S. Martinho do Porto

A água vem pela enseada como por generosidade do mar. O frio da manhã ainda mal acordada apodera-se das mãos entretidas na faina de remar. O barco aproxima-se da zona onde as ondas vêm morrer entre dois paredões de rocha frondosa. Agarro num bloco de papel e numa caneta e convido Débora a escrever nele tudo o que fez de errado ou de mais desagradável na vida. Faço o mesmo relativamente a mim e leio bem alto o quanto escrevi. Sinto um rubor nas faces mais alto do que a coragem porque volto a ler em voz alta vezes sem conta. Débora perde a vergonha começando a ler em voz alta tudo o que escreveu. O sol começa a fazer na água que nos circunda um espelho de pequena ondulação cintilante e algumas gaivotas circundam-nos provavelmente interrogando-se do seu protagonismo nesta tertúlia.

Agarro no papel que Débora escreveu com algum rol de tristezas e queixume e faço-o marinheiro de uma garrafa bem tapada com uma rolha de cortiça. Débora agarra a garrafa e impulsivamente atira-a para as ondas. Repito o mesmo gesto com outra garrafa que reservei para mim. Podiam ser lágrimas os salpicos que nos vêm enxaguar os rostos salgados. O sol abriu um caminho bem iluminado até à praia, coando a água com pequenos diamantes. O mar alto devolve-nos uma paisagem imparcial pela presença de algum nevoeiro. Virei a proa do barco em direcção ao areal. Débora refeita de algum ânimo pede para ser ela a remar para o regresso. Seguimos a réstea de luz que o sol deixou cair na água enquanto pessoas minúsculas em terra levam os seus corpos para as fainas de um dia acabado de acordar.

Débora recorda os bons tempos da juventude aqui passados entre o areal e poemas escritos e enrolados para serem deitados ao mar em garrafas.

Foram inúmeras as viagens de barco idênticas a esta, a várias horas no mesmo dia. De manhã, à tarde e até rente ao nascer da noite.

Débora pergunta :

- Que será feito daqueles poemas que atirei ao mar à tantos anos atrás ?

Será que alguma vez alguém encontrou um único? Se não tivéssemos que regressar desejaria ser a tinta de um deles tendo papel como cobertor e silenciosamente vaguear pelo mar até alguém me encontrar.

VITOR CASADO nasceu em Leiria, Portugal a 18/01/1965. Informático de profissão frequenta actualmente o 3º ano de artes plásticas - Pintura no Instituto Politécnico de Tomar. Fez várias exposições de pintura e tem editado contos e poesias em livros colectivos a cargo da editora Minerva. Colabora também literariamente com alguns periódicos. Desde 1998 que gere o site PROSA À SOLTA. http://prosasolta.no.sapo.pt Site onde mostra a sua pintura e literatura. O conto é o seu género literário de preferência.