A bailarina e as cinzas

A professora balançava os braços longos, deslizando o giz colorido sobre o quadro negro.

E o buraco negro ia dissolvendo as cores.

Devagarinho.

A professora era magra e pálida, os cabelos escorridos, negros, bem aparados no meio das costas.

Podia ter sido bailarina, se naquele mundo existissem sapatilhas.

À família dela não agradava a idéia do magistério. Preferiam o matrimônio. Moça não devia gastar tempo com livros. Devia era arranjar bom casamento. A grossa aliança reluzia no dedo anelar direito, enquanto ela escrevia no quadro negro com a mão oposta.

À família do noivo não agradava a idéia do casamento. Moça tão magra! Havia mesmo de ser toda seca!

Como numa dança, as palavras suspensas iam pousando. Eram feitas de giz, e saiam de dentro dos dedos finos da professora.

Um dos meninos quis saber o que significava a palavra exótico. A professora olhou dentro dos seus olhos cinzentos. Por dez minutos seus braços longos ficaram calmos, e a boca... quase trêmula! falava da beleza estrábica de certas coisas.

Um silêncio.

Alguns risinhos.

O menino de olhos cinzas tinha sete anos.

Por quase um segundo, a bailarina ainda fitou seus olhos cinzentos.

Depois voltou ao quadro negro. O atrito era leve, suficiente apenas para soltar as palavras. Consumia o giz como a chama consome a vela. Não se detectariam sinais de futuras explosões, não fosse aquele leve tremor de lábios.

O menino cinza achava o sobrenome da professora uma palavra engraçada. Aos oito anos acharia gozado. Aos dez diria isso com alguma malícia. Um dia talvez percebesse que se trata de um sobrenome espanhol. Um dia talvez conhecesse os castelos da Espanha...

Já de costas pra turma, a professora disse que é uma coisa muito correta fazer perguntas, ainda mais se não sabemos o que querem dizer certas palavras.

O moleque cinzento e estrábico então desembestou. Exigia a cada palavra o tremor explicativo dos lábios.

A Bailarina extenuada:

- Agora chega! Você já perguntou demais por hoje!

A turma toda rindo.

Os olhos incrédulos do menino tentando achar saída pras tais coisas muito corretas...

Certas belezas estrábicas não conhecem o equilíbrio, mas com o tempo tudo se resolve, a beleza se perde, ou se transforma, numa beleza mais conformada.

Outra vez de costas pra turma, a professora tinha vontade de se virar e dizer a verdade... "Pois é meu querido, não é possível entender... Mas fique calmo, a dor não passa, mas talvez você aprenda a viver."

Não disse nada.

O quadro negro agora arranhava o giz com força, e o barulho... era tão desagradável! Irritava os ouvidos do menino cinzento que talvez um dia fosse morar num castelo espanhol.

O buraco negro comendo as cores.

As crianças copiando as palavras.

Veio um vento, e a chama da vela a consumiu por inteiro.

O toquinho de giz colorido, já não deslizava mais. As palavras iam se despedaçando no caminho.

Os braços longos não dançavam...

Num gesto mais vigoroso as unhas da professora rabiscaram o quadro negro. O som foi tão ríspido, que deixou surdo pra sempre o menino das cinzas.

Sentia dor sim, e tudo que seus olhos perguntavam era se a bailarina o amava.

Baixou o olhar de cinzas pro caderno.

O amor seria sempre incompreensível...

Olhou pro quadro ainda uma vez, mas já era tarde

A professora tinha mergulhado pra sempre no buraco negro.

A última palavra ainda flutuava. Era feita de cinzas.

CRISTINA MARIA DE MEDEIROS tem 23 anos e é natural de São Simão-GO, uma cidadezinha com 13 mil habitantes. Diz que veio pra BH estudar medicina... Gosta deveras da chuva, e deveras da palavra deveras. A coisa mais importante de sua vida é a Poesia. Atualmente edita, em parceria com seu comparsa Fábio Morato, o blog "A4 mãos".