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Destino e tragédia em Pedro
Salgueiro
Nilto Maciel
Com o volume de contos Brincar Com Armas, assume Pedro Salgueiro
lugar de destaque no conto cearense, embora O Peso do Morto e O
Espantalho já tivessem merecido elogios de críticos do Ceará e do
Brasil. Dividida em dois "livros", o primeiro em seis partes, cada uma
com quatro histórias, a obra apresenta unidade temática, de ambiente e
de linguagem. Talvez seja equivocada a idéia de unidade temática em
livro de contos. Apesar disso, pode-se ver neste terceiro compêndio de
narrativas curtas de Pedro Salgueiro como temas primários a morte, a
trama da morte, a proximidade da morte (a velhice, por exemplo), o medo
da morte e o destino. A morte e as manifestações dela emanadas, como o
medo, a paranóia, ou seus motivos, como a vingança. Em "A Volta" o
protagonista "sabia que um dia eles o pegariam". Eis nestas palavras o
núcleo da narrativa: a morte, o destino, "o desfecho de tudo". E a
desgraça de fato aconteceu. O homem volta à cidade para morrer, para
cumprir o seu destino. Por isso, nem "se assustou quando ouviu o
primeiro estampido". É o Destino das tragédias gregas, de Sófocles.
Tinha de acontecer. O narrador-protagonista de "O Olhar" narra uma
vingança: tarde morta, com gritos de crianças vindos de bairros
distantes, a chegada de trem. Da janela da hospedaria avista a esquina
da farmácia. As facadas e o olhar do morto. Em "O Pânico", narrado na
primeira pessoa do feminino, por uma repórter, mais uma vez a morte é o
motivo da história, é o próprio enredo. Cenas rápidas de filme, em tempo
breve, alguns minutos. O oposto de "Coronel, Coronel", no qual se
observa um drama interminável, uma situação de conflito duradouro e não
uma só ação. A loucura instalada na vida de um antigo militar, a quem a
meninada das ruas achincalhava aos gritos de "Coronel, coronel, cabeça
de pastel". Alguns contos tratam exatamente da velhice, da caduquice, da
solidão dos idosos. Como a de Olga, em "Soluço antigo". Os velhos são
sempre abjetos, como em "Ausência". Solitário, o velho já não podia
dividir com a esposa a sombra do benjamim na calçada, nem o quarto do
casal e muito menos espantar os meninos que roubavam goiabas no quintal.
Tudo é passado: o tabuleiro de damas, o almanaque velho, as cadeiras de
balanço, a caneca de alumínio no beiço do pote, o velho penico de ágata.
Tudo é apenas solidão e velhice.
O enredo de algumas histórias é subliminar, escondido, envolto numa
espécie de casca, numa aura de mistério. Em "O Sobrado" o leitor se vê
diante do inexplicável, para a ciência e para a fé: uma criança, um
bebê, se assusta sem motivo aparente, ao ser conduzida por certa rua.
Suas reações estranhas, de choro imotivado, são o ponto de partida da
narrativa. Ao final sabe o leitor de uma tragédia ocorrida há tempos: um
avô havia caído de uma janela naquela rua. No entanto, mesmo depois de
"descoberto" o motivo do susto do bebê ainda se ouvia um choro baixo de
criança. Igualmente estranha é "Na Estrada". Às vezes não se trata
exatamente do "estranho", de que fala Todorov, porém do não-explícito,
como no final de "No Carnaval". Em outras páginas do livro se pode ler
uma crônica do patético e do humorístico, como em "A Catraca".
Exceção feita a alguns contos "policiais" ou de acidentes fatais, como
"O Pânico", "A Rosa Encarnada" e o que dá título ao volume, mais
urbanos, o ambiente das narrativas de Brincar Com Armas é quase sempre o
"lugarejo" do sertão, a pequena cidade e seus arredores, poucas vezes
nomeado, a não a mítica Papaconha, do Livro Segundo. Gumercindo Freire,
o protagonista de "A Volta", entrava pela rua principal de uma
cidadezinha. No seu passeio em busca do passado (ou do destino), avista
a praça vazia, um benjamim, as calçadas. Caminhava para o desfecho de
sua história. Há toda uma descrição-narração do trajeto do personagem,
desde o trem, quando avistou os primeiros telhados pela janela do trem.
Em quase todos os contos há uma rua empoeirada e deserta, a bandinha, a
festa do padroeiro, um galo a cantar, a copa de um benjamim, o mercado,
a mercearia, a torre da igreja vista da janela do trem, a estação, a
calçada, lamparinas de querosene nas casas, uma bodega no final da rua,
o cajueiro torto no meio da praça. O velho militar de "Coronel, Coronel"
saía para a calçada para enxotar os moleques. Fazem parte deste cenário
todo um passado sertanejo: o leite mugido, o açude, as mudas de roupa,
as cangalhas e jiraus do alpendre, a trave da janela, a cacimba, a lua
da sela do cavalo.
No Livro Segundo, que se pode chamar do "ciclo Papaconha", todo narrado
em primeira pessoa, as narrativas estão ambientadas num fim de mundo,
num sovaco de serra, na mata, num lugarejo escondido no sopé de uma
serra, numa cidadezinha insignificante. Embora sejam diversos os
narradores, ao leitor parece estar diante de um só narrador épico. Os
contos, mesmo se lidos fora da ordem no livro, são como capítulos de
romance.
Um dos narradores estocou armas, montou um observatório. Outro cavou
trincheiras no jardim, um túnel, à espera do inimigo. Na verdade, um
inimigo imaginário, lendário. "O inimigo imaginário que aguardavam desde
o começo dos tempos", e que "jamais viria, pois ele estava dentro deles
mesmos, em seus medos". Tudo obsessão, como se vê na narração de três
semanas de busca da verdade sobre o desvio da linha férrea. Minuciosa
busca em antigos papéis na prefeitura ("O Trem"). A busca dos inimigos
do passado. Para tanto, o personagem escreveu Os Cadernos da Papaconha.
Um "lunático daqui" montou um observatório e há mais de três anos
observava o suposto inimigo. Há anos planejava novas estratégias. Em "Os
Prisioneiros" o narrador vê espiões nos vagabundos, que são presos e
açoitados com galhos de urtiga. Como se vê, os personagens-narradores
quase sempre se julgam lúcidos, em busca da verdade, enquanto para eles
os outros são doidos, lunáticos. Na verdade, são todos loucos ou narram
como se loucos fossem. Em "O Batedor"o narrador reconhece que "estava
perdendo o juízo". São todos paranóicos. O título geral, se se tratasse
de um romance, até poderia ser "Homens Assustados" ou "O Paranóico" ou
simplesmente "Paranóia".
Pode-se ver a raiz destas histórias numa espécie de síntese, como se
fosse um apontamento do próprio contista, na página 168: "Transcrevi
alguns dos fatos com minha letra para que não fossem totalmente
destruídos pelo tempo; também havia histórias incompletas que busquei
completar com outros achados mais ou menos coincidentes em assunto,
grafia e até na maneira de contar, depois costuradas para parecerem uma
seqüência; na verdade eram descontínuas e retratavam várias versões do
mesmo problema, pois, pelo que tudo indicava, foram muitos os indivíduos
que se ocuparam em registrar falatórios, lendas e fofocas a cerca do
ocorrido (se é que um dia realmente aconteceu algo)".
E a aldeia móvel? Em "Os Loucos da Papaconha" os habitantes "arrastam" a
aldeia no rumo dos povoados. Como o faziam os índios brasileiros, em
fuga ou em busca de lugares mais seguros, mais propícios à vida. Ou em
busca do paraíso, da terra-sem-mal. No entanto, em que tempo viviam
esses personagens das histórias de Pedro Salgueiro? Possivelmente no
início do século XX, pois alguns deles seguiram o bando de Lampião. No
entanto, na maior parte do livro não se vislumbra nenhum indício de
tempo histórico. Seria, então, um tempo mítico, lendário, não real, o
tempo da espera do inimigo que costumava ser confundido com mendigos e
até ciganos. Todo estranho na cidade poderia ser um espião. A
desconfiança, o medo, a paranóia estão presentes em todos os narradores.
Os contos de Brincar Com Armas são narrados ora na primeira, ora na
terceira pessoa, quer seja ela testemunha, quer narrador onisciente ou
escondido. Os diálogos são exceções, como em "Na Estrada", onde se
encontram diálogos internos dentro da narração. Em "A Culpa" há até uma
explicação para a ausência de diálogos. "Os dois não se falavam desde o
triste dia: ele com suas dores e seus cabelos brancos; ela com suas
vergonhas, suas culpas. Calaram-se, como se houvessem compreendido a
inutilidade das palavras, o quanto elas poderiam agravar tudo aquilo".
Por isso, o silêncio dos personagens dentro de casa, na amplidão da
casa, sempre a vagar (o rapaz) pela casa noite adentro.
A linguagem é a da narração espontânea, sem rodeios, objetiva, seja na
primeira, seja na terceira pessoa, sem descrições longas e enfadonhas e
sem aqueles tradicionais e vulgares diálogos diretos, tão freqüentes na
literatura regionalista ou regionalizada de alguns prosadores.
NILTO MACIEL é cearense de Baturité e residiu por 25 anos em
Brasília, devido a compromissos profissionais. Em meio à burocracia
excessiva e a intensa vida pública que rondam a rotina da Capital
Federal, encontrou tempo para conciliar os afazeres com a vocação
literária. Ao todo, publicou 14 obras, sendo um livro de poesias e 13
volumes em prosa - romances, novelas e contos -, alguns com premiação
nacional.
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