Aquele tal de prestes

- E toda essa desgraça por causa daquele tal de Prestes.

Meu pai ruminava essa mesma frase sempre que o nome de Mario Garcés era citado nas reuniões de família ou nas rodas de amigos íntimos. E ele a dizia ainda com a mesma expressão de dor, com a voz enforcada, o mesmo peito em ânsia profunda e os olhos anuviados, como quando a disse pela primeira vez, na noite quando saiu do mato escuro, voltando da tapera do finado Pedro Ivo. Trazia os olhos baixos, os braços de arrasto, a boca aberta em meia-lua e um suor azedo no corpo, respirando levemente o ar como se apenas para certificar-se que estava vivo. Passou por todos nós, que estávamos a esperá-lo desde que partira no começo da noite, e não deu uma palavra. Arrastando os pés, cansado, largou a espingarda ao chão, subiu os degraus da porta da frente e atirou-se no sofá da sala, com um olhar de vazio profundo. Não chorou uma lágrima, mas acredito que seu desejo era o de mergulhar em um rio e deixar que a correnteza carregasse toda a miséria de sua alma.

E desde aquela noite, meu pai nunca mais foi o mesmo homem. Nem ele, nem seu compadre Mario, que ficou sem vê-lo durante todos os intermináveis anos que se passaram desde que findou a madrugada maldita. Logo eles, que eram tão íntimos, tão cúmplices, amigos mui chegados desde os tempos da infância. Ora, fui criado com a presença de Mario dentro de nossa casa. Ele e meu pai mateavam todos os dias depois da lida, no costado do galpão, debaixo da sombra do velho umbu. E depois de toda a amizade, de uma vida inteira onde ambos construíram um estreito sentimento de irmandade, o que restou da lembrança de Mario Garcés em nosso mundo foi apenas a frase amarga dita por meu pai, remontando ainda à revolta ardente da noite trágica.

Sempre me perguntei de onde teria saído aquele tal de Prestes. Até então, podia-se pensar que era apenas mais um viajante, desses que varavam o Rio Grande de nascente a poente trazendo encomendas e recados. Mas quando ele apareceu de gaita no ombro, de cabelos longos, barba fechada, sem pai nem mãe naquela carreira, lembro que Mario inclinou-se sobre meu pai e comentou em voz baixa:

- Esse é vagabundo. Se nota só pela gaita e pela melena.

Meu pai deu de ombros, mas não discordou de seu compadre. Realmente o rapaz tinha estilo de farrento e sem-vergonha, mas todos estavam bem mais interessados nos cavalos levantando poeira, na disputa cabeça a cabeça pela linha de chegada do que por aquele tipo novo, com seu olhar sedutor, que por ali aparecera. E Mario também continuaria com seu interesse somente nas carreiras e nunca nem viria a saber o nome do rapaz se ele não cometesse o erro de começar a vigiar Alice. Lógico, a filha de Mario era moça, bonita e mesmo ainda com a brandura da adolescência já mostrava ares de mulher madura, principalmente pelos traços bem definidos do rosto, os longos cabelos e as generosas curvas que habitavam todo o seu corpo precoce. Durante aquela tarde, misturados aos gritos dos homens e ao relinchar dos cavalos na pista de terra, os olhares do tal de Prestes e de Alice cruzaram-se inumeráveis vezes. E não precisou muito para que a troca de sorrisos, o erguer do chapéu, o mirar caloroso e denso, desse vez a um choque casual e a um pedido de desculpas, seguido de uma longa conversa que se estenderia até o momento em que Alice, temerosa ao pai, achasse prudente deixar o Prestes ali, e voltar à companhia da família, entretida com o correr dos animais.

Mas da mesma forma que o olhar de Mario não perdia um movimento dos cavalos na cancha, ele também não deixava de notar nenhum passo da filha. E, creio eu, a conversa de Alice com aquele outro foi registrada pelos olhos atentos de Mario, mesmo sem a percepção da moça, encantada e envolvida demais pela conversa do melenudo ordinário.

Depois disso, mesmo com as advertências e proibições de Mario, os dois seguiram encontrando-se às escondidas por algum tempo. Meu pai dizia que Mario estava no rastro do tal do Prestes, mas nunca conseguia encontrá-lo quando ia à cidade. O desgraçado era esperto, sabia que cedo ou tarde iria aparecer gente dos Garcés atrás dele e então desaparecia sabe-se lá para onde. Como compadre, meu pai se achou na obrigação de envolver-se no assunto e descobriu que o rapaz se chamava Camacho. Se era seu verdadeiro nome ou não, ninguém nunca soube ao certo. Mas de tanto perguntar, meu pai descobriu que, mesmo sendo ainda muito jovem, ele já tinha fama de baderneiro pelos arredores de Noblia. Era filho de pai castelhano e de mãe brasileira. Vivia torto campo afora, ora tropeando, ora tocando gaita em algum baile, tomando trago nos bolichos ou jogando truco nas casas de chinas. Diziam que não valia nada, e que seria uma bênção se algum dia o encontrassem atirado em uma sanga, com o corpo tapado de bala ou com um filete de sangue jorrando pelo pescoço.

Ninguém entendia como Alice deixara-se envolver tanto por aquele tipo à toa. A moça jamais admitiu a alguém que estivesse de romance com o Prestes, muito pelo contrário: sempre negava com uma veemência dura e convincente. Mesmo assim, já se começava a comentar pela cidade que "a filha do Garcés" estava de namorico com o forasteiro, o que enfurecia Mario e aumentava ainda mais seu ódio por aquele próximo.

- Esse só se endireita com uma bala na testa - dizia Mario a meu pai, em suas conversas diárias.

- Já não tarda, já não tarda.

Eu desconfiava que Mario e meu pai estavam armando uma tocaia para o tal do Prestes, mas nunca acreditei realmente que eles fossem capazes de despachar aquele outro. Achava que, de repente, iriam encontrá-lo, dariam-lhe uma boa surra, cortariam a sua cabeleira e o soltariam no meio do campo, como cachorro sem dono. Mas tiro e morte? Não, isso eu não acreditava que eles pudessem fazer. Está certo que o vagabundo não prestava, que andava a correr as cidades e vilas a fazer balbúrdia, se metendo com mulher casada e moça de família, mas umas boas bofetadas na cara e uns planchaços de facão no lombo certamente o colocariam para correr. Mas quando Mario chegou em nossa casa naquele final de tarde, esbaforido, com o rosto vermelho de suor e ódio, chamando meu pai aos urros, tive a certeza de que qualquer desgraça viria adiante.

- O vagabundo do Prestes está com a Alice na tapera do Pedro Ivo.

- Calma, homem. Calma! Como tu soubesse? - perguntou meu pai, com a mão sobre o ombro do compadre.

- O Dorval me disse na venda. Estão de sacanagem por lá já faz mais de semana.

Ouvia-se apenas a respiração descompassada de Mario e os murmúrios tímidos do campo no cair dolente da tarde.

- Hoje ele não me escapa. Quero saber se tu vai comigo.

Meu pai fez que sim com a cabeça e mandou que todos nós fôssemos para dentro de casa. Pegou um chapéu, a espingarda e murmurou alguma coisa com minha mãe. Parecia contrariado, pois sabia que Mario queria encher de bala a cabeça do cachorro do Prestes. Era certo que meu pai também queria ver aquele bandido pelas costas, afinal, além de ter horror a baderneiro mulherengo, o Prestes tinha metido a mão com Alice, moça direita, filha de seu compadre. Deixar o lacaio sem surra não podia, mas acho que a idéia de chumbar a cabeça do infeliz e vê-lo agonizar pelo chão, manchando o pasto de sangue, deixava meu pai temeroso e angustiado. Mas era um pedido de Mario, que diabo! Jamais diria que não. Hoje era a filha de seu compadre, amanhã poderia ser a sua própria mulher. E assim, dirigiu-se ao encontro de Mario, que ainda permanecia na frente da casa a caminhar de um lado para o outro, com o rosto inflamado de raiva. Começava a anoitecer.

Enfiaram-se mato adentro em direção à tapera do finado Pedro Ivo que, com suas paredes descascadas e sujas e com seu hálito de mofo, resguardara durante dias os encontros furtivos do vagabundo com Alice. E os dois homens a caminho, cortando o mato, carregando a arma, planejando a tocaia: meu pai ficaria na rua e Mario ia solito com a faca. Chutava a porta, arrancava o maldito de cima de Alice, pegava-o pela vasta cabeleira e lhe cortava fora aquela sujeira que sabe-se lá quantas vezes tocara o corpo de sua filha. Se o desgraçado corresse porta afora sem que Mario o agarrasse, meu pai lá estaria, atrás dos troncos caídos, de rifle em punho e mira na porta, para dar apenas um tiro bem no meio da testa do cachorro, o mesmo tiro que ele mesmo já havia dito que não tardava. O que fariam com Alice, veriam depois. Naquele momento, o importante era dar um fim no maldito do Prestes, enterrá-lo em qualquer buraco sem nome ou deixá-lo pendurado em um galho de árvore para que os urubus acabassem com a sua carne maldita.

Durante horas fiquei sentado no portal da casa a observar o mato em silêncio, esperando ver um vulto, uma luz, ouvir uma voz, por mais vaga que fosse. No entanto, ouviu-se apenas o estampido de um tiro distante, ecoando pelo negrume denso do campo, chegando até nós como o gemido de um bicho em agonia. Muito tempo se passou e já era madrugada quando viu-se meu pai saindo do mato de braços caídos, arrastando os pés, de arma na mão. Atirou-se no sofá como se estivesse atirando sua alma em um sepulcro. E lá ficou, suado, de lábios frouxos e olhar preso no teto até o dia amanhecer. E todos nós em sua volta, silenciosos e insones, querendo saber como tudo havia acabado. E ele em total silêncio, arfando lentamente a sua dor, como se o seu corpo todo estivesse tomado por uma profunda anestesia.

Ainda hoje me pergunto por onde andará aquele tal de Prestes, e como tudo teria acabado se Alice, no momento em que foi tomada pelo pânico ao ver o pai de faca na mão, não tivesse corrido pela porta escura da tapera no lugar do melenudo maldito. Hoje, talvez meu pai não tomaria seu mate solito no costado do galpão, com o banco de seu compadre Mario vazio ao seu lado. Alice poderia ter casado e ninguém nem lembraria mais do cabeludo que um dia apareceu pelas carreiras, com sua gaita, a procurar bagunça. O certo é que meu pai jamais esqueceu aquela noite, muito menos o cheiro da pólvora do único tiro fatal que dera em toda sua vida. A mim, fica apenas a imagem de meu velho pai jogado sobre o sofá, mergulhado em seu suor, com sua dor, seu remorso, com seus olhos abertos na penumbra da sala a procurar a imagem da menina Alice. O que restou além pranto amargo e infinito de meu pai, foi apenas o eco de sua voz amarga e recheada de culpa sempre a lembrar da tapera arrombada, do estampido do tiro, da escuridão do mato, do sangue jovem esparramado ao chão, e que tudo aquilo, toda essa imensa desgraça, tinha sido por causa daquele tal de Prestes.