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As pombas são como os homens
Acomodado no banco de pedra que existia junto à soleira da porta, o
queixo seco apoiado na bengala de pau de marmeleiro que ele próprio
moldara à força de fogo, o velho Sebastião escutava, distraidamente, o
ram-tam-tam dos foguetes, ali ao pé. Bastar-lhe-ia levantar um pouco a
cabeça para os ver subir, para lhes observar o rasto avermelhado no céu
azul, para ver o clarão das bombas a estoirar e, logo-logo, o estampido
seco da pólvora, que fazia eco nas paredes da casa, pequena e pobre. Mas
não o fez. Preferia espreitar a azáfama de um bando de pombos domésticos
que se movia na eira, bicando as bagas de centeio que por ali tinham
ficado perdidas. Um cão veio de dentro da casa esfregar-se-lhe nas
pernas. E o velho falou-lhe como falaria se ali se encontrasse um
cristão:
- Estão com fome, as pombas, vês?...
O cão levantou a cabeça e lambeu-lhe as mãos. Não entendia nada daquilo
que o velho para ali estava a dizer, mas sabia, pelo tom cálido da voz,
que estava contente.
O velho continuou a falar-lhe:
- E tu de barriguinha cheia, ham, como um abade! Não há como um dia de
festa para a gente encher a barriguinha, ham?
O cão levantou novamente a cabeça para lhe lamber as mãos. Era domingo,
e havia festa no povoado. A procissão havia de estar para sair da capela
e por isso os foguetes subiam agora menos espaçados.
Pela primeira vez em quase oitenta anos de vida, Sebastião deixara de
vestir o fato o único fato que possuía, de calçar o único par de sapatos
que exista em casa, de colocar na cabeça o seu chapéu de felpo, para
participar na procissão. Estava velho, sentia as pernas moles, o corpo
pesado. Só a alma continuava leve como o vento. Por isso Deus havia de
querer dispensá-lo. Guardaria a roupa para que lha vestissem uma última
vez quando a sua hora chegasse, que não havia de andar longe...
O cão costumava espantar os pombos. Mas agora estava sossegado e não
havia modo de abandonar o aconchego das pernas do velho, que lhe afagava
a cabeça.
- Então, hoje não corres atrás das pombinhas? Não? É assim mesmo: dia de
festa é dia de festa. Deixá-lo ser também para elas, não achas? E se
elas não comerem as sobras do centeio, daqui a pouco ele cresce e terei
que o cortar. A eira não é para lixo, ham?
Um foguete subiu e rebentou mesmo por sobre a casa e os pombos
assustaram-se, levantaram voo, deram duas voltas largas e voltaram a
poisar na eira. O cão seguiu-as com os olhos. Apetecia-lhe correr atrás
delas, mas sentia-se bem ali, deitado aos pés do velho dono. Remexeu-se,
nervoso; o velho aquietou-o:
- Deixa-te de ser doido. Deixa as pombas em paz...
Outro foguete bufou, na subida, e quase instantaneamente o ram-tam-tam
de quatro ou cinco bombinhas encheu o ar. Os pombos voltaram a levantar
voo e, desta vez, o cão pôs-se em pé. O velho ordenou com firmeza:
- Deite-se!
O animal obedeceu e o eco dos foguetes extinguiu-se de encontro às
paredes da casa. Ao longe, para os lados da capela, escutava-se um breve
rufar de tambores. Era a filarmónica que, com toda a certeza, marchava
já atrás do pálio.
- Procissão de saída, Nero. Daqui a pouco, passará acolá, junto à
portinha, e eu irei ajoelhar-me quando o pálio vier. É o menos que um
velho como eu pode fazer pela salvação. Debaixo do pálio vai Deus,
dizem, e a educação que me deram foi essa...
Um outro foguete rasteou no céu, e os pombos nem esperaram pelo estrondo
das bombas. Abriram asas e levantaram. Deram duas voltas por sobre a
eira e voltaram, ainda esfomeadas. O cão eriçou os pêlos do pescoço,
nervoso com aquele levanta-poisa.
- Aquieta-te, cão. Sabes que eu já fiz um papel igual ao dessas pombas,
que também fui perseguido? Teria os meus quarenta anos e uma série de
bocas para alimentar: minha mulher, que Deus tenha, os meus pais, os
pais da minha mulher. Sorte a nossa que ainda não tínhamos filhos. Era
tempo de fome, a guerra derramava-se lá fora, e por cá até as couves
galegas para um caldo quente eram bem pagas. Havia as terras, onde novos
e velhos amanhavam alguma coisa para comer mas, das colheitas, os
patrões levavam o melhor e aos caseiros, muitos deles com ninhadas de
filhos tão pequenos que cabiam aos três e quatro debaixo de um cesto,
sobejava pouca coisa, muito pouca. Vivíamos à beira da miséria e eu, sem
outra alternativa na vida, fui para a Borralha, trabalhar no minério.
Como as pombas, vês?, que procuram o minério delas ali, à borda da eira.
De vez em quando conseguíamos esconder umas pedritas, coisa pequena que
mal dava para o perigo que corríamos. E quando os encarregados
desconfiavam de nós, não havia alternativa,
tínhamos de abalar. Como as pombas, vês?, que se assustam com os
foguetes. E até tínhamos os nossos Neros. Existia apenas uma diferença,
cão: é que nós não podíamos pousar no mesmo sítio duas vezes seguidas...
O som da banda filarmónica estava cada vez mais próximo. Um foguete
estalou por sobre a casa, assustando as pombas. Escutava-se nitidamente
o ruído das varas que os homens do andor batiam cadenciadamente na
calçada da rua.
JOSÉ ABÍLIO COELHO nasceu em Póvoa de Lanhoso (Portugal) em 1960.
É jornalista e autor, entre outros, dos livros "Caminhos de Terra
Batida", "Rascunhos da História", "Trapos" e "O Velho Que Apanhava
Almas".
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