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O solar
Estou doente. Perguntam-me de que padeço. Eu próprio não o sei. Há anos
que os sintomas se revelaram. Um tédio de morte invade-me cada vez mais.
Deixei de confiar nos amigos. Para dizer a verdade, acho que nunca os
tive. Deixei de ter esperança nos meus semelhantes mortais. Desde que
aqui estou, neste solar do Século XVII, as únicas pessoas com quem
comunico são o camponês que me traz os víveres e a mulher que lava a
roupa e limpa a cozinha. Poderá chamar-se comunicação a uma troca
efémera de monossílabos?
Fechado neste quarto em que escrevo, empurro por baixo da porta um
envelope com uma lista de coisas de que necessito e o pagamento
respectivo.
O isolamento agrada-me.
O cheiro do suor humano enojava-me de tal forma que tive de deixar a
cidade com todo o seu burburinho, fumos, diálogos e agitação e
instalar-me nesta magnífica construção. Os homens que ergueram estas
paredes morreram há tempo suficiente para que a sua memória já não paire
nos arredores. Gosto de ver o camponês e a mulher afastarem-se e
desaparecerem no meio do arvoredo que circunda a propriedade.
Não sei se já vos disse que este solar data do Século XVII. Foi mandado
construir por um fidalgo de grandes posses e muito poderoso. Consta que
açoitava a mulher por esta não conseguir dar-lhe um herdeiro.
Suicidou-se nesta mesma divisão. Ao que dizem, trouxe pelo menos uma
dezena de ratazanas que manteve à míngua durante dias, fez vários golpes
com uma faca em todo o corpo e deixou-se devorar pelas bestas
esfomeadas. Os criados tiveram de matar os animais a tiro pois estes,
excitados pelo cheiro de sangue humano, atacavam enfurecidos.
Durante anos, o solar esteve deserto. Foi mais tarde utilizado como casa
de férias de um Nobre do Porto e sua família. Foi nessa altura que se
construiu o lago no jardim da frente. A família foi massacrada numa
noite quente de Verão por um grupo de camponeses descontentes com a
miséria em viviam contrastada com o luxo e todo o conforto da vida no
solar.
Transformaram então esta fantástica obra da arquitectura em local de
retiro de clérigos franciscanos. Deliciados com a obra Barroca que se
lhes oferecia em local tão esplendidamente calmo e "longe das tentações
carnais", aqui se refugiaram para orarem e estarem mais perto Daquele
que adoravam. Também para estarem mais perto das belas camponesas que
todas as noites subiam da aldeia para se confessarem. Num Inverno
rigoroso de meados do século passado foram dizimados por um vírus
desconhecido. Constou-se que... obra divina. Castigo superior...
Excessos saldados.
Deram com os corpos espalhados por todas as divisões. Todos com
expressões de horror e sofrimento. Foram a enterrar na capela, mesmo
aqui ao lado.
Como poderão imaginar, depois de tantas catástrofes e padecimentos que
nesta habitação se abateram, apenas um ser desprovido de qualquer
vontade como eu, seria capaz de abandonar uma vida que muitos
consideravam invejável e abandonar-se à solidão em local de tão macabro
passado. Na verdade, não sei por que o fiz. Julgo tratar-se de mais um
sintoma da doença de que há pouco vos falei. Para adquirir fundos que me
permitissem comprar o solar e as centenas de hectares que o rodeiam,
vi-me forçado a vender a empresa, as duas vivendas e quase todos os
carros. Tenho ainda o suficiente para levar a cabo as maiores
excentricidades que possam imaginar. Não que isso me importe muito. A
falta de dinheiro talvez se revelasse uma nova experiência, quiçá
agradável. Sinto-me pior. Não consigo ordenar bem os pensamentos. Não me
recordo exactamente do que me levou a optar por esta vida. Parece-me que
teve algo a ver com a minha doença, não diagnosticada por qualquer
especialista. Queriam fazer-me crer que o cansaço estava na base dos
meus males. Cansaço sim! Estava cansado! Cansado de tudo! Dos amigos
interesseiros, das noites de boémia, das manhãs de ressaca, dos produtos
impróprios para consumo, das mulheres, das suas vozes e também das dos
homens, do cão do vizinho que passava a noite a ladrar, das experiências
nucleares, das cotações da bolsa, dos campeonatos de futebol, das
eleições presidenciais, dos referendos, das leis do aborto e das
regionalizações. Estava cansado de tudo! Cansado de ser simpático,
cansado de ter de sorrir, cansado de acordar de manhã, cansado de falar
e ter de inalar o hálito horrendo das pessoas, cansado de trabalhar,
cansado de preparar as férias no Algarve, cansado... cansado... de
existir... chove lá fora.
Espreito uma vez mais pela janela do meu quarto. Está escuro. Não sei
que horas são. Perdi completamente a noção do tempo. Acho que me esqueci
de jantar. Parece-me que tenho fome. Não tenho bem a certeza. Há dias
que não tomo banho nem faço a barba. Ontem (acho que foi ontem) olhei-me
ao espelho. Estou com umas olheiras incríveis. Não durmo há várias
noites. Caio apenas numa letargia embriagante e entrego-me a pensamentos
assustadores. Revejo a minha vida na cidade, imagino o fidalgo a ser
devorado pelas ratazanas e quase consigo adivinhar o cheiro acre do
sangue azul desse Senhor. Ouço harpas e os risinhos das camponesas que
se vinham... confessar com os franciscanos. Vejo-me em criança e sinto a
família de Nobres do Porto, lá em baixo enquanto ceavam, serem
espancados pelos camponeses enraivecidos. Há momentos em que quase
desejava não estar sozinho. Mas, quando me recordo da mesquinhez dos
meus semelhantes, sinto náuseas e congratulo-me por ter conseguido
escapar-lhes. Não entendo por que não conseguem os homens simplesmente
existir, simplesmente ser. Todos são iguais. O que mais me repugna é o
facto de estarem sempre a lutar. A inveja é irmã da desgraça. Lutam por
inveja e a desgraça apodera-se das suas vidas sem sentido. Não conseguem
compreender que um homem (seu igual) possa possuir algo que eles não
possuem. A mediocridade revela-se em ganância e passam à agressão.
Não quero mais pensar neles e na insignificância que são em termos
cósmicos. Dão-se mesmo ao luxo de lutarem por um deus que nunca viram.
Sinto-me mais fraco. Esta fraqueza física só pode ser fruto da fraqueza
psicológica que de mim se apodera. Os pensamentos jorram-me às
catadupas. Já quase não consigo divisar a realidade. Julgo que já
amanheceu e voltou a anoitecer e ainda estou aqui. Não sei ao certo se
já passaram mais dias. Ontem (acho que foi ontem) consegui reunir um
pouco de vontade e fui à cozinha. Bebi um pouco de leite e mastiguei
umas peças de fruta. Vomitei. Deixei-me ficar na cozinha algumas horas.
Só até escutar vozes. Eram do camponês e da mulher. Já se passaram
quatro dias (vêm de quatro em quatro dias). Fugi escadas acima,
apavorado, e fechei-me outra vez no quarto. Esqueci-me de fazer outro
bilhete indicando os víveres de que necessito. O camponês bate-me à
porta. Grito-lhe que se vá embora. Da janela, vejo-os afastarem-se para
serem, de seguida, devorados pelas árvores de fruto e pelos plátanos
gigantes. O céu encontra-se cinzento escuro. Alguns pardais chilreiam
envergonhados na fonte do lago cheio de água da chuva. Parece-me que
estamos em Novembro apesar de não estar frio. De qualquer maneira,
acendo a lareira. Passo horas a olhar as labaredas.
Devem achar-me um frustrado com uma grande depressão e tendências
suicidas. Olham-me com pena, mas sorriem lá no fundo com a perversidade
que vos é inerente. Que cómicos que são! Tão previsíveis! Desprezo a
vossa falta de visão, essa incapacidade de se abstraírem de ideias
pré-concebidas. Lá porque o vosso vizinho que perdeu tudo no jogo se
fechou durante semanas a fio e depois deu um tiro na mioleira, não quer
dizer que eu faça o mesmo. Sim, os mais perseverantes de vocês estarão a
pensar que me suicido aos poucos, lentamente, porque não como. Pois
fiquem a saber que não como porque não tenho fome! Desprezo-vos a todos!
Sem excepção! Sei que me desprezam a mim, mas por inveja. Falta-vos a
coragem de assumirem as vossas repugnâncias e as vossas doenças. Não vos
escrevo mais.
JOSÉ REMELHE, nasceu no Porto, Portugal, a 30 de Maio de 1972.
Licenciado em Ciências da Tradução e Cultura Comparada pelo Instituto
Superior de Línguas e Administração, tem vindo a desenvolver a sua
actividade profissional na área da tradução literária e científica,
sendo de destacar a tradução do Booker Prize, Peter Carey, e do actual
Prémio Nobel da Literatura, J. M. Coetzee.
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