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Jazz e cintas-ligas
Diego Carpentier era músico.
O melhor guitarrista
de jazz da cidade. Não importava que estava em Porto Alegre, onde havia
menos guitarristas de jazz do que cordas em uma guitarra ― ou em um
baixo, diziam os mais pessimistas. Ele seria o melhor em qualquer lugar.
Paris, Nova York, Amsterdam, poderia tocar em qualquer um dos clubes
dessas cidades.
O
que faz aqui? Eu disse que ele era músico. Burro demais para se mandar.
Se um dia chegarem a abrir sua cavidade torácica, constatarão que há
mais de um coração ali. Era muita música para ser alimentada por apenas
um. Toda aquela alma precisava de espaço extra em seu corpo. Na sua
cabeça havia bastante.
Mas
Diego não ligava. Tocava no pequeno café da Casa de Cultura com a mesma
desenvoltura destilada por Gillespie e Bird nos clubes norte-americanos
na década de 40. Suas noites no Cult Bar eram um exemplo de foco e nível
técnico. Dava performances maiores do que a vida para pessoas cujo o
interesse pela música era menor do que a curiosidade pela cor dos drinks
e por extensões de conversas de escritório. Isso não o abalava.
Para Diego, o que importava era a música. E era o que fazia: tocar,
tocar e tocar, e depois de aquecido, tocar, tocar e tocar. Tocava o dia
inteiro. Não via isso como prática. Não tinha nenhuma teoria ou
discursos sobre sua ocupação. Apenas dedicava-se a sua guitarra. Não via
sentido em ficar em bares com colegas, discutindo sobre outros músicos,
sobre música, quando poderia estar em casa, tocando, ou melhor, estar no
mesmo bar, com as mesmas pessoas, deixando que os instrumentos falassem
por eles. Para ele, era o mesmo que pessoas sentadas na grama, olhando
uma para outras, descrevendo as qualidades de determinados pratos, ao
invés de estarem na cozinha de uma delas.
Certa vez, ele me contou uma piada: "Quantos guitarristas são
necessários para trocar uma lâmpada?". Droga, não tinha a menor idéia.
"Cem. Um para fazer o trabalho e 99 para comentarem como teriam feito
melhor”. Ele me disse isso com aquele sorriso inocente. Era apenas uma
piada, não queria alfinetar ninguém. Os mesmos corações que serviam de
baterias extras para sua música também transformavam-no no ser humano
mais decente que conheci.
Diego estava apresentando-se desacompanhado. Não tinha família, não
tinha namorada, e fazia tempo que não integrava uma banda. Mas tinha sua
Fender Telecaster. Não era a guitarra mais emblemática do jazz, mas nas
mãos de Diego ela fazia sentido. Acho que às vezes Diego sentia-se
incomodado por não ter uma guitarra mais jazzy. Até o dia que lhe
mostrei uma foto de Marc Ribot tocando com uma. Foi como contar para um
órfão que seu pai é o Bill Gates. O miserável nunca mais questionou a
finalidade do instrumento. A verdade é que ele poderia pegar uma
guitarra de 30 reais e fazer soar como uma de cinco mil dólares.
Nessa época surgiu uma banda na cidade, Os Invisíveis. Eram músicos
egressos das melhores tentativas de se formar um bom grupo de jazz em
Porto Alegre. Estavam todos lá: Tico Torres, um baterista que havia
seguido a cartilha de Elvin Jones, mas também, graças ao seu passado
roqueiro, sabia castigar as peles quando necessário, Artur Monteiro, que
transitava do sax alto para o barítono com uma desenvoltura anfíbia, o
baixista Donald Campilongo e o conturbado Mark Davis (o único maluco o
suficiente para adotar um nome artístico, mandado embora do naipe de
metais dos Paralamas do Sucesso por tentar improvisar poesias beats no
microfone do vocalista. E sim, trompetista, tendo em comum com Miles
Davis não só a escolha de instrumento).
Na
hora de escolherem um guitarrista, colocaram um grande anúncio nos
classificados de um jornal da cidade: "Procura-se guitarrista de jazz
nos moldes de Diego Carpentier. De preferência, o próprio". O anúncio
foi pago por Davis, que aquela semana estava em abstinência e acabou
deparando-se com uma quantidade excedente de dinheiro ao chegar no
sétimo dia de privação. Carpentier respondeu ao anúncio, demonstrando
uma alegria genuína ao ser escolhido. Ficou satisfeito em ser o homem
certo para o serviço.
Os
Invisíveis estavam completos. Ofertas não faltavam. Mas uma chamou a
atenção da banda. Um conhecido bordel de luxo da cidade estava querendo
contratar a banda como atração fixa das noites de quinta e sexta.
Pagavam melhor que qualquer outra casa, e eles poderiam ainda conservar
as noites de terça e quarta no Cult Bar, bem como, as noites de sábado
no Dado Tambor. Não que Porto Alegre fosse a New Orleans do terceiro
mundo, mas havia espaço para uma banda de jazz, e Os Invisíveis eram
essa banda.
Então eles aceitaram a proposta. Somando todos os cachês, poderiam
manter seus padrões de vida (quitinetes, sanduíches, cigarros e CDs) sem
apelarem para um emprego convencional.
Até
hoje ninguém entendeu o que os administradores do Galisteu pretendiam ao
contratarem uma banda de jazz. Os Invisíveis não fizeram a menor noção
de esclarecer isso. Limitaram-se a discutir (não muito) o valor do cachê
(não muito).
O
Galisteu era conhecido por possuir as melhores prostitutas da cidade.
Mulheres de 700, até mil reais. Era isto que atraía Os Invisíveis. Não
serem o espetáculo. Importarem tanto quanto a decoração da parede. Eles
eram Os Invisíveis, tocando para um público invisível, uma platéia que
não estava ali. Na verdade, aquele lugar não existia. Por melhor que
estivesse sendo a noite para os freqüentadores do bordel, o sorriso que
carregariam até o café da manhã não teria justificativa. Mas dentro do
Galisteu, antes que os acontecimentos da noite fossem soterrados por
ficções culposas, todos estavam protegidos por acordos de cumplicidade.
E danem-se os que estão fora da bolha.
É
improvável que alguém tenha ido numa quinta ou sexta-feira ao Galisteu
especialmente para ver Os Invisíveis, mas, se foi, teve os 40 reais que
gastou para entrar mais do que compensados. A banda estava afiadíssima.
Diego Carpentier era nada menos do que genial. Não só por conseguir
solar como John Mclaughlin ou Pat Martino. O que realmente impressionava
era sua capacidade de acompanhar o resto da banda, de preencher os
espaços, de deixar espaços, o uso que fazia do silêncio. Vendo ele
tocar, consigo entender porque guitarristas como Wes Montgomery e
Charlie Christian eram tão admirados. Não era só tocar, e sim, onde
tocar. Achar seu lugar na música.
A
banda começava às 23 horas. Tinham um intervalo de 45 minutos lá pelas
duas e meia, depois tocavam até às quatro horas. Durante esse intervalo,
Davis ia até o banheiro preparar sua janta num espelho. Às vezes era
acompanhado por Tico e Artur. Mas o único que estava com o hábito de
trinta reais por noite era o trompetista. O restante da banda ficava
bebendo no bar. Quando Davis retornava, o garçom precisava esconder os
bons uísques. Depois da estréia dos Invisíveis, a casa começou a ter
uísques nacionais em estoque.
Foi
num desses intervalos que Diego conheceu Lúcia. Pelo que Tico me disse,
era a quarta semana da banda no Galisteu. Até então, ninguém tinha visto
os dois flertando um com o outro, se fizeram, apenas eles sabem. Os dois
conversaram durante toda a pausa dos Invisíveis. Lúcia bebia um martini,
Diego ficou o tempo todo em uma garrafinha de Reineken. Artur contou que
o guardanapo usado geralmente por Diego para anotar pequenas mudanças de
acordes, naquela noite, foi usado com a finalidade para que foi
inventado. Mesmo sendo um cara bonito, a beleza de Lúcia lhe causava uma
prazerosa falta de conforto.
Diego era de longe o símbolo sexual da banda. Levando em conta a
concorrência, isso não quer dizer muito, mas Jim Morrison também nunca
tomou como ofensa ser chamado o sex simbol do The Doors (convenhamos,
Manzarek, Desmorone e Krieger não estavam na banda por serem rostinhos
bonitos). O que quero dizer, é que se alguém como Brad Pitt e Diego
entrassem em uma boate, independente da fama, as mulheres... Bem, elas
continuariam reparando mais no ator, mas Diego estava nitidamente acima
da média. Assim como Lúcia. Só que a média que ela superava era a do
Galisteu.
Terminada a pausa, Diego dirigiu-se para o palco. E sim, pela primeira
vez houve troca de olhares entre um componente da banda e uma das moças
da casa, durante o show. Bastou dois ou três olhares de Lúcia para Diego
estar ganho. Ganho para ela, perdido para si mesmo. Mas, diabos, o sexo
que ele fez naquela noite valia mais do que as reservas naturais de
alguns países.
Na
noite seguinte, Diego e Lúcia não conversaram um segundo sequer dentro
do Galisteu. Ao fim do último set, os dois dividiam um táxi com o mesmo
destino. Era o esboço de uma rotina.
Independente da nova namorada de Diego, Os Invisíveis não andavam
satisfeitos. Uma banda volátil como aquela tinha um repertório sazonal.
O problema é que não estavam conseguindo acertar dentro do formato do
conjunto as mudanças desejadas. Pretendiam tocar algumas músicas de
Thelonious Monk e de Duke Ellington, bem como, fazer interpretações de
alguns temas de Gershwin e Cole Porter. Apenas material de primeira,
contudo, precisavam de um pianista.
Foi
aí que eu entrei.
Na
época estava trabalhando como cozinheiro para um restaurante de frutos
do mar. Não foi por vocação que troquei as teclas pelos mariscos, só que
tocar para as paredes não paga o aluguel ― elas podem ter ouvidos, mas
não dinheiro. Quando recebi o telefonema de Mark, pendurei o avental.
Logo no primeiro ensaio ficou evidente como incrementei a química da
banda. Já havia tocado há alguns anos com Davis e Tico, e não levou mais
que dois encontros para sentir-me confortável com o restante da banda. A
única coisa que me perturbou nestes dias foram as alterações no rosto de
Diego, as emoções que lhe deformavam a face. Não sabia quais eram as
preocupações, mas não era difícil descobrir da onde vinham. Lúcia o
tinha dispensado.
Minha estréia com Os Invisíveis no Galisteu foi a noite mais inspirada
de toda minha vida como músico. Pena que a noite apenas iniciou após as
três primeiras músicas.
Começamos com Night In Tunisia, que estraguei do começo ao fim.
Em seguida tocamos Straight, No Chaser. Executei com a maestria
de um tecladista de churrascaria. Logo a do Thelonious, que pratico
desde a minha adolescência. A próxima foi Take Five, de Dave
Brubeck. Nessa, acertei pelo menos o tom, mas que ninguém ajustasse seu
relógio comigo.
Depois do último compasso ― não perguntem para mim ― de Take Five,
a banda teve uma rápida conferência. Não participaram Diego e eu. Eu,
por não me considerar mais um integrante do grupo, Diego, só descobri
depois.
A
música seguinte seria Giant Steps. Eles decidiram pular para uma
mais fácil. Naquela altura, deviam estar duvidando que eu seria capaz de
tocar até uma do Kenny G.
Mark vinha em minha direção para pôr-me a par da mudança, mas foi
ultrapassado por Diego, que se postou ao lado de meu piano. Mostrou seu
polegar, iniciando uma contagem que iria até o anular, então, começou a
tocar Giant Steps. Nos ensaios, Diego apenas fazia pequenos
embelezamentos com a guitarra, deixando a melodia principal dessa música
para o sax de Artur. Naquele show, o tema foi executado por uma guitarra
e por um piano. A música que tomou conta do ambiente teria arrancado
aplausos da platéia, se não estivéssemos no Galisteu, onde as pessoas
não eram platéia. Mas a banda aprovou. Foi um daqueles momentos
inspirados, que de alguma forma Diego me emprestou. O restante do
repertório não foi menos do que mágico. Comecei a noite como um
prestidigitador de nona categoria, o maior dos charlatões, e terminei
como Houdini.
Por
melhor que tenha sido a noite, perto de Diego, continuei sendo um
cozinheiro. Todos nós éramos. E agora havia um novo dínamo para a música
de Diego. Não mais apenas seus corações sobressalentes. Sua motivação
era aquilo que estava destruindo todos eles.
Durante o período que estiveram juntos, os clientes de Lúcia não
incomodavam Diego. Ele costumava achar graça das brincadeiras que a
banda fazia: "Ei, cara, preciso te contar uma coisa. Olha, não sei como
te dizer, mas acho que a tua mulher anda te traindo”. Ou: "Diego, tem
certeza que tua mulher é fiel?". Diego divertia-se junto com a banda.
Ele era o namorado de Lúcia. Enquanto ela transasse por dinheiro, não
seria infidelidade. O amor fez Diego disciplinar-se para manter
acorrentado seu ciúme. Já Lúcia, estava ligada ao guitarrista por um
simples capricho. Capricho que perdeu a força e foi substituído sem
hesitação pela prática da rejeição, atividade que a mulher achou muito
mais compensatória.
Separados, ela fazia de seu trabalho um instrumento de tortura para
Diego. Não que tivesse prazer em sair com seus clientes, regozijava-se
ao ver a angústia que seus programas causavam no rapaz. E ainda era paga
para isso.
Numa ocasião, nós dois estávamos no bar do Galisteu, aguardando pelo
reinicio do show, quando Lúcia tomou lugar à extremidade do balcão. A
julgar pelas trepidações de seu martini, Diego tornara-se o epicentro de
um terremoto. Lúcia veio em sua direção, encarando-o com um olhar
piedoso. Logo seus lábios se encontraram, apenas para perderem aderência
instantes após o contato. Diego cuspiu a surpresa embrulhada em saliva
trazida por Lúcia.
Ela
assistiu a tudo, seu recreio havia terminado, podia voltar ao trabalho.
Sugeri à banda largarmos as apresentações no Galisteu, contudo, foi
Diego o mais contrário à idéia. Decisão que foi sua derrocada.
Então aconteceu.
Era
uma sexta-feira, 23 horas e 45 minutos. Nada de Diego. Levando em conta
seu profissionalismo, a única hipótese provável era óbito. Do próprio.
Com seis cordas a menos, começamos.
Sentei ao piano, iniciando Rhapsody In Blue. Estava já alguns
minutos dentro da composição, quando Diego fez sua entrada no Galisteu.
Rastreou Lúcia e partiu para cima dela com uma fúria tão alienígena para
ele como para quem o conhecia. Qual um lobo hidrófobo, arrancou pele e
rasgou carne, usando um canivete no lugar de garras infecciosas.
Satisfeito com a investida, partiu para a próxima. A presa era o
industrial que acompanhava Lúcia. Há pelo menos três semanas ele era seu
cliente exclusivo no Galisteu.
Diego guardou o canivete e saiu.
Ele
não chegou a atingir órgãos vitais com seus golpes. Os dois
sobreviveram. Depois do ocorrido, nem o melhor cirurgião plástico deste
planeta poderia fazer algo por ela.
Fizemos jus ao nosso nome e caímos fora do lugar, para jamais
retornarmos. No outro dia fui o primeiro a procurar por Diego. Tentei o
seu apartamento, e não fiquei surpreso ao encontrá-lo no local. É claro
que não estava sendo procurado pela polícia, nenhuma queixa foi dada,
mas seria um risco desnecessário permanecer em casa. Risco que Diego
ignorou.
Por
mais burro que fosse Diego, achei estranho ele ter aberto o portão de
seu prédio sem ter pedido que me identificasse ao interfone. Subi,
encontrando a porta aberta. Não só aberta como ausente. A porta
encontrava-se despedaçada, espalhada pela sala.
Todas as trilhas de sangue no apartamento levavam até ele. Os afluentes
de violência na sala desembocavam em suas mãos enfaixadas.
―
Sabia que só poderia ser um amigo ― disse ele, justificando o descuido
do interfone, ou querendo dizer que nada de ruim poderia ainda
acontecer.
Não
havia nenhum hematoma em seu rosto, nenhum corte visível em seu corpo, o
único indício de agressão eram os curativos em suas mãos. Aproximando-me
pude constatar a ausência de três dedos em cada uma delas. Diego me
encarava, deixando o desespero escorrer por seu rosto. Ele não queria
falar a respeito, nunca falou. Até hoje, não sei se foram os donos do
Galisteu ou o industrial que Diego atacou os responsáveis por sua
mutilação.
Telefonei para Marcos, um enfermeiro amigo meu. Precisava de alguém para
fazer um curativo decente em Diego. Enquanto Marcos cuidava dele, falava
para Diego sobre Django Reinhardt, o guitarrista cigano que teve dois
dedos de sua mão esquerda inutilizados devido a um incêndio. Mesmo após
as queimaduras sofridas no incêndio de sua caravana, Django continuou a
tocar. Levou dois anos para recuperar-se, e é tido até hoje como um dos
melhores guitarristas do jazz.
Logo percebi que estava perdendo tempo. Vi nos olhos de Diego que tinha
acabado. Ele nunca mais voltaria a tocar, sua música havia sido
decepada.
O
relato dos motivos que levaram ele a perder a cabeça veio em seguida,
sem eu ter perguntado.
Sexta-feira, após passar o dia dando aulas, Diego voltou ao seu
apartamento para pegar sua guitarra e seu amplificador. De posse de seus
instrumentos, se encaminharia ao Galisteu. Os preservativos usados
espalhados sobre sua cama fizeram-no esquecer por momentos do motivo
pelo qual entrara no quarto. Recobrado do choque, constatou que não
havia mais nada ali para ser coletado. Seu equipamento e seus discos
estavam destruídos.
O
perfume que pairava no ambiente não deixava dúvidas sobre a identidade
de um dos co-autores. Então aconteceu.
No
táxi a caminho de casa, também reencenei aquele dia. Diego, após semanas
de tortura, transbordou ao ter seu apartamento invadido e seus
instrumentos e discos destruídos por sua ex-amante e pelo industrial.
Não consegui julgar os atos de Diego. Não cheguei perto de juízo algum.
Não sabia se era certo cortar alguém pelas afrontas em questão. Não
sabia se poderia colocar as atrocidades de Diego e Lúcia em uma balança
e chegar a algum resultado que inocentasse um deles. Sabia apenas de uma
coisa. Não foi o industrial que esteve naquele apartamento com Lúcia.
Fui eu.
Naquela tarde, passei no Galisteu para resolver alguns problemas de
sonorização. Lúcia estava lá. Aproximei-me dela com boas intenções,
desejava que chegasse a um armistício com Diego. Todas as minhas boas
intenções enrijeceram-se após a primeira investida de seus dedos em meu
braço. "Não quero que fale comigo, não quero que me convença, quero
apenas que me leve para cama", ela disse. Ciente que ele estaria dando
aulas, e dotada das chaves, ela sugeriu o apartamento de Diego.
Diego deve ter encontrado vários preservativos, não lembro quantos usei.
Aquela mulher ruborizaria até Henry Miller.
Fez
valer cada centavo.
Saí
antes dela. Não imaginei que ela deixaria indícios de nossas atividades,
quanto mais, a destruição que promoveria dentro do lugar.
Os
Invisíveis terminaram. Estão agora em São Paulo, tocando com outro nome.
Sem guitarra e piano. Sobre Diego não posso dizer muito, não o vejo há
meses. Algumas pessoas me disseram que ele virou um andarilho, outras
dizem que trabalha no porto. Há quem garanta que está morto. Não sei.
Apenas posso falar sobre um cozinheiro, que certas noites, sente-se
tentado a ir até a Voluntários da Pátria e pegar uma prostituta de 10
reais com cicatrizes no rosto.
RODRIGO SCHWARZ, jornalista e escritor, 28 anos, nasceu em
Joinville (SC). Seu primeiro romance será publicado pela Editora
Bertrand, em maio de 2005.
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