligrafia muito bonita, daquelas antigas, cheia de voltas e estilo.

Certa vez um tio teceu o seguinte comentário: - o teu pai é um grande escritor, faltou oportunidade de estudo e aprimoramento do estilo. Mas a vida o ensinou muito e esse diploma não é fácil conseguir. Teu pai foi diplomado pela vida. – guardei comigo essas últimas palavras.

Eu, gurizote, nunca interrompi as reclusões do velho, o admirava por cultivar o hábito da leitura, incomum nas pessoas simples e trabalhadoras desse país. Meu pai enxergava na vida algo mais além do trabalho. Por isso ele era uma pessoa muito especial.

Infelizmente, alguns anos após a aposentadoria e a dedicação aos estudos, à leitura e aos inacessíveis manuscritos, o velho adoeceu. Durante a enfermidade suas incursões pela sala de estudos foram escassas. Mas ela estava lá, no aguardo das horas do velho.

Foram quase três anos num vaivém do hospital para casa e da casa para o hospital até que a morte o venceu. Foi morrendo aos pouquinhos, lentamente.

- Foi-se o Velho comunista. - comentou um antigo amigo no velório. Esse conhecido também tinha no rosto as marcas dos anos. Naquela oportunidade não entendi bem o que era velho comunista. Nunca esqueci aquelas duas palavras de seu amigo: Velho comunista.

Por um longo tempo não entrei no quarto de estudos do meu velho pai. A mesa e seus pertences ficaram intocáveis por vários meses. Certo dia, precisei de alguns documentos e tive que vasculhar a quase esquecida sala de estudos. Abri parcialmente a janela e iluminei a saleta com uma minúscula nesga de luz. Uma penumbra aconchegante tomou conta do pequeno recinto. A mesa estava completamente arrumada, um livro de capa preta de couro jazia em cima da escrivaninha, ao seu lado, uma caneta tinteiro bordô e um bloco de anotações em branco. Descansava na paz do ambiente a espera das mãos que, outrora, folheavam diariamente as páginas amarelas do tempo que contam a história. O livro estava à espera do carinho e dos olhos atentos do seu antigo e único dono.

Sentei-me na poltrona e joguei o corpo para trás, era uma poltrona confortável e com balanço. Coloquei os pés sobre a mesa e fiquei meditando no quarto de estudos do velho. O livro ali em cima da mesa em minha frente pedindo-me para ser tocado. Folheado. Acariciado. Lido.

Não havia um título na capa daquele volume negro. Apenas um couro preto com detalhes florais em fios de ouro na parte superior e inferior do livro. O contraste do ouro, com o preto, deixava um mistério a ser descoberto e um toque de refinamento, elegância e conteúdo no exemplar. Percebo que era uma sobrecapa uma espécie de camuflagem. Era um livro volumoso, calculei umas quinhentas páginas.

Levei a mão lentamente em direção ao livro e abri a sobrecapa. Na primeira página apareceu uma frase escrita com o próprio punho do velho: “Eis a minha contradição...”

Fixei minha visão naquela frase incompleta e parei nas reticências... Qual seria o complemento da oração na segunda página do livro?

Por alguns instantes contemplei o volume negro em cima da mesa. Resolvi não desvendar o seu mistério, ainda não estava em condições de folhar os segredos do “Velho comunista”.

Fechei a porta e deixei o solitário livro na paz da escrivaninha.

Passaram-se trinta anos. O livro, a escrivaninha, o bloco, a caneta, enfim, todo o ambiente daquele pequeno espaço guardavam, como um autêntico arquivo, os últimos instantes do velho comunista. Os momentos derradeiros das suas reflexões.

Era um quarto inacessível para os demais da casa. Exceto para um esperto guri.

Certo dia, após uma chuvarada de verão, meu filho aparece com um livro na mão.

- Veja que livro bonito, pai.

Abro-o e vejo a antiga frase, num fundo amarelado pelos anos. “Eis a minha contradição...”

Não tive dúvidas e virei a segunda folha para ver a seqüência da frase.

“...Leio esse livro compulsivamente”.

Em seguida vejo o título da obra que o velho comunista lia diuturnamente: A Bíblia Sagrada.


ATHOS RONALDO MIRALHA DA CUNHA mora em Santa Maria. Primeiro lugar em crônicas do concurso Literário Felipe D’Oliveira 2003, terceiro lugar do concurso de crônicas a UFSM na minha história 2003, duas menções honrosas no concurso de crônicas a UFSM na minha história 2001, menção honrosa no concurso de contos Paulo Leminski. Participações em diversas coletâneas.