Instante

Olho para o seu rosto fixamente, como se não visse o habitual, mas o vazio que temo não estar ali. Percebo que há mais do que excitação; há uma admiração sincera ou qualquer coisa parecida com isso. Para mim, há um marido cuja única parte do corpo que reparo são as minúsculas gotas de suor é que me chamam a atenção. Quanto nojo precede o não. Não amo, não sinto, não quero. Não digo. E abro docilmente as pernas simulando que amo, que sinto e que quero tudo o que me é completamente indiferente. Um pequeno nojo e é tudo.

E com que ardil consigo não viver o que vivo. Não estou ali, sentindo aquele corpo e ouvindo aquelas palavras. Conto os segundos, com pressa, e esta é a única atividade que preenche o tédio deste momento. Anseio pelo finalmente. E que ele se desfaça em mil prazeres e os mil prazeres em mil pedaços que, enfim, desapareçam como venho esperando há tanto tempo. Não. Acaba o sexo, mas percebo que a irritante presença ainda existe. Mas fecho, aliviada, as pernas sempre dóceis e caminho da cama para o chuveiro, esperando pelo único líquido quente que me interessa. Não é por nojo ou pudor que me esfrego sistematicamente desta maneira. É para sentir algo entre as pernas. Qualquer sentimento superior em intensidade àquele pequeno desprezo.

- Sai desse banho logo e vem ver essa notícia!

Vou. É claro. Mas antes passo a mão pelo espelho para desfazer o vapor que distorce minha imagem. Ainda estou ali. Fascinante.

- O que é?

- Um cara que diz ter 150 anos. O idiota diz que descobriu uma maneira de ser eterno...

- Se eu fosse eterna, me mataria.

- Deixa de ser besta, mulher... Imortal não morre! E o pior é quem acredita nessas bobagens. Desliga a TV e vem dormir...

Desligo a TV, ainda que prefira dormir ouvindo a arrastada voz do apresentador. É melhor do que continuar ouvindo a outra voz. A que insiste em falar, desconsiderando minha enorme necessidade de silêncio. A que insiste em ser delicada e atenciosa, mesmo sem receber retorno.

Silêncio. Mas que bobagem é sofrer por solidão... Se esses chatos literários tivessem a minha vida não sofreriam por isso. Vou até a janela e acendo um cigarro. Afasto as mãos da boca acompanhando o trajeto daquele único ponto de luz que ilumina o quintal. Olho para as plantas secas e quase mortas enfeitando de amarelo os vasos que deveriam acolhê-las. Decido fazer o que for preciso para prover, ao menos, aquelas vidas vegetais. Decido terminar de ler o livro difícil logo que acabar o cigarro. Decido que insônia é mesmo um castigo por pensar demais. Decido fingir com mais ardor que gosto das crianças chorosas cujos pais sustentam meus vícios por livros, cigarro e pensamentos inúteis. Decido começar a transar com revolta e violência e não mais com tanta apatia.

O cigarro acaba e eu decido não decidir mais nada. Não posso pensar em arrependimento sem enrubescer diante do silêncio que conhece minhas neuroses e perversões. Mataria meu marido, alunos e amantes se o que sentisse por eles fosse um pouco mais que nojo. Não desistiria de todos os homens com quem traio aquele exemplar marido se o que eu sentisse por eles fosse desejo. Mas contenho estas médias violências para me manter na média classe média. Só dentro dela posso comprar livros, cigarros e tempo ocioso. E é o que me importa.

Fecho a janela e vou para a cama, esperando adormecer com a leitura. Desvio o olhar do livro chato e importante e observo os grandes pêlos pretos do peito do meu marido se moverem ritmicamente quando ele expira. Ao ver isto, me lembro da traição mais recente. Ele também tinha grandes pêlos pretos no peito. Outro nojo. Diferente, mas nojo. Sei que se abro as pernas para ele com um pouco menos de docilidade e um pouco mais de entusiasmo é por esperar os poucos minutos entre o gozo e o ronco. Algumas coisas inteligentes e divertidas são ditas e esta é a minha recompensa por ser o receptáculo de mais um frio pênis.

- Existem apenas 10 temas literários. O resto é conseqüência - disse, e sorveu um longo gole do uísque barato esperando que eu perguntasse quais eram eles.

- Morte, solidão, amor, poder, subjulgação, traição.

Eu não precisava perguntar, sabia disso, por isso apenas o observava enquanto ele contava um a um os assuntos que lhe pareciam importantes indicando com as mãos o número a que eles pertenciam.

- Faltam 4.

- Faltam, não me lembro... mas é verdade isso que eu tô te falando, me escuta: de Homero a Shakespeare, passando por romantismo, Idade Média, tudo, tudo tá aí na minha teoria...

- Ah, é? E a questão de clonagem humana? Falha sua teoria - ri, feliz em contrariá-lo.

- Morte. Ninguém quer morrer. O homem inventa o clone para se eternizar, para não perder quem gosta. Nisso já entra o amor. Tá vendo? Não tem erro.

- Pois eu resumo este seu resumo. A questão é apenas uma. - e olhei para ele desafiadora.

- Fala. - insistiu.

Seu olhar era interessado. Subitamente percebi o quanto eu gostava daqueles momentos que antecediam o sexo rápido. Sim, eu adorava a presença dele.

- A questão é apenas uma - eu disse - a vida não é como queremos. Não temos a beleza, a juventude, o dinheiro e o poder que queremos. Não somos amados, somos traídos, traímos, matamos, morremos. Sentimos dor e culpa...

- Culpa quando agimos e dor quando agem em nós - ele me interrompeu, sorrindo. Parecia concordar. Sim, ele também adorava minhas teorias.

- Isso. Não sei, talvez você esteja sendo muito simplista dizendo que tudo sempre foi igual. As coisas mudaram muito e, ora essa, nem eu nem você entendemos patavina de Homero e Shakespeare....

- Eu quis parecer inteligente... Impressionei, não? - ele sorriu, parecendo não dar a mínima pela vida de intelectual de botequim que levava. Tinha suas teorias, conquistava suas mulheres com elas e isso era tudo. Sim, eu gostava do sorriso dele.

- Não... que bobagem... - eu não gostava de ser intelectual de botequim. Era ambiciosa e me frustrava com o casamento e com as aulas que consumiam meu tempo e ânimo e negavam o futuro de sucesso que eu julguei que teria algum dia. Sim, eu admirava a coragem dele.

- Você acha que ser covarde é uma forma de ter coragem? - perguntei, para tentar esclarecer uma dúvida.

- Pensando classicamente ou modernamente? Porque Aquiles...

- Ah! Deixa de ser besta... Eu estou falando sério: fiquei pensando em como você tem coragem de não lutar para se destacar, em como aceita morrer anônimo, sem ter feito nada de importante... Acho isso corajoso, eu não consigo me conformar.

Ele ficou em silêncio, enquanto eu me arrependia do comentário. Talvez eu não devesse ter dito aquilo, talvez ele tivesse ficado magoado, talvez eu nunca mais o visse.

Talvez eu me importasse com isso.

- Você não acha que a questão então é como permanecer vivo mesmo depois de morto?

O sorriso, o olhar, as teorias, a conversa. Talvez eu me importasse.

- O que é isso agora?

- É... Pensa bem: todos se acham muito importantes, ninguém quer ser esquecido. Por isso existe amor, beleza, poder, tudo. Para que algo se eternize. Para que alguns poucos não desapareçam.

Talvez eu me importasse.

- Você pode até não ter medo de morrer - ele continuou - mas tem medo de não fazer nada de importante, quer viver nas pessoas, na história, no dinheiro, na beleza...

- Eu?

- Não, besta... não é você, você, é você todo mundo, num geral...

- Então todo mundo escreve, casa, vive, ama, trabalha, reza e estuda porque tem medo de morrer? - sorri, fingindo não concordar com o que ele dizia.

Pensei nos orgasmos adiados, nas aulas mal-datas, nas palavras mal-ditas, nos filhos não nascidos, nos livros não escritos. Sim. Era isso que eu temia: morrer e simplesmente, mediocremente, pateticamente deixar de existir. Deixar de existir sem nunca ter existido, sem nunca ter sentido algo mais do que tédio.

- Então feliz é o cara que disse ter 150 anos? - continuei, fingindo não ter pensado tudo o que de fato pensei.

- Não. Porque ele pode até ser imortal, mas ninguém mais vai lembrar dele... ser imortal não adianta bosta nenhuma. O que queremos e ser lembrados, amados, desejados e importantes. Ninguém vai lembrar desse cara... o que que ele fez? Nada. Viveu muito, isso é pouco e não enterniza ninguém.

- E o que que a gente fez?

- Nada.

- E você não tem medo disso?

- Não.

Ele não sabia porque por mais que eu insistisse em entender como ele se sentia. Mas percebi que de fato a sua coragem era imensa por assumir isso com medo e com covardia. Não continuamos mais este assunto. Surgiram outros e já nem me lembro mais quais foram.

Desisti de ler o livro difícil e comecei a me lembrar de cada detalhe do qual eu me lembrava. Virei-me, pudorosa, para não pensar no melhor amante enquanto olhava para o pior marido. Tentei não ouvir seu ressonar profundo e, sem culpa, tentei com isso fingir que aquele casamento não existia. Lembrei do outro olhar e da outra conversa e vi que, de fato, eu me importava e que queria que tudo aquilo continuasse. E senti, não me importa o que. Senti profundamente algo. E senti que este algo tinha relações profundas com as lembranças que me esforçava para fixar. Desisti de tentar não sentir, o que foi ótimo. E lembrei de outras tantas coisas que não estavam ali.

Porque eternos são os instantes.

THAIS TORRES é aluna da Oficina Literária de João Silvério Trevisan