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Os sonhos de José
José deu um salto e acordou assustado, suava por todos os poros. aos poucos, foi voltando ao seu estado normal. Sentou-se na beira da cama e ali ficou por um longo momento.
Ao fim de algum tempo, levantou-se e bebeu com sofreguidão um copo de água até ao fim, como se estivesse bebendo pela última vez. Acalmou-se e já recomposto regressou para a cama e dormiu.
No sonho dessa noite, a história foi a mesma de sempre: José fazia parte de um "gang" que, num negócio de droga, havia tentado enganar outro "gang". Depois de muita luta e de muitas baixas de ambos lados, êle era perseguido por cinco inimigos armados com facas de mato. Estes aproximavam-se cada vez mais, até que finalmente
José deparava com um obstáculo intransponível : um beco apertado e sem saída, que o impedia de continuar a sua fuga, ficando cara a cara com os seus perseguidores.
Agiam sempre da mesma forma em todos os sonhos, fechavam a saída juntando-se em meia-lua e começavam a avançar gritando palavras ameaçadoras. E uma frase sobressaía entre todas as outras, êles olhavam fixamente José e diziam "algum dia não voltarás, algum dia não voltarás!". Então apontavam as facas ao seu peito e quando se preparavam para os golpes fatais, José acordava aterrado e olhava com dúvidas para as paredes da sua pequena cela do hospital psiquiátrico. Com os nervos desfeitos. Geralmente pedia ao enfermeiro da noite um comprimido para dormir e com dificuldade conseguia voltar a conciliar o sono.
No outro sonho tudo era diferente, José estava atirando para dentro de uma velha mala os seus poucos pertences. Depois, quando os portões se abriam deixando o sol entrar de forma exuberante, um homem vestido com uma certa austeridade entregava-lhe as chaves de um belo carro e uma mala com dinheiro suficiente para que José não tivesse de se preocupar para o resto da vida.
Êle olhava sem compreender e quando por fim se decidia a dizer alguma coisa, o homem olhava-o nos olhos e dizia que "êles" estavam muito gratos com o seu contributo para o avanço da ciência e que por isso mesmo merecia tudo aquilo que lhe estava sendo dado.
Depois, assim como acontecia deixava de acontecer, e José acordava com uma grande tristeza, pensando que era uma injustiça que os sonhos não pudessem entrar na nossa realidade.
Com o passar do tempo, José foi ficando cada vez mais paranóico. Tinha períodos de vinte e quatro horas em que era um homem feliz, pois nessa noite iria sonhar com a liberdade e a riqueza, mas nos dias que antecediam o sonho da perseguição ficava quase fora de si, pois para piorar as coisas José tinha a impressão de que as facas chegavam cada vez mais perto.
Os dias passaram a ser um martírio, a pergunta vivia em todos os momentos do seu dia- a- dia, porquê estes sonhos, porquê, será que mais alguém tinha êsses obsessivos sonhos que se repetiam matematicamente, seria loucura ou um caso de esquizofrenia, estaria a perder o controle da sua mente por estar encarcerado? Sinceramente, não encontrava a solução por mais que pensasse.
Até que uma noite deitou-se assustado e angustiado com o sonho que iria ter, só esperava acordar o mais depressa possível, que o pesadelo passasse rapidamente era sempre o que êle pedia. Dormiu pensando que faltava só uma noite para ter o seu sonho preferido e adormeceu preparando-se para a sua interminável e repetida fuga.
Ali estavam êles, os cinco membros do "gang" inimigo aproximando-se como sempre o faziam em todos os sonhos. Na tentativa dos seus golpes fatais, chegaram mais perto de José como nunca antes o haviam feito e nesse último instante
José acordou.
Ainda sem abrir os olhos, sentiu fortes dores em várias partes do corpo e entre as suas mãos tinha um líquido viscoso, que deduziu ser o seu próprio sangue.
Aterrorizado, abriu finalmente os olhos e mais aterrorizado ficou quando viu que não estava na sua cela, mas sim no tal beco sem saída e no meio da gritaria que os seus adversários faziam ouviu nitidamente uma frase: "hoje não voltaras, hoje não voltarás!".
FERNANDO GIRÃO nasceu em
São Paulo, Brasil. Filho de Maria Girão, cantora da Bahía, e de Fernando
de Freitas, grande Mestre da guitarra portuguesa, director musical,
arranjador e primeiro compositor de Amália Rodrigues. Desde que iniciou
a sua carreira profissional, já trabalhou com alguns dos mais
importantes nomes internacionais da música, como John Beasley, Airto
Moreira, Alphonso Johnson, Alex Acuña, Harvey Mason, Abe Laboriel, John
Patittucci, Joey Heredia, Luís Conte, Ernie Watts, Ricardo Silveira,
Luís Avellar, Walfredo Reyes, Ephrain Toro, Tânia Maria, Fafá de Belém,
entre muitos outros. Em Portugal, com António Pinho Vargas, Dalú Roger,
Joel Xavier, José Nogueira, Lara Li, Miguel Braga, Rão Kyao e Vozes da
Rádio, entre muitos mais. Fernando Girão viveu em Angola, França,
Espanha, Inglaterra, Marrocos, Holanda e E.U.A., onde além das suas
performances também deu aulas de Improvisação Vocal no Musician
Institute de Los Angeles como professor convidado do mestre Ephrain
Toro. Actualmente, encontra-se a viver em Lisboa. Organizou e participou
em acções a favor de diversas instituições, como os projectos "Racismo
Não" e "Pirilampo Mágico". É membro da Sociedade Portuguesa de Autores
(SPA), da Sociedade da Língua Portuguesa, da Sociedad General de Autores
Españoles (SGAE) e de La Academia Latina de la Grabación (entidade que
atribui os Grammy's latinos). Em Novembro de 2003, lança o seu primeiro
livro (com Cd-rom incluído) Fernando Girão, uma antologia híbrida,
publicado por Marques Augusto Editor.
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