Amarela

Disse a VOZ ao CORPO:
não me habites; eu não estou pronta
para a densidade que tu exiges.

Aconteceu aqui, mas poderia ter sido em outra parte do mundo. Ou talvez não. Talvez os acontecimentos estejam em fila, ordenados, justos, esperando para colidir com as pessoas, e as pessoas, iludidas, pensem que a colisão além de natural é aleatória.

Foi de manhã, não muito cedo, porque também as horas dormem e o sol vem de longe. Fui buscando, com o olhar, o local que me havia sido indicado. Numa ruela pouco convidativa, onde uma árvore desolada e triste não dava sombra pois o sol não chegava àquele beco. Haviam-me dito que antes de viajar para países com determinadas características, eu tinha que ir a uma "consulta do viajante". Haviam dado o endereço à irmã mais velha da prima de uma amiga distante da minha irmã mais nova. O papel chegara já gasto às minhas mãos e finalmente pareceu-me estar à porta do edifício onde tais consultas aconteciam.

Dois lances longos de escada levaram-me a uma porta pintada de azul escuro, numa coloração carregada que lembrava as águas profundas do mar. No fim do corredor pouco iluminado, no cimo da porta, o letreiro tinha a primeira parte já apagada e, onde ainda era possível ler algo, lia-se "viagem". Bati à porta. Uma voz vinda do outro lado mandou-me entrar.

Era um quarto pequeno que outrora fora branco, tinha fotos e posters enormes colados numa das paredes, uma janela minúscula e torta que dava para o tronco de uma árvore maciça, a secretária onde repousavam papéis coloridos, guaches e aguarelas ressequidas e, por sobre uma cadeira confortável, um homem muito esguio e muito branco tinha um sorriso pendurado nos lábios, oscilando os óculos pelo nariz - para cima e para baixo - sem fazer uso das mãos, facto que me deixou algum tempo perturbado pois aquela movimentação indicava um certo treinamento na arte de mover acertadamente as orelhas. O homem muito esguio e muito branco executou um gesto breve com a mão e entendi que devia sentar-me diante dele. Era um momento talvez cínico, mas o silêncio não foi, confesso, incomodativo.

- Veio para a consulta do viajante? - perguntou, e reconheci na sua voz uma pueril seriedade, alguma armadilha discursiva ou filosófica.

- Parece que sim.

- Nem tudo o que parece, é.

- Pois não - disse eu.

A sua mão dirigiu-se à parte lateral da secretária e, de uma gaveta imprevisível, retirou um enorme atlas envolto em poeiras e cheiros de um outro tempo. Soprou. Ambos sabíamos que a poeira dançaria no ar durante alguns instantes e que esse seria um momento simultaneamente repousante e avaliativo.

- A que país se dirige? - olhou-me por sobre os aros, e pude ver que os seus olhos não eram nem verdes nem azuis.

- Senegal.

- Pousa em Dakar?

- Certamente - respondi.

- E quando será isso?

- Já amanhã.

- Pela tardinha? - mostrou curiosidade.

- Não - mostrei satisfação. - Pela "noitinha".

O seu polegar divagava - roçando - entre o dedo médio e o indicador. Gesto que, nem lento nem precipitado, parecia ser coisa de sedimentada habituação. E olhava para mim - o homem muito esguio e muito branco. Abriu um mapa do continente africano, na página que continha precisamente o noroeste de África.

A sua cabeça mexia agora, com vagar, para cima e para baixo. Leu algumas dessas informações que os mapas usam revelar. Guardou para si o resultado lógico das deduções que terá feito. Abriu um livro outrora branco, agora amarelo escuro - não pela insistência solar mas pelo desgaste do manuseamento.

- Ceda-me o seu boletim de vacinas.

- Infelizmente não o trago comigo - respondi, embaraçado pelo meu esquecimento.

- Lembra-se das vacinas que já tomou?

- Não. Lembro-me das doenças que já tive.

- E dos locais que já frequentou?

- O que têm?

- Lembra-se deles?

- De alguns.

- Mas não de todos? - perguntou num tom que não era nem de brincadeira nem de seriedade.

- Apenas de alguns.

- Que pena. Eu lembro-me de todos.

Continuou lendo o seu livro amarelado, tendo-se depois levantado para, de uma gaveta distante, retirar embalagens de vacinas, duas seringas gordas e as respectivas agulhas assustadoras. De volta ao seu assento, passou pela porta, rodou a chave, trancou-a. Depositou a chave no bolso enquanto, tranquilo, apreciava o meu espanto.

- Onde julga você que está? - desafiou-me.

- O que julga você que vai fazer com essa seringa? - desafiei-o.

O homem muito esguio e muito branco mudou a expressão no seu olhar. Era espanto e desconforto. Mas era rejuvenescimento também. As rugas junto aos olhos reduziram a sua pressão dérmica. O seu olhar ganhou humidade. Tentei não mostrar que sentia medo.

- Vai ficar em Dakar? - recomeçou.

- Não. Sigo depois para Gorée.

- Gorée ou Dakar, tudo é Senegal, e preocupam-me as febres. Bem sei que não traz o boletim, mas sabe se tem as vacinas actualizadas? - o homem parecia sério; olhando para mim, desfez-se das embalagens e, com a ajuda dos dentes e de um hábil jogo de mãos, ia preparando a injecção.

- Lembro-me que já tive febres normais. E, num 13 de Maio, em S. Tomé, contraí a febre tifóide.

- Teve temperaturas elevadas?

- Sim.

- E alucinações?

- Também.

- O que viu?

- Primeiro não vi nada. Mas não conseguia parar de fazer quadras.

- Como eram as rimas?

- O primeiro verso rimava com o terceiro e o segundo com o quarto.

- O habitual. E depois?

- Depois de ter completado dezassete quadras com lógica e ritmo, começaram as alucinações. Julgava ver duas ilhas. Eu encontrava-me na ilha da febre; dois homens e uma senhora encontravam-se na ilha onde não havia febre.

- E o que se seguiu?

- A senhora ordenou aos dois homens que me salvassem.

- E eles?

- Eles recusaram-se. Mas ela identificou-se.

- De quem se tratava?

- Da primeira-ministra australiana.

- Você julga que pudesse ser alguém fazendo-se passar pela primeira-ministra australiana?

- Cheguei a ter as minhas desconfianças.

- De quem suspeitou?

- De Nossa Senhora de Fátima.

- Estupendo - disse ele.

- Também achei.

A injecção estava pronta. A agulha não reluzia, mas nem por isso ganhava um aspecto menos assustador. O homem muito esguio e muito branco fechou o caderno amarelado. Através do movimento discreto de orelhas provocou, novamente, a oscilação lenta dos óculos. Uma libélula minúscula entrou pela janela e, embora eu tivesse desviado o olhar para observá-la entrar, voar e voltar a sair, o homem muito esguio e muito branco não parou de olhar para mim. Uma ligeira pressão no êmbolo originou o esguicho da prache. No que foi a movimentação ligeira dos seu lábios, julguei descortinar um esgar de prazer.

- Tenho que aplicar-lhe a vacina contra a febre amarela. Está pronto? - indagou, numa voz calma.

- Julgo que não.

- Como diz?

- Julgo que não estou nem estarei pronto para tal vacina.

O homem muito esguio e muito branco franziu o espaço que ia de uma sobrancelha à outra. E fez menção de um qualquer movimento desajeitado. Preparei os músculos dos braços e os punhos para um eventual confronto físico. Mas não.

- Tem algo pessoal contra as vacinas?

- Contra todas, não. Apenas contra essa.

- A da febre amarela?

- Exactamente. Como já referi, tive a oportunidade de conhecer outras febres, mas nunca uma de cor amarela. Nutro uma certa curiosidade por esse tipo específico de febre.

- Ouça, mas não pode sair daqui sem tomar uma vacina - disse, resignado mas resoluto. - Tem alguma sugestão?

Olhei para a porta trancada. Voltei a olhar em frente. O seu cotovelo voltou a pousar sobre a secretária. Uma certa apatia invadiu-lhe o rosto.

- Aceito uma vacina contra a raiva.

- Muito bem. Parece-me apropriado. O mundo não está para brincadeiras.

Depois de trocar o conteúdo, a injecção foi-me aplicada. Desdobrei a manga da camisa, voltei a abotoar o botão. O homem muito esguio e muito branco retirou a chave do bolso, deixou-a ao alcance da minha mão. Levantei-me no mesmo instante em que ele se sentava. Abri a porta. Passei por ela.

- Leve a chave como recordação - disse ele. - Assim um dia, mais tarde, se chegar a ter uma febre de cor amarela, venha cá devolver-me a chave.

- De acordo.

- Se eu não estiver, deixe-me um relato. Eu passo cá de quando em vez.

Desci as escadas. Um torpor de paz invadiu-me a zona superior do braço e por breves segundos senti um medo profundo. Já na rua, vi tombar da janela um pequenino papel branco. Desamarrotei-o. Era o papel gasto que haviam dado à irmã mais velha da prima de uma amiga distante da minha irmã mais nova. Reli o endereço e em nada condizia com a rua ou o número onde me encontrava.

Guardei o papel como recordação, junto da chave. Vi a árvore maciça. Num galho minúsculo repousava a libélula - misteriosa, discreta mas sorridente. Quase, quase amarela.

ONDJAKI nasceu em Luanda, em 1977. Interessa-se pela interpretação teatral e pela pintura (duas exposições individuais, em Angola e no Brasil). Já em Lisboa, fez teatro amador durante dois anos e um curso profissional de interpretação teatral. No ano 2000 recebeu uma menção honrosa no prémio António Jacinto (Angola) pelo livro de poesia actu sanguíneu. Participou em antologias internacionais (Brasil e Uruguai) e também numa antologia portuguesa. É membro da União dos Escritores Angolanos. É licenciado em Sociologia. Publicou "Actu Sanguíneu" (poesia, 200), "Momentos de aqui", (contos, 2001), "O Assobiador" (novela, 2002), "Há Prendisajens com o Xão" (poesia, 2003), "Bom Dia Camaradas" (romance, 2003), "Ynari, a menina das cinco tranças" (infanto-juvenil, 2003) e "Quantas Madrugadas Tem a Noite" (romance, 2004).