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Malas que vêm de trem
A sessão de autógrafos tinha sido um fracasso. Não que isso me
surpreendesse. Era meu primeiro livro de contos, tinha ganho um prêmio
de âmbito regional. Pouca repercussão. Quase nada no jornal, nada no
rádio, nada na TV. Vendi uns trinta exemplares. Não me importava, na
verdade. Estava entusiasmado pelo simples fato de ver tornado realidade
o sonho do livro impresso, com capa, cheiro de novo, números de página,
prefácio, índice, essas frescuras. Mas no fundo... bom, acho que
esperava que acontecesse qualquer coisa. Algo diferente, quero dizer.
Era uma noite especial.
Mas até então, nada. Saímos da livraria, a fim de dar uma esticada.
Somente quatro: Miro e Malú, um casal de amigos, mais eu a Gringa.
Destino, Bar Líder, aquele barulhento e enfumaçado. Na época ainda não
tinha virado point da pseudo-intelectualidade e sei lá o quê mais. Dava
pra suportar. Eram umas onze e tanto, quarta-feira.
Eu tinha parado completamente de beber, depois de uns probleminhas há
mais de três anos. Só neste ano é que eu andava já relaxando, tomando
uma ou outra cervejinha. Mas também não tinha mais aquela graça de
antigamente. Toda a turma reunida em torno de dois objetivos: beber, e
depois ficar bêbado. Também o corpo da gente não era mais o mesmo, a
ressaca custava um pouco mais a passar. Mas o fato é que, como a noite
era especial, eu tinha baixado a guarda. E dê-lhe brahma extra.
Aí por volta da uma, o Miro, que é geólogo, indignado com a última onda
de popularidade da NASA depois da descoberta daqueles vermes mortos há
milhões de anos num meteorito, estava me enumerando uma pá de argumentos
contra a possibilidade da existência de vida inteligente fora do Planeta
Terra, que ele ia inserir num artigo que estava planejando escrever.
Juro que eu estava tentando entender. Prestava atenção, mas as mulheres,
sentadas à mesa de maneira que a conversa dava "linha cruzada", falavam
não sei de quê. Cinema, acho. E comecei a ficar zonzo. Foi quando
aconteceu.
Eu estava sentado de frente para a porta quando ela entrou. Com ela,
mais um casal. Um casal, eu falei. Um casal e ela, só ela, bem sozinha.
Mas eu nem reparei nisto na hora, fiquei hipnotizado pelos seus grandes
olhos azuis. Usava uma calça deandê daquelas listradas e justíssimas,
cuja febre já tinha passado há anos, e quando parou do meu lado — eles
hesitaram um momento, havia poucas mesas vazias — e voltou-me as
costas... aliás, pra ser exato e sincero, voltou-me a bunda, eu parei de
prestar atenção no Planeta Terra. Mas eles terminaram sentando ali
mesmo, na mesa ao lado, e eu tive de recuperar o autocontrole, e voltar
para o tedioso planetinha esse. Um pouco mais interessante, agora, vá
lá.
— Mas e como é que eles sabem que o meteorito veio de Marte, e não de
outro planeta qualquer?
A pergunta saiu meio engasgada, assim como o grito de um afogado, e era
mesmo uma tentativa desesperada de voltar à realidade. Referia-se a um
estágio ligeiramente anterior da nossa conversa, de modo que não ficou
completamente deslocada. O Miro apenas teve de fazer uma breve
recapitulação. As mulheres pararam repentinamente de falar. (Será que eu
tinha dado vexame, tipo babado na toalha da mesa? Mas não, foram apenas
alguns segundos. Seria a velha intuição feminina percebendo algo no ar?)
Eu começava a suspeitar que a Gringa estava a fim de me traçar naquela
noite. Fazia um tempão que a gente não se via, ela esteve morando fora
uns tempos e agora andava toda interessada, me perguntando coisas. Uma
vez, há décadas atrás, tinha rolado um clima entre a gente, numa
festinha da faculdade. Coisas da juventude. Que de repente podem voltar,
vai saber. Dei uma encarada nela, para ver se transparecia alguma
reprovação no seu olhar, algo a ver com ciúmes. Nada. Loucura minha.
A Malu quebrou o silêncio. Tinha visto Independence Day, "aquele lixo".
Filas duplas se formavam para ver aquele lixo. No Shopping tinha dois
cinemas passando aquele lixo. O sujeito tinha de ser forte para não
ceder à curiosidade de apenas ver do que se tratava aquele lixo. Ver só
para depois dizer, que nem a Malu dizia agora: "aquele lixo". Mas eu
começava a chegar naquele ponto em que as vozes dos outros flutuam no
ambiente, formando uma rede de significantes (que tal?) que não
significam lhufas, ou melhor, podem significar qualquer coisa. Um rumor.
Às vezes se destacava alguma coisa.
Agora, por exemplo: meu ouvido começava a captar a conversa da mesa ao
lado. Era inegável que estavam falando de literatura. Aliás, quem falava
era o cara, que estava visivelmente "estranho". "Alto", quero dizer. Ele
suava, falava sem parar, todo entusiasmado. Elas só ouviam, fumavam e
olhavam em volta, distraídas. Provavelmente tinham fumado um, só isso.
Estavam naquela fase de analisar o ambiente em volta. Apurei o ouvido
para entender melhor:
— O Henry Miller... tu já leu? Não? Bah! Tem que ler. O cara influenciou
todo o movimento de liberação dos costumes dos anos sessenta. Foi um
pioneiro... Sabe o Bukowsky? Pois é que nem o Bukowsky. Só que... com
dignidade. Outro nível!
Eu gostava também do Henry Miller, mas se não gostasse não teria feito a
menor diferença. Comecei a pensar no que ele faria naquela situação. Era
tentador para um tímido escritor desconhecido e bêbado. Ôps, bêbado não!
Um pouquinho alegre. Só. Um exemplar do meu livro estava à minha frente.
Eu podia levantar e, se não tropeçasse nem desmaiasse por causa da queda
de pressão, depois de ir ao banheiro, me apresentar polidamente:
— Fulano de tal. Desculpe, não pude evitar de ouvir a sua conversa.
Sabe, eu sou escritor, aqui está meu livro. Não é mesmo uma coincidência
vocês terem sentado bem ao lado de um escritor? E acontece que eu também
adoro Henry Miller. OK? então que tal um sexinho agora?
Mais para Bukowsky, me pareceu. E podia soar até um pouco gay, se eu
pronunciasse "a-do-ro". Azar, a mulher valia a pena, era uma deusa.
Agora há pouco ela tinha falado umas três palavras. A voz é uma daquelas
coisas que parece não ter muita importância, mas se a gente vai pensar,
pode estragar todo o resto. Não é bem a voz, ou não apenas ela. É a
expressão. É como o som de um instrumento musical: prum ouvido
especializado, diz tudo da sua fonte. A dela era doce. Nossos olhares se
cruzaram. Arrepio.
O mais incrível foi logo depois. Ela falou a quarta palavra:
"arcabouço". Pelo amor de Deus, uma mulher linda daquelas tinha a
coragem de falar "arcabouço"! Ou ela era também inteligente, o que seria
um despropósito da natureza; ou nem sabia o que estava falando, só
tentando me impressionar, o que seria uma franca alucinação do meu ego.
"Arcabouço", ora vejam...
Se ao menos o lançamento do livro não tivesse já acontecido, podia ser
um pretexto. Convidava eles. Fácil, fácil. Elegante, discreto:
— Apareçam lá pra gente conversar mais.
E só. Superior, magnânimo. Depois, voltaria calmamente a conversar com
Miro, Malú e a Gringa. Sobre o quê, mesmo? Ah, sim:
— Pode contar o final, sim. É claro que eu não vou ver esta porcaria de
filme. Aliás, tu me contando é mais um motivo pra eu não ver, ajuda a
resistir. Não, faço questão. Conta, vai.
Outra possibilidade era eu esperar até que os meus amigos fossem embora
e ficar sozinho, bebendo. Minha solidão olímpica podia chamar a atenção
deles, nem que fosse por pena:
— Não quer sentar aqui com a gente? Você parece tão deprimido, aí atrás
destas garrafas vazias... Quer vomitar?
Não, acho que eu não resistiria. Já tínhamos bebido umas doze, meu
estômago não ia agüentar muitas mais. Meus amigos não pareciam muito a
fim de ir embora. O bar começava a esvaziar. Era agora ou nunca.
Então aconteceu. Sempre acontece o inesperado, nessas horas. Ou melhor,
quase nunca acontece qualquer coisa que valha a pena contar mas, quando
acontece, é algo que ninguém poderia prever. O cara levantou da mesa ao
lado e veio em nossa direção. Só mais tarde eu juntando os pedaços
consegui entender a faísca que tinha detonado o negócio. Eu já não
estava mais prestando atenção na conversa do Miro com a Gringa, mas
subliminarmente eu tinha ouvido que eles falavam sobre os Mamonas
Assassinas. Na verdade, tinham apenas tocado no assunto, fazia poucos
dias que os caras tinham morrido, todos eles, naquele acidente incrível,
no auge do sucesso. E foi exatamente o assunto que fez os olhos do nosso
vizinho de mesa, visivelmente alterado, brilharem um pouco mais. Talvez
ele tivesse entendido errado, sei lá. Daí, levantou e veio direto no
Miro:
– O que pouca gente sabe, meu amigo...
Eram apenas dois passos entre a mesa dele e a nossa, mas no primeiro ele
quase perdeu o equilíbrio. Quase não deu pra perceber.
– E os poucos que sabem não dizem nada. Têm medo.
E baixando a voz:
– Com o Senna foi igual.
Bom, eram duas mortes trágicas, a do Senna e a dos Mamonas, eram pessoas
famosas, claro. Comoção nacional e o escambáu. Eu é que não ia perder
tempo com esse papo furado. Mas ele insistia. Tinha algo mais
– Tá na cara, meu. Tá na cara!
Ele se dirigia evidentemente ao Miro, talvez porque fosse a pessoa de
quem ele tivesse ouvido as palavras que o encorajaram a invadir nossa
privacidade assim, sem mais nem menos. Ou sei lá, podia até o cara ser
viado, não tinha pinta eu acho, mas vai saber, o Miro tinha um azar com
esses caras. Acho que por ele fazer academia e ter aquele tipo
musculoso, sabe como é? Mas o que era péssimo no caso é que além de tudo
o Miro era o tipo que tem o pavio curto. Quando se deu conta do
estadinho alterado do tal sujeito, virou o rosto de poucos amigos e
tentou continuar conversando com a Gringa como se nada tivesse
acontecido. Mas não dava.
– O Senna, rapaz. Foi a mesma coisa!
O Miro interrompeu a conversa visivelmente contrariado. A Malú nem
piscava.
– Mas que coisa? Desembucha logo!
– Foi a CIA. Só pode ser a CIA. Olha só, a sacanagem dos caras...
A essa altura o sujeito já atraíra a atenção de quase todo o bar, embora
àquela hora e com aquele infernal revestimento acústico de azulejos até
o teto sem uma miserável cortina, fosse quase impossível entender com
clareza o que se falava a mais de dois metros de distância. Ele ia
começar a explicar a lógica da coisa.
O Miro então fez menção de levantar e se grudar no cara, mas logo o
pessoal se pendurou no pescoço dele, impedindo a pancadaria que, naquele
lugar apertado e cheio de gente, logo ia se generalizar. Foi na hora.
– Que CIA, vai te f..., seu maluco! Será possível que tudo quanto é
louco tem que vir me encher o saco?! Tira esse cara daqui! Sai fora!
A Malú, que conhecia o marido, era muito sangue-frio e sabia como agir
nessas horas, de modo que com a Gringa ajudando e mais a turma do
deixa-disso, em dois minutos estavam todos do lado de fora. Ao abrirem a
porta, uma lufada de ar fresco varreu o ambiente, e logo o clima pesado
se dissipava. Ou eu é que me apressava a esquecer o episódio, ocupado
que estava em me sentar no lugar do maluco aquele, eu e meu livrinho
fracassado, e comentar, aparentando uma seriedade bárbara, no tom de voz
mais próximo do sensual-sigiloso, tipo um zero-zero-sete de rodoviária
usaria numa ocasião dessas:
– Sabem duma coisa? Eu nunca tinha pensado nisso antes...
ÁLVARO SANTI
é graduado em música e Mestre em Letras pela UFRGS. Autor dos volumes de
poemas Dança das palavras (IEL, 1998), O primeiro anel (SMC, 1996) e
Viagens de uma caneta por meus estados de espírito (UFRGS, 1992), que
recebeu o Prêmio UFRGS de Literatura – Troféu Armindo Trevisan. Técnico
em Cultura da Prefeitura de Porto Alegre desde 1996, preside a Comissão
de Avaliação e Seleção do FUMPROARTE e colabora regularmente com a
revista Porto & Vírgula. É violonista e compositor.
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