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A busca por cérebros
e outros clichês da vida cotidiana
Cena 1
Tiros; sangue por todo lado, pedaços de cérebros pelo chão; polícia,
almas sebosas, manos de fé aqui e lá; o secretário de segurança dizendo
que está tudo sob controle. Desde que se esteja na residência oficial.
Cena 2
Neo-hippies universitários, "vamos nos amar debaixo daquela árvore ali";
maconha consumida durante as reuniões do coletivo da rádio livre local
(que finge não ter uma diretoria "porque assim fica mais legal"). Os
policiais da cena anterior são conhecidos dos seguranças da universidade
e acham aquilo tudo meio esquisito.
Cena 3
Moças bem vestidas, salto alto e fino, formação universitária e
palavrões a rodo: "porra, quebrei minha unha!". Ao lado, passam jovens
arrogantes que, vindos da universidade (a da cena anterior), algum
"filósofo" pop pretensioso no cd player, tiveram tempo demais na vida
para pensarem nos próprios umbigos.
Cena 4
Corredor de uma faculdade de medicina. Uma aluna contrai o corpo todo ao
rir de uma piada sobre um dos pacientes. Mais adiante, sentada num
banco, uma discípula do pastor R. R. Soares espera, pacientemente, por
atendimento.
Cena 5
Uma peformance de body-art, onde uma mulher (a própria artista) é
espancada até desmaiar. Os hematomas e as feridas abertas decorrentes do
ato são as modificações desejadas no corpo.
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Assisto a cenas da vida cotidiana, a torto e a direito, com uma falta de
senso estético (e talvez um certo moralismo decorrente do desespero de
se tentar estabelecer um que atenda, pelo menos, ao meu gosto
particular) próprio de minha época. Neste tempo, as pessoas têm
vocabulário limitado e se expressam basicamente por onomatopéias, quando
não por clichês. A confusão está instaurada: prato cheio para artistas
conceituais e performers. Sou um deles, e procuro verdades humanas nos
clichês. Procuro também o caos sob a fachada da ordem e a expressão
concisa de minha condição. Expresso-me por atos de agressão ao bom
gosto, ao mau gosto e ao gosto mediano. Apenas expresso-me.
Adapto-me facilmente a gostos e a situações diversas. Nada me é
indiferente, e por isso nada me choca. Procuro pelo mau-humor
intrinsecamente humano nas pessoas, aquele que as incomoda quando
sentam-se diante da tv e lembram-se de que precisam devolver o "Titanic"
para a locadora de vídeos.
Sou ícone de uma geração intrinsecamente urbana; misturamos cor local
(quase sempre sujas) à exploração da alma humana (ou da falta dela, já
que somos materialistas). Em todos os sentidos do termo.
Minha última obra foi uma performance durante a qual comia pedaços de
cérebros de pessoas mortas em uma chacina/faxina social feita pelo
Estado em represália a uma série de saques e assaltos em massa
promovidos por hordas de almas sebosas. Depois do ato, alguém da platéia
era arrastado para o centro do palco e humilhado em público ao ser
despido e arrastado por uma coleira. A performance intitulava-se
"Ultra-violência cooptada pela nata da sociedade em que a liberdade de
se praticar atos violentos contra semelhantes e dessemelhantes não é
apenas uma forma de igualá-los em uma condição de inferioridade em
relação ao artista, mas também uma forma de se divertir com algo
assustador".
As pessoas, é claro, não leram o título. Estavam lá apenas para encher a
cara e se divertir. Já previa isto. Como disse antes, nada me choca.
Afinal, nos dias de hoje tudo pode acontecer. Aliás, até já tentei me
dedicar à literatura, mas recebi um prêmio e isso me decepcionou e
acabou por me desencorajar. Voltei à performance, mas fui preso por
escalar prédio público e simular tentativa de suicídio; despertei a
piedade de uns e o apoio de outros que me incentivavam a pular. Mas fui
logo esquecido e soube que minha vocação era de fato as performances.
Quem me conhece diz que sou cínico. Mas muitos nem o sabem ser, e isso
me torna especial. Como conseqüência, sinto cheiro de cérebros frescos a
uma distância razoável. Devoro-os sem que as pessoas percebam: chego por
trás e arranco-lhes parte do crânio com uma picareta. Antes, numa
conversa informal, apresento-me à vítima como um amigo de muitos anos
atrás. Afinal, ninguém se lembra de um, nos dias de hoje. Depois, de uma
forma veladíssima, deixo saber que entendo o mundo muito melhor que o
meu velho/a amigo/a. Isso, claro, demora algumas horas e algumas frases
já prontas para esse tipo de abordagem, como "você não é aquele/a
que...", ou "e essa chuva que não para", e coisas do tipo. Tudo na maior
civilidade.
Depois, entusiasmado com minha inteligência, meu amigo/a se vira para ir
embora. Eu o/a sigo e, no momento adequado, dou uma picaretada na cabeça
dele/a (desta vez, literalmente falando). Mais uma vítima , e minha fome
por cérebros vazios e mentes impressionáveis é saciada. A vida (dos
outros) então me faz bem.
Pois minha arte consiste essencialmente em usar as vítimas/expectadores
contra si próprias, sem que se detenham em seus próprios umbigos. E se
isso não funciona, alimento-me de seus cérebros. Moleza.
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Cena final de um filme contemporâneo
Um carro se aproxima, e um sujeito pálido e de rosto inexpressivo salta
em frente ao carro, que freia bruscamente. O motorista sai
apressadamente do carro e o sujeito pálido logo agarra sua cabeça.
Arranca com força um pedaço do couro cabeludo do motorista e lambe o
sangue da ferida.
LEO AGAPEJEV DE
ANDRADE formou-se em letras em 2000 e estudou com João Silvério
Trevisan no espaço cultural cpfl de Campinas-SP.
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