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Lâmpada esquecida no
quarto dos mortos
Moça, chegamos.
Desce do taxi e olha em volta. O velho bairro de sempre. A alameda se
estendendo infinita, o gramado bem tratado na frente da casa sempre
pintada de branco, protegida da rua pela enorme varanda que a rodeia em
toda extensão. Era aqui que passava as férias de verão.
Ela empurra cuidadosamente o portão e Betôven vem recebê-la. Senta-se no
chão do jardim, afaga a barriga dele, faz as contas de quantos anos ele
teria se fosse gente. Até que você está bem para a idade, cochicha em
sua orelha. Betôven parece entender e lhe entrega, orgulhoso, um pequeno
pedaço de madeira, senta-se sobre as patas traseiras, inclina a cabeça
para o lado e ela percebe em seus olhos o peso de um tempo que ele
desconhece. Ele abana o rabo e dá uma volta ao redor de si mesmo,
impaciente. Ela arremessa a madeira e aguarda. Betôven retorna, lhe
entrega a madeira e deita-se ao seu lado.
Clara respira fundo para sentir o cheiro das flores que naquela época do
ano sempre crescem no jardim. A paisagem quase se mantém como da última
vez em que esteve ali. O céu está apinhado de estrelas e uma lua pálida
projeta no caminho as sombras deformadas das árvores. Se lembra quando
os primos pegavam no varal os lençóis brancos e investiam contra ela e
os mais novos com a intenção de capturar-lhes as almas, representadas
pelas sombras tortas e apavoradas que se desenhavam no chão em noite de
lua cheia. Capturadas as almas, os corpos passavam a lhes pertencer, o
que conferia aos mais velhos o direito de explorar a força de trabalho e
de organização dos menores, submetidos a trabalhos forçados: servi-los
de água, sorvetes e sanduíches durante o dia seguinte inteiro, arrumar
seus quartos, organizar os brinquedos, limpar o quintal. A noite
seguinte trazia aos pequenos a força da liberdade ansiada e aos maiores
a confirmação de um poder que julgavam deles por direito.
Uma brisa fina alisa seu rosto. Olha para o segundo andar da casa e uma
luz fraca e indecisa que ilumina um dos cômodos lembra-lhe o quanto
desejou para ele essa mesma fraqueza e indecisão. Revive sentimentos
antigos, seu peito se aperta, se encolhe e a leva junto. Curva as costas
aproximando o rosto das pernas recolhidas junto ao peito e se entrega a
um choro convulso e silencioso. Será que nunca estarei livre dessa
lembrança? Teme olhar para cima e vê-lo vigiando-a por trás da cortina
transparente. Ele era dos cantos, das noites sem estrela, dos silêncios.
Clara caminha em direção à porta e pega a chave na bolsa. Tem a sensação
de que alguém se aproxima da janela do quarto de cima e olha para o
jardim, provavelmente atraído pelo barulho que ela faz ao virar a chave
na porta. É ele. Mas não estava doente? A última carta que recebera com
notícias da família dava conta de uma doença que lhe garantia apenas
mais alguns meses de vida. Na carta, enviaram uma cópia do testamento
para que ela revisasse os termos do
documento e a chave da casa "no caso de você mudar de idéia e decidir
vir nos visitar no feriado de Natal", sua mãe escreveu, explicando que
chegariam na véspera do dia 24 e ficariam muito felizes se ela
resolvesse aparecer por lá. "Afinal, já faz dez anos desde a última vez
em que você esteve aqui". Sua mãe sempre foi elegante, característica
que nunca lhe permitia ser direta quanto aos seus desejos e ordens,
afastando-a de dissabores e decisões. A carta com a noticia da doença
dele havia chegado na noite anterior, apesar de ter sido postada três
meses antes, conforme ela pôde reparar pela data carimbada no envelope.
Não havia tempo a perder.
Clara entra na casa. Ainda há restos de comida na mesa. Ela pega um
pedaço de peru, mas o devolve intacto à travessa. Comemorações nunca
devem preceder a vitória. Papéis de presente estão espalhados pelo chão
da sala e marcas ainda recentes no assento do sofá denunciam presenças.
Ela é capaz de jurar estar diante de fantasmas. Imagina-os trocando os
presentes, distribuindo os dos menores primeiro, a gritaria excitada
deles, a curiosidade da comparação, a angústia do excesso. Se aproxima
da árvore de Natal e quase pisa num presente ainda embrulhado. "Para
Clara", lê na etiqueta, e enfia o embrulho no bolso do casaco. Alcança
os degraus da escada. Ao chegar no primeiro andar, é atraída por uma
réstia de luz que vem do quarto no final do corredor. A porta range
quando ela a empurra e Clara sente um cheiro forte de suor e urina. A
luminária que parece ter sido esquecida acesa na mesinha de cabeceira se
destaca na escuridão do aposento e uma luz fraca transfigura o rosto
dele. Envelhecera ainda mais.
Se aproxima devagar do leito, sem saber que o faz para adiar o gosto da
liberdade pressentida. Lembra de mim, velho? Ele abre lentamente os
olhos. Ela tenta fazer as contas da idade que ele teria agora. Quem
poderia imaginar que algum dia você estaria desse lado, pávido, pálido?
Súbito, se distancia um passo, desafiada pelo receio de que aquilo tudo
fosse um sonho e pudessem acordá-la a qualquer momento. Volta a se
aproximar, dessa vez encostando a orelha no lábio do velho, fingindo
interesse nos murmúrios que ele tenta sussurrar. Se distancia ao sentir
a aridez do hálito dele se misturar ao seu e puxa com força a coberta
que o protege. Ele geme como se estivessem lhe arrancando a pele. O que
o tempo não faz às partes mais caras de nós, não é, velho? Como pequenos
vermes, vai nos devorando com paciência e só se satisfaz quando consegue
nos transformar num saco de ossos. E quando finalmente deveríamos
conseguir descansar, é exatamente nesse momento que ele nos esquece,
desiste de nós, e nos deixa jogados num
canto, acompanhados dessa solidão de não saber o que vem depois. Você
ainda lembra que tem isso? Aponta para o meio das pernas dele. E disso,
lembra? Sentindo o prazer mórbido que faz das vítimas, algozes, puxa o
braço dele com força, obrigando-o a tocar seus seios. Estão bem maiores,
não é? O velho emite grunhidos abafados. Ela vê lágrimas e ele chorando
em silêncio lembra-lhe ela mesma, que no entanto sorri, satisfeita de
poder finalmente recuperar a liberdade aprisionada nas sombras da casa.
Com uma das mãos, tapa a boca do velho para que ninguém ouça um homem
soluçar como criança. Com a outra, tapa-lhe o nariz, para que nunca
mais, nem em sonho, ela tenha que ouvir aquela respiração outra vez.
Ficam assim, ouvindo as batidas fortes e ritmadas do coração um do
outro, até as dele fundirem-se ao silêncio da casa. Ao retirar as mãos
do rosto do velho, Clara descobre que gostaria de reconhecer alguma vida
ali só para ter o prazer de fazer tudo de novo e sentir mais uma vez a
fúria de liberdade que acabara de experimentar, mas o velho permanece
imóvel, olhos vidrados nos dela, como se a desafiasse a continuar
obrigando-o a morrer. Ela sorri - ou seria simplesmente um esgar? - ao
perceber que os olhos do velho perderam o brilho. Ela lhe cerra as
pálpebras e apaga a luz.
Clara desce lentamente as escadas, atravessa a sala, senta-se na mesa e
se serve de peru, pêssego e farofa. Enquanto come, pensa que se a carta
não tivesse demorado tanto a chegar as suas mãos, àquela hora tudo já
teria voltado ao normal. Os preparativos para o Natal atenuariam o
sofrimento dos adultos e acalentariam a tristeza das crianças. Tudo já
estaria esquecido. Mas não é assim que vai ser. Agora o Natal será
sempre lembrado como o-dia-da-morte-do-vovô. Acha graça da vida, cheia
de coincidências estranhas.
Começa a desfazer o embrulho que encontrou na árvore, mas desiste antes
de desvendar o conteúdo, abandonando-o em cima da mesa, ao lado da chave
e da carta.
Lá fora a lua brilha forte.
ANA CLAUDIA CALOMENI é formada em jornalismo pela Escola de
Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e atualmente faz
pós-graduação em Educação Estética na Universidade Federal do Estado do
Rio e Janeiro - UNIRIO. Participou, em 2000 e 2003, das antologias de
contos, crônicas e poesias TOTAL e DEZ, organizadas pelo poeta Cairo
Trindade. Recebeu menção honrosa no 11º Concurso de Contos Paulo
Leminski pelo conto "Por um fio de sangue", publicado na antologia
TOTAL.
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