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Os "quês" de Vasco Branco
Tinha este artigo esboçado há meia dúzia de anos, mas não me resolvia a
escrevê-lo. O locus amoenus em que o esboçara era, curiosamente, um dos
próprios livros do escritor Vasco Branco.
Fortuitamente vieram parar-me às mãos duas obras alfarrábicas do autor,
o livro de contos "Telhados de Vidro", de 1953, e o romance "Gente ao
Acaso", de 1957.
Foi, de facto, o olhar do autor sobre si próprio, através do prefácio ao
seu livro de contos, que me levou a alinhavar também um olhar, mas
esboçado sobre os "quês" de Vasco Branco.
Porém pensei, haverá outros aveirenses mais contemporâneos do autor,
quiçá amigos e companheiros de vida, para escreverem sobre ele, eu que
não sou nem uma coisa nem outra, serei mais ou menos apto - velho dilema
do Álvaro de Campos sobre os malucos com certezas - para o fazer ?
No entanto, resolvi o que nem sequer chegou a dilema, depois da
entrevista que o escritor concedeu há semanas ao semanário "O Aveiro".
Elaborar um texto sobre dois livros tão datados e que exprimem um olhar
também datado, visto do século XXI, é passar da literatura para a
história, do naturalismo da época, poetizado, a la Raul Brandão, para a
ficcionalidade colhida nas estórias da vida das gentes da Ria, mas
também do interior vouguense numa extensão territorial que ia de Águeda
ao Porto, passando pelas estâncias de vilegiatura como Esmoriz.
Os contos de "Telhados de Vidro", repartem-se por todas essas gentes e
lugares, numa narrativa que cumpriu o destino de um certo neo-realismo
poético, em que se imaginam mundos, situações, personagens, com o
vocabulário do dia-a-dia, com os retratados a darem-nos a impressão de
que, embora passados cinquenta anos, eles aí estão. E esse estar é muito
físico e nada tem que ver com o estar em situação, filosófica e
existencialmente, como nos romances e contos de Sartre a Vergílio
Ferreira.
Penso, por outro lado, que o romance "Gente ao Acaso" tem uma maior
abrangência, maior cosmovisão, mesmo situando o locus narrativo numa
urbe como o Porto, mas uma "Invicta" datada dos anos 50. Mas,
parafraseando um poeta norte-americano, Gregory Corso, a mesma gente
anda por lá.
Os "quês" do escritor aveirense, esses, estão no tal prefácio tão antigo
quanto os livros que referi. E, finalmemnte, vou a eles. São os "quês"
da estrutura psicológica, das circunstâncias da vida, da própria
disposição do individuo, do meio social e cultural, uma simples estante
com muitos livros, que podem materializar o poeta, o contista, o pintor
"virtual" - no dizer de Vasco Branco. Isto é, esses "quês" podem ser o
meio que parte a casca do ovo para deixar sair, à luz do dia, o artista
para a elaboração do seu produto de cultura, seja a poesia ou seja um
quadro, seja um romance ou fio de contos.
Mas existem outros "quês", que saliento a terminar, como referenciais e
paradigmas de um autor, como VB, perfeitamente datado. Por exemplo,
James Joyce, o neo-realismo, Nietzche ou Dostoievski, que nunca aparecem
com os seus niilismo e ateísmo nas intrigas do nosso autor, porque este
´não é um "desconstrutivista" de almas. Até o "quê" do contista William
Saroyam, porque se neste paradigma do conto, ás vezes surrealista, quase
sempre naturalista, norte-americano, isto é, com o cheiro típico à
América dos anos 20-30, o "quê" primacial de Vasco Branco é, de facto,
sua prosa "saber a sal".
JOÃO TOMAZ PARREIRA nasceu em Lisboa,em 1947. Jornalista free-lancer da imprensa especializada nas áreas da Literatura, Artes Plásticas e Teologia. Poeta. Autor de 5 livros publicados entre 1973 e 1996. Participante em várias Antologias poéticas, a última das quais editada em 2003. Conferencista, tendo trabalhado nesta área com palestras sobre Vergílio Ferreira e José Saramago, em 2003 e 2004.
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