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Jornal Nacional
Sextas-feiras podem assumir ares de anunciação, acumulam gosto de
véspera e de fim de etapa, ao menos para os afortunados sem jornada de
trabalho aos sábados, como Menezes. Silêncio e Ipiranga congestionada
como sempre. Desligou o rádio, acelerou e distanciou-se da voz amarga.
Ao chegar em casa poderia ir direto ao escritório, fechar a porta,
descobrir como fazer a arma funcionar e fim. Hesitou entre a
possibilidade de estourar os miolos e a de aniquilar o coração. Não,
coração requeria punhal. Suicídio objetivo tinha de ser com um tiro na
cabeça.
Ângela arrancou-o do delírio com lágrimas ácidas, deixando-o entregue a
uma espécie rasa de autocomiseração. Sentia-se como nos tempos de
criança: não importava quão bem se comportasse, quanto esforço fizesse
para findar as tarefas da casa que eram de sua incumbência, quanto
silêncio fosse capaz de se impor para não perturbar o sossego de todos.
Nada bastava. Havia sempre razão para reprimendas, ridicularizações ou
explosões de fúria.
Soaria risível, não doesse tanto a situação limítrofe que se
estabelecera com a discussão no supermercado. Ele ainda amava Ângela, ou
fazia força para acreditar que sim, mas andavam ultimamente como animais
perdidos num pântano, afundando em terrenos cada dia mais sufocantes.
Caio Menezes despencava num poço de desespero. Não, a psicanálise não
lhe estava salvando, como a homeopatia não havia logrado êxito. E a
filosofia, essa só lhe trouxe mais interrogações para somarem-se às
incontáveis que já lhe circulavam nas veias.
Ângela Maia nunca o compreendeu nesse reviver obsessivo de
culpabilidades fantasmas, sempre um algoz à espreita. Ela, entre
impenetrável e refratária, tinha uma vivacidade-armadilha nos olhos que
acabou por colocá-los casados.
...
Muito rapidamente todo o frágil equilíbrio à borda do charco desfazia-se no
calor pegajoso do asfalto-sexta-feira. Um mal entendido. Acusação sem
defesa: crucificação.
O percurso pareceu mais longo que nunca. Chegaram em silêncio e não
jantaram, ignorando os estômagos que reclamavam atenção. Ela foi deitar,
chorava de legítima mágoa. Ele foi procurar a arma. A fome incomodava de
modo distante.
Algo mórbido poderia ser percebido na luz fria da luminária azul. Ria
sem entusiasmo ao pensar que não deixava de ser curiosa a forma como
chegara naquele momento. Jairo pediu-lhe que guardasse a arma por conta
de sonhos desagradáveis com o filho. Assim, um tio seu fascinado por
qualquer objeto de tonalidade bélica ganhara um exemplar a mais para sua
coleção, mas só viria buscá-la na próxima semana. O pai
supersticioso não queria a arma e a criança na mesma casa, pois tinha
cismas com seus sonhos. Não havia motivo para se recusar a acalmar um
amigo-e-pai-zeloso. Assim, lá estava ela... ao alcance, imperturbável.
No trânsito idealizara a tragédia com desvelo. Suicídio sem rodeios.
Apenas ponto final. Seco. Tudo sobreviveria sem ele - Ângela, os peixes,
a horta, a empresa. Concentrou-se na idéia de sua ausência em cena -
antes inimaginável. Pano preto. Silêncio. Nada. Finalmente poderia
conhecer o nada... quase tentador.
Oscilava agora entre a fome crescente e a certeza de que valia a
investida. Fim das cobranças por traições inexistentes, das ideologias
não honradas, dos sábados ameaça não realizada. Acariciava com mão algo
trêmula a possibilidade de encerrar as frustrações com a culinária não
compartilhada, as repetitivas broncas pelos atrasos instalados por sua
desorganização e, júbilo máximo, findar a culpa pela determinação e
ambição vida afora que tanto afrontavam Ângela. Menezes sabia bem de
seus defeitos e não foram poucas as vezes em que concluiu-se incapaz de
fazê-la feliz. Mas não queria ser outra pessoa.
Enquanto dirigia no caos urbano do fim de tarde, quase fim da semana,
não encontrara energia em nenhum lugar de si para parar o carro
pedir-lhe que tomasse um táxi ou entregar-lhe as chaves. Foi nesse
não-fazer agudo que lhe veio a conclusão que soava óbvia: fim.
Desistência. Covardia? Cansaço.
Lembrou das inúmeras vezes em que tentara fantasiar a própria morte
tendo segurança de que nunca executaria o suicídio. Pensava em
guilhotinas - o que o remetia ao sanguinário Rainha Margot com a
deslumbrante Isabele Adjani a tingir-se de rubro e mau cheiro nas ruelas
da época da Bastilha. Sabia que não era sério, era quase um anestésico
para superar as dores da hora. Simulação de fim. "Pause" na dor. Outra
fantasia comum era o punhal no coração. Muitas vezes sem o glamour
literário das lâminas Borgianas, podia supor simples facas de cozinha,
mas era uma maneira de materializar, na fantasia do mutilar-se, a dor
aguda no peito que sentia ao sofrer o desamor e a rejeição daquela mesma
mulher que agora o fazia desejar um abismo irrecorrível.
Longo silêncio. Tempo suficiente para emergir do poço de viscosidade
onde estava atolado no equívoco de culpar Ângela por caminhos escolhidos
livremente. Interrompeu-se. Lamentou brevemente os livros não lidos e os
tantos que ainda estava por concluir. As músicas que ainda não provara.
Tudo prescindia dele, que sentia-se drenado. E, afinal, morrer não lhe
custaria nada, já que, por fim, parecia ter superado o desespero de
perder o próximo capítulo. Estava desinteressado do rumo de suas coisas,
das pessoas que o cercavam.
Contemplou as prateleiras com seus livros, já com a arma na mão, e os
olhos turvaram-se. A inércia, que o conduzira à cena da pistola contemplada
por digitais indecisas, estava querendo tingir-se de outras
alternativas, embora não quisesse cogitar uma desistência naquela ponte
que já pisava rumo ao não saber-se mais ainda arriscava cenários
improváveis: e se ali, naquele momento exato, a revolução que sequer
ousava fantasiar? Quebrar louças, desfraldar cortinas e gritos. Cuspir
pretensas verdades. Erupção de si. E se finalmente se encontrasse nu e
só, e se pudesse esvaziar-se de todos os farelos de discussão e mágoa
caídos no fundo do bolso onde recolhia suas insatisfações? "Melhor e
mais rápido o disparo." E a palavra lembrou-o do filme com Banderas e a
artista de circo com sua espingarda vingativa - que não a salvou da
hemorragia de humilhação e revolta. Chorou manso por todas as injustiças
reais, cinematográficas e históricas de que sequer teve notícia. Não
tinha volta, mas já se arrependia. Sabia, no entanto, que perdera as
rédeas. O fim o escolhera.
Na vizinhança cheiro de churrasco e crianças desassossegando o asfalto
com suas bicicletas e skates. Os cães alvorotados com o que pressentiam
e não poderiam nunca comunicar. No quarto, o travesseiro molhando ainda
sem saber por quanto tempo permaneceria assim. William Boner deu o
trivial boa noite enquanto a mesma história replicava-se aleatoriamente
pelo território nacional com variações poucas.
MAUREM KAYNA é Engenheira Florestal, 32 anos, natural de Santa
Maria. Arrisca-se na escrita e está cursando a Oficina Literária de
Charles Kiefer. Teve seu primeiro texto publicado em papel na Antologia
"101 que Contam".
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