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Ratos
A ratoeira permanecia imóvel e intocada num canto de chão da cozinha.
Apenas o queijo não estava mais lá. Eu tinha escolhido e cortado
cuidadosamente o pedaço mais apropriado. Não podia ser grande nem
pequeno; nem muito fino, nem grosso. Dessa vez não ia dar errado, ele só
tinha que morder a isca. Mas não.
O retângulo de ferro continuava preso nas bordas laterais. Uma vez
disparado e seria mortífero. A imagem daquele intruso capturado,
agonizando entre as barras prateadas, inundava meus sonhos. Eu entrava
na cozinha a cada meia-hora, esperando por poças de sangue,
carnificinas, fragmentos embrionários espalhados pelo solo. Tudo que via
era minha própria derrota.
De alguma maneira o bicho escapava. Uma agilidade inata própria da
raça...Já era o quê, a quarta, quinta vez? Meu queijo estava quase no
fim. E o fedor da cozinha infestava as narinas.
Fui pro quarto da minha mãe.
- Não consegui matar ele - larguei.
Ela levantou as sobrancelhas e limitou-se a olhar daquele jeito
estranho, como sempre. Repeti:
- Não consegui: ele pegou o queijo e escapou. Ouviu?
Ela nem falou. O corpo atirado na cama não movia um só membro. Nessas
horas, eu nunca sei o que se passa naquela cabeça; o olhar fixa num
ponto e ela fica assim, absorvendo o vazio, mesmo que o mundo caia,
absorvendo o vazio. Bati a porta irritado e voltei pra cozinha.
Será que sou eu que estou fazendo errado? Observava a ratoeira tentando
pensar em cada palavra do dono da loja. Lembro que ele ficou surpreso
quando eu disse não saber armar aquele troço. "Você nunca pegou numa?" -
perguntou. "Não" - respondi, omitindo o fato que era também a primeira
vez, em sete dias, que saía de casa. Ele foi didático:
- Você pega assim, desse lado, pra não ter perigo... puxa o ferro pra cá
e pronto.
Em seguida veio o estrondo. "Viu? - acrescentou - Um segundo e você
acaba com o bicho." Ele mostrou mais uma vez e, quando cheguei em casa,
eu já tinha esquecido de tudo.
.....
Era de noite que mais se ouvia o barulho. Às vezes parecia um ruído na
madeira, talvez no armário; outras, vinha do fogão, porque soava
metálico. Foi ali que ele fixou residência(era quente e tinha comida por
perto). Comecei a desconfiar quando surgiram os primeiros barulhos;
depois, o cheiro esclareceu tudo.
O gato rondava o fogão, cheirava aqui e ali, mas nada além disso. Nessa
mesma manhã eu avisei minha mãe:
- Olha, tem um rato na cozinha, você não sentiu o cheiro?
- Não.
Mais alguns dias e ficou insuportável. Ao abrir a porta, o fedor
enrolava as tripas numa mistura de esgoto com aterro sanitário. E ela
repetia:
- Não.
Minha mãe penetrava a cozinha com naturalidade; punha algumas porcarias
da geladeira no prato, fervia o café e voltava para cama. Ficava lá o
dia todo, acumulando cigarros e xícaras quentes. Eu implorava:
- A gente precisa matar esse rato!
- Pode ser... - ela respondia, num tom vago e impreciso.
- O que a gente vai fazer? - eu perguntava.
- Não sei... - respondia, voltando os olhos para o vazio de sempre.
A semana passou. Era diferente ter um estranho entre eu e minha mãe. Com
o tempo, me ocorreu que ele podia ser nosso único visitante. Devia
sentir-se muito confortável naquele ambiente; os móveis apodrecidos, os
livros espalhados, a poeira dançando dia e noite no ar... Na cozinha, o
monte de pratos grudentos que minha mãe empilhava na pia. Havia comida à
vontade no chão.
À noite, eu abria a janela e me concentrava nos sons da rua. Não
estávamos numa zona agitada; pouco se ouvia batidas de carro ou essas
buzinas insuportáveis. Terças e quintas aparecia o caminhão de lixo;
reconhecia pelo ronco do motor e os gritos de orientação dos lixeiros.
Eu ficava imaginando a cena, com os homens uniformizados catando sacos
de plástico nojentos, porque tinha preguiça de chegar até a janela. E
sempre esquecia de botar o lixo.
Mas quando minha mãe se levantava e rondava pela sala, no princípio sem
direção e depois em círculos nervosos; quando aquele olhar encontrava o
meu, com esses olhos incompreensíveis que não querem fechar, com essa
cabeça alerta que não quer apagar, eu me dava conta. Não que eu fizesse
alguma coisa, porque não há nada a fazer. Eu pensava que o rato era meu
único contato com a vida lá fora.
.....
Aos poucos a gente vai se acostumando; não no bom sentido, o de aceitar,
mas no mal sentido, o de absorver. O queijo continua sumindo, a ratoeira
nunca dispara. Você tenta armá-la de tudo que é jeito, mas não adianta.
É uma co-habitação. Você aprende a distinguir os ruídos. Tranca a
respiração quando entra na cozinha. Nem pensa em pegar a vassoura porque
sabe que não adianta.
O rato acaba fazendo parte da sua vida. Eu gastava tardes imaginando o
bicho. Devia ser grande, ou talvez estivesse ficando; com tanto queijo,
já podia estar gordo. Acreditava vê-lo muito mais para o cinza de esgoto
do que o branco de laboratório. Na verdade, eu ainda não o havia visto.
Quando ele escapou aquela quinta vez, quando novamente afanou o queijo
sem disparar a armadilha, eu desmoronei. Houve ainda uma sexta vez. Foi
então que aconteceu.
.....
Primeiro eu invadi o quarto. Olhei minha mãe deitada e atirei-lhe a
ratoeira no colo. Ela disparou e quase prendeu naquela mão murxa. Minha
mãe interrompeu o transe. Então eu falei:
" Eu não agüento mais esse rato! Eu não agüento você! Será que só você
não sente esse cheiro? Como é que se arma essa porcaria? Por que você
não faz alguma coisa?!"
Eu não sei descrever aquele olhar. Só sei que não tem nada nele. Aquilo
dói e te atravessa o corpo inteiro.
Saí dali batendo todas as portas. Talvez tenha até destruído alguns
móveis. E praguejei, mais alto do que todos os sinos do mundo:
- Eu só queria ser alguém capaz de matar um rato! Por que que ela nunca
me ensinou isso!
Entrei na cozinha. Ele estava lá, no meio do caminho. Nós dois nos
encaramos com aquele ar atônito. Depois correu para trás da geladeira e
não saiu de lá a noite toda.
BOLÍVAR TORRES CORRÊA,
estudante de jornalismo, 22 anos. Nascido em Porto Alegre em 1981.
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