 |
 |
Ligue se você precisar de mim
[CALL IF YOU NEED ME]
Tradução de Ricardo da Silva Sobreira
Nós dois havíamos nos envolvido com outras pessoas durante aquela
primavera, mas, quando junho chegou e as aulas terminaram, nós decidimos
deixar nossa casa durante o verão e nos mudar de Palo Alto para a costa
norte do interior da Califórnia. Nosso filho, Richard, foi para a casa
da mãe de Nancy em Pasco, Washington, para morar no verão e trabalhar
para economizar dinheiro para a faculdade no outono. A avó dele sabia da
situação em casa e tinha começado a se empenhar para levá-lo para lá e
encontrar um trabalho para ele bem antes de sua chegada. Ela havia
conversado com um fazendeiro amigo dela e tinha recebido uma proposta de
trabalho para Richard como empacotador de feno e construtor de cercas.
Trabalho árduo, porém, era o que Richard estava querendo. Ele partiu no
ônibus na manhã do dia após sua formatura no colégio. Eu o levei à
rodoviária, estacionei o carro e entrei para me sentar com ele até que
seu ônibus chegasse. Sua mãe já havia abraçado-o, chorado, dado um beijo
de adeus nele e entregado a ele uma longa carta que ele deveria dar à
sua avó quando lá chegasse. Ela estava em casa então, terminando os
últimos pacotes para nossa própria mudança e esperando pelo casal que
ficaria em nossa casa. Eu comprei a passagem de Richard, entreguei-a a
ele e nós nos sentamos num dos bancos da rodoviária e esperamos.
Havíamos conversado um pouco sobre muitas coisas a caminho do terminal.
- Você e a mamãe vão se divorciar? - ele havia perguntado. Era sábado de
manhã e não havia muitos carros.
- Não se pudermos evitar. - eu disse. - Nós não queremos isso. É por
isso que vamos nos mudar daqui e não queremos ver ninguém todo o verão.
É por esse motivo que nós alugamos nossa casa no verão e alugamos a casa
em Arcata. É por isso que você está indo embora também, eu acho. Uma das
razões, de qualquer maneira. Sem mencionar o fato de que você vai voltar
para casa com seus bolsos cheios de dinheiro. Queremos ficar a sós no
verão e tentar consertar as coisas.
- Você ainda ama a mamãe? - ele perguntou. - Ela me disse que ama você.
- Claro que amo. - eu respondi. - Você já deveria saber disso. Acabamos
de ter nossa quota de problemas e grandes responsabilidades, como todo
mundo, e agora necessitamos de tempo para ficarmos a sós e arranjar as
coisas. Mas não se preocupe conosco. Apenas vá para lá e tenha um ótimo
verão, trabalhe bastante e polpe seu dinheiro. Considere isso como umas
férias também. Pesque o máximo que puder. Há ótimas pescarias por lá.
- Esqui aquático também. - ele disse. - Quero aprender a esquiar na
água.
- Eu nunca esquiei. - eu disse. - Faça um pouco disso por mim também, tá?
Nós nos sentamos na rodoviária. Ele folheava seu livro de fotos do
colegial enquanto eu lia um jornal sobre meu colo. Então o ônibus dele
chegou e nós nos levantamos. Eu o abracei e disse novamente:
- Não se preocupe. Não se preocupe. Onde está a sua passagem?
Ele bateu levemente sobre o bolso do casaco e então pegou sua mala. Eu o
encaminhei até onde a fila estava se formando no terminal, então o
abracei de novo, beijei-o no rosto e disse adeus.
- Adeus, papai. - ele disse e virou as costas para mim para que eu não
visse suas lágrimas.
Voltei para casa, onde nossas caixas e malas aguardavam na sala de
estar. Nancy estava na cozinha tomando café com o jovem casal que ela
encontrara para ficar em nossa casa durante o verão. Eu havia encontrado
o casal, Jerry e Liz, estudantes da faculdade de Matemática, pela
primeira vez alguns dias antes, mas apertamos as mãos novamente e eu
tomei uma xícara de café que Nancy servira. Sentamo-nos ao redor da mesa
e tomamos café enquanto Nancy terminava sua lista de coisas as quais
eles deveriam cuidar ou fazer em certos dias do mês, o primeiro e o
último do mês, para onde eles deveriam enviam qualquer correspondência e
coisas do gênero. O rosto de Nancy estava tenso. O sol entrara pela
cortina e subia pela mesa à medida em que ia ficando mais tarde aquela
manhã.
Finalmente, as coisas pareciam estar em ordem e eu os deixei na cozinha
e comecei a pôs as coisas no carro. Era uma casa mobiliada para a qual
estávamos indo, mobilhada desde os pratos aos utensílios de cozinha,
portanto não precisaríamos levar muita coisa conosco desta casa, apenas
o essencial.
Eu havia dirigito até Eureka, 350 quilômetros ao norte de Palo Alto, na
costa norte da Califórnia, três semanas antes e alugado para nós uma
casa mobiliada. Eu fui com Susan, a mulher com quem eu estava tendo um
caso. Ficamos em um motel no fim da cidade por três noites enquanto eu
procurava casas no jornal e visitava corretores imobiliários. Ela me
observava enquanto eu preenchia um cheque pelos três meses de aluguel.
Mais tarde, de volta ao motel, na cama, ela se deitou com a mão sobre a
testa e disse:
- Eu invejo sua esposa. Eu invejo Nancy. A gente ouve falar sobre a
"outra mulher" sempre e como a esposa legítima tem privilégios e o poder
real, mas eu nunca realmente entendera ou me importara com essas coisas
antes. Agora vejo. Eu a invejo. Invejo a vida que ela terá com você
nesta casa durante este verão. Eu queria que fosse eu. Queria que
fôssemos nós. Oh, como queria que fôssemos nós. Sinto-me tão deprimida.
- ela disse. Eu acariciei seus cabelos.
Nancy era uma mulher alta, com cabelos e olhos castanhos e um espírito
generoso. Mas ultimamente nossa generosidade e vontade de viver estavam
acabando. O homem com quem ela estivera saindo era um de meus colegas,
um homem divorciado, elegante, um típico engravatado com cabelos
grisalhos, que bebia bastante e cujas mãos, alguns de meus alunos me
contaram, às vezes tremiam na sala de aula. Ele e Nancy deixaram-se
envolver numa relação em uma festa durante as férias pouco tempo depois
que Nancy havia descoberto meu próprio caso. Isso tudo soa maçante e
piegas agora - é maçante e piegas - porém durante aquela primavera foi
desta maneira e isso consumiu toda nossa energia e concentração em
detrimento de todas as outras coisas. Certa vez, em abril, nós começamos
a fazer planos de alugar nossa casa e viajar no verão, só nós dois, e
tentar juntar as coisas, se é que conseguiríamos nos recuperar. Nós
concordamos que não ligaríamos ou escreveríamos ou, até mesmo,
entraríamos em contato com outras pessoas. Então arranjamos a situação
de Richard, encontramos o casal para cuidar de nossa casa e eu havia
olhado no mapa e viajado para o norte de São Francisco e encontrado
Eureka, e um agente imobiliário que estava disposto a alugar uma casa
mobiliada ao respeitável casal de meia-idade durante o verão. Acho que
até mesmo usei a expressão "segunda lua-de-mel" para o corretor, Deus me
perdoe, enquanto Susan fumava um cigarro e lia brochuras para turistas
do lado de fora, no carro.
Eu terminei de acomodar as malas, sacolas e caixas de papelão no
porta-malas, sentei-me e esperei enquanto Nancy dizia um adeus final na
varanda. Ela apertou as mãos de cada um deles, virou-se e caminhou em
direção ao carro. Eu acenei para o casal e eles acenaram de volta. Nancy
entrou no carro e fechou a porta. "Vamos", ela disse. Eu pus o carro em
marcha e nós partimos pela rodovia. No semáforo, pouco antes da
auto-estrada, nós vimos um carro na nossa frente enguiçar na estrada,
arrantando um amortecedor quebrado, as faíscas voavam.
- Veja aquilo. - Nancy disse. - Ele pode pegar fogo.
Esperamos e observamos até que o carro conseguiu sair da pista e parar
no acostamento.
Nós paramos num pequeno café fora da estrada, próximo a Sebastopol.
"Coma e Abasteça", dizia a placa. Nós rimos dos dizeres. Eu estacionei
na frente do café e nós entramos e sentamo-nos à uma mesa próxima à
janela do fundo. Após termos pedido café e sanduíches, Nancy tocou a
mesa com seu dedo indicador e começou a traçar linhas na madeira. Acendi
um cigarro e olhei lá fora. Vi um rápido movimento e então percebi que
olhava para um beija-flor no arbusto ao lado da janela. As asinhas dele
moviam-se tão rápido que só se via um borrão de movimento e ele enfiava
seu bico em um botão de flor no arbusto.
- Nancy, veja. - eu falei. - Lá está um beija-flor.
Porém o pássaro voou no mesmo instante e Nancy olhou e perguntou:
- Onde? Não consigo vê-lo.
- Estava bem aqui há um minuto. - eu disse. - Olhe, lá está ele. Um
outro, eu acho. É um outro beija-flor.
Nós observamos o beija-flor até que a garçonete trouxe nosso pedido e o
pássaro voou num segundo e desapareceu ao redor do prédio.
- Neste momento, acho que isso é um ótimo sinal. - Beija-flores. Os
beija-flores devem trazer sorte.
- Já ouvi isso em algum lugar. - ela disse. - Não sei onde escutei isso,
mas eu escutei. Bem, sorte é o que precisamos, você não acha?
- Eles são um bom sinal. Estou feliz por estarmos aqui.
Ela balançou a cabeça afirmativamente. Esperou um minuto e então deu uma
mordida em seu sanduíche.
Chegamos a Eureka um pouco antes da noite cair. Passamos pelo motel na
rodovia onde Susan e eu havíamos ficado e passado três noites algumas
semanas antes, então saímos da pista e tomamos uma estrada sobre os
montes que davam vista para a cidade. Eu tinha as chaves da casa em meu
bolso. Percorremos a serra e alguns quilômetros até chegarmos a uma
pequena interseção onde havia uma oficina e uma mercearia. Haviam
montanhas e bosques diante de nós, no vale, e pastos por toda a parte. O
gado pastava em um campo atrás da oficina.
- Isso é tipicamente rural. - Nancy falou. - Estou ansiosa para ver a
casa.
- Estamos quase lá. - disse eu. - Fica bem ali, descendo esta estrada e
subindo aquela ladeira. Aqui. - disse eu e então fui com o carro por uma
longa entrada com cerca viva em cada um dos lados. - Aqui está. O que
você acha? - Eu havia feito a mesma pergunta à Susan quando ela e eu
paramos na entrada.
- É bonito. - Nancy disse. - Parece ótimo, parece mesmo. Vamos lá.
Paramos por um minuto no jardim e olhamos ao redor. Então subimos os
degraus da varanda e eu destranquei a porta da frente e acendi as luzes.
Entramos na casa. Haviam dois pequenos dormitórios, um banheiro, uma
sala de estar com mobília antiga e uma lareira, e uma ampla cozinha com
vista para o vale.
- Você gostou? - perguntei.
- Acho simplesmente maravilhosa. - Nancy disse, sorrindo. - Fico feliz
que a tenha achado. Fico feliz por estar aqui. - Ela abriu a geladeira e
passou o dedo sobre o aparador. - Graças a Deus parece limpa o
suficiente. Não vou ter que fazer nenhuma faxina.
- Com lençóis limpos nas camas. - eu falei. - Eu chequei e
certifiquei-me. É assim que estão alugando-a. Até os travesseiros e as
fronhas também.
- Teremos que comprar um pouco de lenha. - ela disse. Estávamos na sala
de estar. - Vamos querer ter fogo em noites como esta.
- Vou procurar lenha amanhã. Daí podemos sair para fazer compras também
e ver a cidade.
Ela olhou para mim e disse:
- Estou feliz por estarmos aqui.
- Eu também. - eu disse. Abri meus braços e ela veio em minha direção.
Eu a abracei. Eu podia senti-la tremer. Virei seu rosto para cima e
beijei-lhe as bochechas. - Nancy, estou feliz por estarmos aqui.
Passamos os dias seguintes nos ambientando, indo até Eureka para andar
por aí e olhar as vitrines, explorando as pastagens atrás da casa até o
bosque. Compramos alguns alimentos e eu encontrei um anúncio no jornal a
respeito de lenha, liguei e, um dia ou dois depois, dois rapazes
cabeludos descarregaram uma caminhonete carregada de madeira de amieiro
e guardaram-na na garagem. Aquela noite nos sentamos diante da lareira
após o jantar, tomamos café e conversamos a respeito da compra de um
cachorro.
- Eu não quero um filhote. - Nancy disse. - Um "troço" que vai fazer
sujeira e mastigar as coisas. Nós não precisamos disso. Porém, eu
gostaria de ter um cachorro sim. Há muito tempo não temos um cachorro.
Acho que conseguiríamos manter um cão aqui.
- E depois que voltarmos, quando o verão acabar? - Eu disse e reformulei
a pergunta. - Que tal termos um cachorro na cidade?
- Vamos ver. Enquanto isso, vamos procurar um cachorro. O tipo certo de
cão. Eu não sei o que quero até vê-lo. Vamos ler os classificados e ir
até o canil municipal, se precisar.
Mas ainda que falássemos a respeito de cães por muitos dias,
mostrássemos um ao outro cães nos quintais das pessoas pelos quais
passávamos, conversássemos sobre os cães que gostaríamos de ter, nada
saiu disso, nós não compramos um cachorro.
Nancy ligou para sua mãe e deu a ela nosso endereço e o número do
telefone. Richard estava trabalhando e parecia feliz, sua mãe dissera.
Ela própria estava ótima. Ouvi Nancy dizer:
- Estamos bem. Isso aqui é um excelente remédio.
Certo dia, em meados de julho, estávamos viajando pela auto-estrada
próxima ao oceano e, ao subirmos uma ladeira, avistamos algumas lagoas
que haviam se separado do oceano por causa dos bancos de areia. Havia
algumas pessoas pescando na praia e dois botes sobre a água.
Entrei com o carro no acostamento e parei.
- Vamos ver o que eles estão pescando. - disse eu. - Talvez pudéssemos
comprar uns equipamentos e pescar nós mesmos.
- Há anos que não pescamos. - Nancy falou. - Não pescamos desde aquela
vez quando Richard era pequeno e fomos acampar perto do Monte Shasta.
Você se lembra daquilo?
- Eu me lembro. Também acabo de me lembrar como sinto falta de pescar.
Vamos descer e ver o que eles estão pescando.
- Trutas. - disse o homem, quando perguntei. - Trutas pintadas e até um
pouco de salmão. Eles vêm aqui no inverno quando o banco de areia se
abre e quando ele se fecha na primavera, eles ficam presos. Esta é uma
ótima época do ano para eles. Não peguei nenhum hoje, mas, domingo
passado, peguei quatro, com cerca de quarenta centímetros. São os
melhores peixes do mundo, e eles proporcionam uma boa briga. Os caras lá
nos botes pegaram alguns hoje, mas, até agora, não peguei nada.
- O que você usa como isca? - Nancy perguntou.
- Nada demais. - o homem respondeu. - Minhocas, ova de salmão, grão de
milho inteiro. Apenas jogo lá e deixo ir para o fundo. Solto um pouco de
linha e presto atenção nela.
Nós demoramos um pouco mais e assistimos ao homem pescar e vimos os
botes chapinhando de um lado para o outro da lagoa.
- Obrigado. - disse eu ao homem. - Boa sorte para você.
- Boa sorte para vocês. - ele respondeu. - Boa sorte para vocês dois.
Paramos numa loja de objetos esportivos na volta para cidade e obtivemos
as licenças, compramos varas de pesca e molinetes baratos, linhas de
nylon, anzóis, líderes, chumbos e um cesto. Fizemos planos de ir pescar
na manhã seguinte. Mas, aquela noite, após termos jantado e lavado a
louça e eu aceso o fogo da lareira, Nancy balançou a cabeça e disse que
aquilo não daria certo.
- Por que você diz isso? - eu indaguei. - O que você está querendo
dizer?
- Quero dizer que não vai funcionar. Vamos encarar isso. - ela balançou
a cabeça novamente. - Acho que não quero ir pescar de manhã nem quero um
cachorro. Não, nada de cachorros. Acho que quero decolar e ir ver minha
mãe e o Richard. Sozinha. Quero ficar sozinha. Sinto falta de Richard. -
ela disse e começou a chorar. - O Richard é meu filho, meu bebê e ele já
está crescendo e indo embora. Sinto saudades dele.
- E o Del? Você sente saudades do Del Shraeder também? - Eu vociferei. -
O seu amante. Você sente falta dele?
- Sinto falta de todo mundo esta noite. - ela disse. - Sinto saudades de
você também. Há tempos que sinto saudades de você. Sinto tanto a sua
falta. Você se perdeu de alguma forma. Não consigo explicar. Eu perdi
você. Você não é mais meu.
- Nancy... - eu disse.
- Não, não. - ela falou. Balançou a cabeça, sentou-se no sofá em frente
ao fogo e ficou sacudindo a cabeça - Quero pegar um vôo e ir ver minha
mãe e o Richard amanhã. Depois que tiver saído, você pode ligar para a
sua amante.
- Eu não vou fazer isso. Eu não tenho a intenção de fazer isso.
- Você vai ligar para ela.
- Você é que vai telefonar para o Del. - eu disse e senti-me um lixo por
dizer isso.
- Você pode fazer o que quiser. - ela disse, enxugando os olhos na manga
da blusa. - Falo sério. Não quero parecer histérica. Porém, estou indo
para Washington amanhã. Agora mesmo estou indo para a cama. Estou
exausta. Sinto muito. Sinto muito por nós dois, Dan. Não vamos
conseguir. Aquele pescador hoje. Ele nos desejou boa sorte. Eu desejo
boa sorte para nós também. Vamos precisar.
Ela entrou no banheiro e eu ouvi a água enchendo a banheira. Eu saí,
sentei-me nos degraus da varanda e fumei um cigarro. Estava escuro e
silencioso lá fora. Olhei em direção à cidade e pude ver o brilho
doentio das luzes no céu e vestígios da bruma oceânica vagando sobre o
vale. Comecei a pensar em Susan. Um pouco mais tarde, Nancy saiu do
banheiro e eu ouvi a porta do quarto se fechar. Eu entrei e coloquei
outro bloco de lenha na lareira e esperei até que as chamas começassem a
consumir a casca da madeira. Então fui ao outro quarto, levantei as
cobertas e olhei a estampa floral dos lençóis. Em seguida, tomei uma
ducha, vesti meu pijama e fui me sentar perto da lareira novamente. Dava
para ver a neblina na janela agora. Sentei-me diante do fogo e fumei.
Quando olhei pela janela novamente, alguma coisa movia-se na neblina e
eu avistei um cavalo pastando no jardim.
Caminhei até a janela. O cavalo olhou para mim por um minuto e continuou
a arrancar a grama. Outro cavalo passou por trás do carro, entrou no
jardim e começou a pastar. Acendi a luz da varanda e fiquei na janela
olhando para eles. Ele eram enormes cavalos brancos de crinas compridas.
Haviam passado a cerca através de um portão destrancado de uma das
fazendas próximas. De alguma maneira eles acabaram indo parar no nosso
jardim. Eles estavam se divertindo, aproveitando sua escapadela
imensamente. Mas estavam agitados também; eu pude ver os olhos deles de
onde eu estava, na janela. Suas orelhas ficavam levantando e caindo
enquanto arrancavam chumaços de grama. Um terceiro cavalo penetrou no
jardim, e, em seguida, um quarto. Era uma manada de cavalos brancos e
eles estavam pastando em nosso gramado.
Entrei no quarto e acordei Nancy. Os olhos dela estavam vermelhos e suas
olheiras estavam inchadas. Ela tinha os cabelos enrolados nos bobes e
havia uma mala aberta no chão, próxima ao pé da cama.
- Nancy. - eu chamei. - Querida, venha ver o que está acontecendo no
nosso gramado. Venha ver isso. Você deve ver isso. Você não vai
acreditar. Depressa.
- O quê? - ela disse. - Não me machuque. O quê é?
- Querida, você precisa ver isso. Não vou ferir você. Sinto muito se eu
a assustei. Mas você precisa vir aqui e ver uma coisa.
Eu voltei para o outro quarto e fiquei na frente da janela e em alguns
minutos Nancy entrou amarrando seu robe. Ela olhou para fora da janela e
disse:
- Meu Deus! Eles são lindos! De onde eles saíram? Eles são simplesmente
lindos!
- Eles devem ter escapado de algum lugar aqui por perto. Uma dessas
fazendas. Eu vou telefonar para o departamento do xerife agora mesmo e
deixar que eles localizem os proprietários. Mas eu queria que você visse
isso primeiro.
- Será que eles mordem? - ela perguntou. - Eu gostaria de fazer carinho
naquele um lá, aquele que acabou de nos olhar. Eu queria acariciar a
crina daquele. Mas não quero levar uma mordida. Estou indo lá fora.
- Acho que eles não vão morder. - disse eu. - Eles não parecem o tipo de
cavalos que mordem. Mas vista um casaco se você vai sair lá fora. Está
frio.
Eu vesti o casaco sobre meu pijama e esperei por Nancy. Então abri a
porta da frente, nós caminhamos pelo jardim e fomos até onde estavam os
cavalos. Todos eles olhavam para nós. Dois deles continuaram a comer a
grama. Um dos cavalos bufou e recuou alguns passos e, em seguida, esse
também continuou a arrancar a grama e a mastigar com a cabeça baixa.
Esfreguei a cabeça de um cavalo e acariciei sua paleta. Ele continuava a
mastigar. Nancy estendeu sua mão e começou a acariciar a crina do outro
cavalo.
- Cavalinho, de onde você veio? - ela disse. - Onde você mora e por que
você saiu esta noite? - ela disse e continuou acariciando a crina do
cavalo. O cavalo olhou para ela, resfolegou e abaixou a cabeça
novamente. Ela bateu em sua paleta.
- Acho que é melhor eu chamar o xerife. - disse eu.
- Ainda não. - disse ela. - Espere um pouquinho. Jamais veremos nada
assim outra vez. Não teremos cavalos em nosso gramado nunca, nunca mais.
Espere só mais um pouquinho, Dan.
Um pouco mais tarde, Nancy ainda estava lá fora, indo de um cavalo até
outro, batendo em suas paletas e acariciando suas crinas, quando um dos
cavalos saiu andando pelo gramado, entrou na garagem, girou ao redor do
carro e foi em direção à estrada, e eu soube que tinha que telefonar.
Em pouco tempo as viaturas do xerife apareceram com suas luzes vermelhas
piscando na neblina e, alguns minutos depois, um cara vestindo um casaco
de pele de ovelha dirigindo uma caminhonete com um trailer para cavalos
engatado. Os cavalos ficaram espantados então, tentaram escapar e o
homem com o trailer para cavalos xingava e tentava laçar um dos cavalos.
- Não o machuque - Nancy pediu. Voltamos para dentro de casa e, da
janela, assistimos aos oficiais e ao fazendeiro trabalharem na captura
dos cavalos.
- Vou preparar um pouco de café. - disse eu. - Você quer um pouco de
café, Nancy?
- Vou dizer o que eu quero. - disse ela. - Sinto-me inebriada, Dan.
Sinto-me como se estivesse bêbada. Sinto-me, sei lá, sinto-me da maneira
como estou me sentindo. Você prepara o café e eu vou procurar para nós
uma música no rádio e então você pode acender o fogo outra vez. Estou
exultante demais para dormir.
Então nos sentamos na frente do fogo, tomamos café e ouvimos a uma rádio
de Eureka, dessas que tocam música a noite inteira, e conversamos sobre
os cavalos, sobre Richard e sobre a mãe de Nancy. Dançamos. Não falamos
absolutamente nada a respeito da nossa situação. A neblina movia-se do
lado de fora da janela e nós conversávamos e éramos gentis um com o
outro. De madrugada, eu desliguei o rádio, nós fomos para a cama e
fizemos amor.
Na tarde seguinte, após ela ter arrumado todas as coisas e feito suas
malas, eu a levei ao pequeno aeroporto onde ela pegaria um vôo para
Portland e então transferiria para uma outra linha aérea que a levaria a
Pasco tarde da noite.
- Dê lembranças à sua mãe. Dê um abraço em Richard por mim e diga a ele
que estou com saudade. - disse eu. - Diga a ele que o amo.
- Ele o ama também. - ela disse. - Você sabe disso. De qualquer forma,
você o verá no outono, tenho certeza.
Balancei a cabeça afirmativamente.
- Adeus. - ela disse e abraçou-me. Abraçamo-nos. - Estou feliz por ontem
à noite. Aqueles cavalos. Nossa conversa. Tudo. Isso ajuda. Não vamos
esquecer daquilo. - disse ela e começou a chorar.
- Escreva para mim, tá? - disse eu. - Eu nunca pensei que isso
aconteceria conosco. Todos esses anos. Nunca pensei assim por um minuto
sequer. Não conosco.
- Vou escrever. - ela disse. - Umas cartas enormes. As maiores que você
já viu desde quando eu costumava mandar cartas para você no colegial.
- Vou esperar por elas. - disse eu. Então ela olhou para mim novamente e
tocou meu rosto. Ela se virou e caminhou pela pista de embarque rumo ao
avião.
Vá, querida, e que Deus a acompanhe.
Ela entrou a bordo do avião e eu fiquei por perto até que as turbinas do
jato começaram a funcionar e, em um minuto, o avião começou a percorrer
a pista. Ele decolou sobre Humboldt Bay e logo se tornou só um pontinho
no horizonte.
Dirigi de volta para casa, estacionei o carro na entrada e observei as
pegadas deixadas pelos cavalos a noite passada. Havia impressões
profundas sobre a grama, falhas e também montes de estrume. Então entrei
na casa e, sem nem mesmo tirar meu casaco, peguei o telefone e disquei o
número de Susan.
RAYMOND CARVER nasceu em Clatskanie, Oregon, em 1938, e apesar de
ter vivido uma vida turbulenta, marcada por um grave problema com o
alcoolismo, produziu vários contos que foram reunidos em coletâneas como
What We Talk About When We Talk About Love (1981) e Cathedral (1983),
indicado para o prêmio Pulitzer, além de poemas e ensaios. Em 1988, ano
de sua morte, Carver foi eleito para a Academia Americana de Artes e
Letras. Em 1993, alguns de seus contos e poemas inspiraram o diretor de
cinema Robert Altman a rodar o premiado filme Short Cuts - Cenas da
Vida.
|