O que falamos quando falamos de amor
[WHAT WE TALK ABOUT WHEN WE TALK ABOUT LOVE]

Tradução de Ricardo da Silva Sobreira

Meu amigo Mel McGinnis estava falando. Mel McGinnis é um cardiologista e isso às vezes lhe dá o direito.

Nós quatro estávamos sentados ao redor da mesa da cozinha da casa dele, bebendo gim. A luz do sol atravessava a grande janela atrás da pia e inundava a cozinha. Lá estávamos Mel e eu e a segunda esposa dele, Teresa - Terri, como a chamávamos - e minha mulher, Laura. Morávamos em Albuquerque então. Mas éramos todos de algum outro lugar.

Havia um balde de gelo sobre a mesa. O gim e a água tônica iam passando, e nós, de alguma maneira, entramos no assunto de amor. Mel achava que o amor verdadeiro era nada mais do que o amor espiritual. Ele disse que passara cinco anos em um seminário antes de abandoná-lo para cursar a faculdade de Medicina. Disse que ele ainda se recordava daqueles anos no seminário como os mais importantes de sua vida.

Terri disse que o homem com quem ela vivera antes de ir morar com Mel amava-a tanto que tentara matá-la. Então Terri disse:

- Ele me bateu uma noite. Me arrastou ao longo da sala de estar pelos tornozelos. Ele ficava dizendo, eu te amo, eu te amo, sua puta. E continuou me arrastando pela sala de estar. Minha cabeça ia batendo nas coisas. - Terri olhou ao redor. - O que se pode fazer com um amor assim?

Ela era uma mulher esbelta, tinha um belo rosto, olhos escuros e cabelos castanhos que escorriam até a altura de suas costas. Ela gostava de colares feitos de turquesa e de longos brincos pendulares.

- Meu Deus, não seja tola. Isso não é amor, e você sabe disso. - disse Mel. - Eu não sei como você chamaria isso, mas eu tenho certeza de que não chamaria de amor.

- Diga o que você quiser, mas eu sei que era amor. - disse Terri. - Pode parecer loucura para você, mas é a mesma coisa. As pessoas são diferentes, Mel. Claro, às vezes ele podia ter agido como louco. Tudo bem. Mas ele me amava. Do jeito dele talvez, mas ele me amava. Havia amor lá, Mel. Não diga que não havia.

Mel suspirou. Ele segurou seu copo e virou-se para Laura e eu.

- O cara ameaçou me matar. - Mel disse. Terminou seu drink e pegou a garrafa de gim. - Terri é uma romântica. Terri estudou na escola do chute-me-para-eu-saber-que-você-me-ama. Terri, querida, não me olhe assim. - Mel inclinou-se sobre a mesa e tocou o rosto de Terri com seus dedos. Ele sorriu para ela.

- Agora ele quer fazer as pazes. - Terri falou.

- Fazer as pazes por causa de quê? O que há para se desculpar? Eu sei o que sei. Só isso.

- Como fomos entrar nesse assunto, de qualquer forma? - Terri disse. Ela levantou seu copo e bebeu dele. - Mel sempre tem o amor em sua cabeça. Não tem, querido? - Ela sorriu e eu pensei que aquele foi o último.

- Eu simplesmente não chamaria o comportamento de Ed de amor. É só isso que estou dizendo, querida. - Mel falou. - E quanto a vocês? - Mel falou para Laura e eu. - Isso parece amor para vocês?

- Sou a pessoa errada para responder. - disse eu. - Eu nem mesmo conheço o cara. Só ouvi o nome dele sendo mencionado de passagem. Eu não saberia dizer. Você tem que conhecer os detalhes. Mas eu acho que o que vocês estão dizendo é que o amor é absoluto.

Mel disse, "O tipo de amor do qual estou falando é. O tipo de amor do qual estou falando, você não tenta matar pessoas".

Laura disse, "Eu não sei nada a respeito do Ed, ou qualquer coisa a respeito da situação. Mas quem pode julgar a situação de qualquer outra pessoa?"

Eu toquei as costas das mãos de Laura. Ela me deu um sorriso ligeiro. Eu segurei a mão da Laura. Estava quente, as unhas lixadas, perfeitamente cuidadas. Eu envolvi seu pulso com meus dedos e a abracei.

- Quando eu fui embora, ele bebeu veneno de rato. - Terri contou. Ela envolvia seus braços com as mãos. - Levaram-no para o hospital de Santa Fe. Era lá que morávamos então, cerca de dezesseis quilômetros de distância. Eles salvaram a vida dele. Mas as gengivas dele estragaram por causa disso. Quer dizer, elas se soltaram dos dentes. Depois disso, seus dentes ficaram iguais a dentes de cachorro. Meu Deus. - Terri disse. Ele esperou um minuto, então soltou os braços e pegou seu copo.

- Do que as pessoas são capazes! - disse Laura.

- Ele está fora de ação agora. - disse Mel. - Ele está morto.

Mel me passou a travessa de limões. Peguei um gomo, espremi-o sobre minha bebida e mexi os cubos de gelo com o dedo.

- Ficou pior. - Terri disse. - Ele deu um tiro na própria boca. Porém ele falhou nisso também. Pobre Ed. - disse ela. Terri sacudiu a cabeça.

- Que pobre Ed que nada. - Mel disse. Ele era perigoso.

Mel tinha quarenta e cinco anos de idade. Era alto e robusto, tinha cabelos macios e encaracolados. Seu rosto e seus braços eram bronzeados por causa do tênis que ele jogava. Quando ele estava sóbrio, seus gestos, todos os seus movimentos eram precisos, muito cuidadosos.

- Ele me amava apesar disso, Mel. Você há de concordar comigo. - Terri disse. - É tudo o que eu peço. Ele não me amava da maneira como você me ama. Não estou dizendo isso. Mas ele me amava. Você tem que concordar comigo, não tem?

- O que você quis dizer com "ele falhou nisso" - eu perguntei.

Laura inclinou-se com seu copo. Pôs seus cotovelos sobre a mesa e segurou o copo com as duas mãos. Ela olhou para Mel e Terri e esperou com um ar de incompreensão em seu rosto, como se estivesse admirada de que tais coisas pudessem acontecer com pessoas com quem se tem amizade.

- Como ele falharia ao se matar? - perguntei.

- Vou contar o que aconteceu. - disse Mel. - Ele pegou o revólver vinte e dois que comprara para ameaçar Terri e eu. Oh, falo sério, o cara estava sempre ameaçando. Vocês deveriam ter visto como nós vivíamos naqueles dias. Como fugitivos. Eu mesmo cheguei a comprar uma arma. Dá para acreditar nisso? Um cara como eu? Mas eu comprei. Eu comprei uma arma para autodefesa e carregava-a no coldre. Às vezes tinha que sair do apartamento no meio da noite. Para ir ao hospital, sabe? Terri e eu não éramos casados então, e minha primeira esposa ficara com a casa e as crianças, o cachorro, tudo, e Terri e eu estávamos morando neste apartamento aqui. Às vezes, como eu disse, recebia um telefonema no meio da noite e tinha que ir ao hospital às duas ou três da manhã. Aquela escuridão lá no estacionamento e eu suava frio até para chegar perto do meu carro. Eu nunca sabia se ele ia se levantar dos arbustos ou de trás do carro e começar a atirar. Quero dizer, o cara era louco. Ele era capaz de detonar uma bomba, qualquer coisa
. Ele costumava ligar para o meu serviço a toda hora e dizer que precisava falar com o médico, e quando eu pegava a ligação, ele dizia, "Filho da mãe, seus dias estão contados". Coisas assim. Era assustador, estou dizendo.

- Ainda sinto muito por causa dele. - Terri disse.

- Parece um pesadelo. - disse Laura. - Mas o que exatamente aconteceu depois que ele atirou em si mesmo?

Laura é uma secretaria executiva. Nós havíamos nos conhecido num curso de capacitação profissional. Antes que percebêssemos, já era uma paquera. Ela tem trinta e cinco, três anos mais nova do que eu. Além de estarmos apaixonados, gostamos da companhia um do outro. Ela é uma pessoa agradável para se ficar.

- O que aconteceu? - Laura perguntou.

Mel disse, "Ele deu um tiro na própria boca em sua sala. Alguém ouviu o disparo e comunicou o gerente. Eles vieram com uma chave-padrão, viram o que havia acontecido e chamaram uma ambulância. Aconteceu de eu estar lá quando o trouxeram, vivo, mas inconsciente. Sua cabeça inchou até ficar duas vezes maior que uma cabeça normal. Eu nunca tinha visto nada como aquilo, e espero que eu jamais veja novamente. Terri queria ir lá e ficar com ele quando ela soube daquilo. Nós brigamos por causa disso. Eu achava que ela não deveria vê-lo daquele jeito. Eu achava que ela não deveria vê-lo, e continuo achando que não.

- Quem ganhou a briga? - Laura perguntou.

- Eu estava no quarto com ele quando ele morreu. - Terri disse. - Ele jamais saiu daquela. Mas eu me sentei lá com ele. Ele não tinha mais ninguém.

- Ele era perigoso. - Mel disse. - Se você chama aquilo de amor, pode ficar com ele.

- Era amor. - Terri falou. - Claro, é anormal aos olhos da maioria das pessoas. Mas ele estava disposto a morrer por amor. Ele realmente morreu por amor.

- Com certeza eu não chamaria isso de amor. - Mel disse. - Falo sério, ninguém sabe por que ele fez aquilo. Tenho visto muitos suicídios e eu não posso dizer que alguém saiba por que fazem isso.

Mel pôs as mãos atrás do pescoço e inclinou sua cadeira para trás. "Não estou interessado nesse tipo de amor", disse ele, "Se isso é amor, você pode ficar com ele".

Terri disse, "Nós estávamos com medo. Mel até fez um testamento e escreveu para seu irmão na Califórnia que era um Boina Verde. Mel disse quem ele deveria procurar caso alguma coisa acontecesse a ele".

Terri bebeu de seu copo. Ela disse, "Porém Mel está certo - vivíamos como fugitivos. Estávamos assustados. Mel estava, não estava, querido? Eu até liguei para polícia em certo ponto, mas eles não ajudaram. Disseram que não podiam fazer nada até que Ed efetivamente fizesse algo. Isso não é engraçado?" Terri disse.

Ela despejou o resto do gim em seu copo e balançou a garrafa. Mel levantou-se da mesa e foi até o armário. Apanhou uma outra garrafa.

- Bem, Nick e eu sabemos o que é o amor - Laura disse. - Para nós, quero dizer - Laura disse. Ela esbarrou no meu joelho com seu joelho. - Você tem que falar alguma coisa agora - Laura disse e sorriu para mim.

Como resposta, segurei a mão de Laura e ergui-a até meus lábios. Eu fiz uma grande produção do ato de beijar-lhe a mão. Todos acharam engraçado.

- Temos sorte - disse eu.

- Vocês dois - Terri disse. - Parem com isso agora. Estão me deixando doente. Vocês ainda estão em lua-de-mel, pelo amor de Deus. Vocês ainda estão tontos, para falar a verdade. Esperem só. Há quanto tempo estão juntos? Há quanto tempo? Um ano? Mais de um ano?

- Indo para um ano e meio - Laura falou, enrubescida e sorridente.

- Oh, agora - disse Terri - Esperem um pouco.

Ela segurou seu drink e fitou Laura.

- Estou apenas brincando - Terri falou.

Mel abriu o gim e rodeou a mesa com a garrafa.

- Olha só, pessoal - disse ele - Vamos fazer um brinde. Eu quero propor um brinde. Um brinde ao amor. Ao verdadeiro amor.

Tocamos os copos.

- Ao amor. - dissemos.

Lá fora, no quintal, um dos cães começou a latir. As folhas das árvores que ladeavam a janela batiam contra a vidraça. O sol da tarde era como uma presença dentro do cômodo, como a ampla luz da tranqüilidade e generosidade. Erguemos nossos copos outra vez e sorrimos um para o outro como crianças que houvessem concordado com algo proibido.

- Vou contar a vocês o que é amor de verdade - Mel disse. - Falo sério, vou dar a vocês um bom exemplo. E então podem tirar suas próprias conclusões. - ele despejou mais gim em seu copo. Colocou um cubo de gelo e uma fatia de limão. Nós esperávamos e bebíamos nossas bebidas. Laura e eu tocamos joelhos novamente. Eu coloquei minha mão em sua coxa quente e deixei-a lá.

- O que qualquer um de nós realmente sabe sobre o amor? - Mel disse. - Parece-me que somos apenas principiantes no amor. Dizemos que amamos um ao outro e amamos mesmo, eu não duvido. Eu amo Terri e Terri me ama, e vocês dois se amam também. Vocês sabem de que tipo de amor estou falando agora. Amor físico, aquele impulso que nos leva a alguém especial, bem como o amor pelo ser de outra pessoa, sua essência, como for. Amor carnal e, bem, chamem-no de amor sentimental, o carinho diário para com a outra pessoa. Mas, às vezes, eu tenho dificuldade em entender o fato de que eu devo ter amado minha primeira esposa também. Mas eu amei, eu sei que amei. Então suponho que concordo com Terri a esse respeito. Terri e Ed. - ele pensou um pouco e depois continuou - Houve um tempo em que eu achei que amava minha primeira mulher mais do que a vida em si. Mas agora a odeio até a alma. Odeio mesmo. Como vocês explicam isso? O que aconteceu com aquele amor? O que aconteceu, é o que eu gostaria de saber. Queria que alguém pudesse me dizer. E então tem o Ed. Tudo bem, voltamos para o Ed. Ele ama tanto a Terri que tenta matá-la e acaba se matando. - Mel parou de falar e bebeu mais um gole - Vocês dois têm estado juntos há dezoito meses e amam um ao outro. Tudo em vocês mostra isso. Vocês estão radiantes com isso. Mas vocês dois já amaram outras pessoas antes de se conhecerem. Ambos já foram casados antes, como nós. E vocês provavelmente até já amaram outras pessoas antes também. Terri e eu temos estado juntos há cinco anos, estamos casados há quatro. E a coisa mais terrível, mais terrível, porém mais maravilhosa, a graça da salvação, vocês podem dizer, é que se alguma coisa acontecer com um de nós amanhã, acho que o outro, a outra pessoa, lamentaria um pouco, sabe, mas então o parceiro sobrevivente sairia e amaria novamente, encontraria alguém logo. Tudo isso, todo esse amor sobre o qual estamos falando, seria apenas uma lembrança. Talvez nem mesmo uma lembrança. Estou errado? Estou muito equivocado? Porque eu quero que vocês me corrijam se acharem que estou errado. Quero saber. Quer dizer, eu não sei de nada, e sou o primeiro a admitir isso.

- Mel, pelo amor de Deus. - Terri disse. Ela estendeu a mão e segurou o pulso dele. - Você está ficando bêbado? Querido? Está bêbado?

- Querida, estou apenas falando. - Mel disse. - Tudo bem? Eu não tenho que beber para dizer o que penso. Falo sério, estamos todos apenas conversando, certo? - Mel disse. Fixou seus olhos nos olhos dela.

- Meu bem, não estou criticando você. - disse Terri.

Ela apanhou seu copo.

- Não estou de plantão hoje. - Mel disse. - Deixe-me lembrá-la disso. Não estou de plantão.

- Mel, nós amamos você. - Laura disse.

Mel olhou para Laura. Olhou para ela como se não pudesse localizá-la, como se ela não fosse a mulher que ela é.

- Amo você também, Laura. - Mel disse. - E você, Nick, amo você também. Querem saber de uma coisa? Vocês dois são nossos camaradas.

Ele levantou seu copo.

Mel disse, "Eu ia contar sobre uma coisa para vocês. Quero dizer, eu ia expor um ponto de vista. Sabe, isso aconteceu há alguns meses, mas ainda está acontecendo agora, e deveria nos deixar envergonhados quando falamos como se soubéssemos sobre o que falamos quando falamos sobre o amor".

- Qual é - Terri disse - Não fale como se você estivesse bêbado se você não está bêbado.

- Apenas cale a boca uma vez na vida - Mel falou calmamente. - Você pode fazer o favor de calar-se por um minuto? Então como eu estava dizendo, havia esse velho casal que sofreu um acidente de carro na interestadual. Um rapaz trombara com eles e estavam todos esmigalhados e ninguém acreditava que eles fossem escapar.

Terri olhou para nós e então se voltou para Mel. Ela parecia ansiosa, ou talvez essa seja uma palavra forte demais.

Mel estava segurando a garrafa ao redor da mesa.

- Eu estava de plantão aquela noite. - Mel disse. - Foi em maio ou talvez em junho. Terri e eu havíamos acabado de nos sentar para jantar quando o hospital ligou. Havia acontecido essa coisa na interestadual. Garoto embriagado, adolescente, bateu a caminhonete do pai contra o furgão com o velho casal dentro. Eles estavam no auge dos seus setenta e poucos anos, aquele casal. O rapaz - dezoito, dezenove, sei lá - estava morto. O volante atravessou seu externo. O velho casal, estavam vivos, entendem. Quer dizer, quase. Mas tinham de tudo. Fraturas múltiplas, danos internos, hemorragias, contusões, lacerações, enfim, e ambos tinham concussões. Estavam péssimos, acreditem. E, claro, a idade era um fator contra eles. Eu diria que ela estava bem pior do que ele. As duas rótulas fraturadas. Mas estavam usando o cinto de segurança e, sabe lá Deus, isso foi o que os salvou naquela hora.

- Pessoal, isso é uma propaganda do Conselho de Segurança Nacional. - disse Terri. - Este é o seu porta-voz, Dr. Melvin R. McGinnis, falando. - Terri riu. - Mel, às vezes você é demais. Mas eu amo você, querido.

- Querida, amo você. - Mel falou.

Ele inclinou-se sobre a mesa. Terri o encontrou na metade do caminho. Beijaram-se.

- Terri está certa. - Mel disse enquanto se restabelecia novamente. - Apertem os cintos. Mas, falando sério, eles estavam num estado, aqueles caducos. No momento em que cheguei lá, o rapaz estava morto, como eu disse. Ele estava num canto, deitado sobre uma lona. Dei uma olhada no casal de velhos e pedi à enfermeira da emergência para mandar um neurologista, um ortopedista e uns dois cirurgiões para lá imediatamente.

Ele bebeu um gole de seu copo. "Vou tentar resumir isso. Então levamos os dois para o centro cirúrgico e trabalhamos para cacete nos dois durante a maior parte da noite. Eles tinham aquele inacreditável problema, os dois. Você vê algo assim de vez em quando. Então fizemos tudo o que podia ser feito e, no começo da manhã, estávamos dando a eles cinqüenta por cento de chances de sobreviver, talvez um pouco menos do que isso para ela. E lá estavam eles, ainda vivos na manhã seguinte. Tudo bem, levamos eles para a UTI, onde ambos ficaram se recuperando por duas semanas, ficando cada vez melhor a cada dia. Daí os transferimos para o quarto".

Mel parou de falar. "Aqui", disse ele, "Vamos beber essa droga desse gim barato. Daí nós vamos jantar, certo? Terri e eu conhecemos um lugar novo. É lá que nós vamos, a esse novo lugar que nós conhecemos. Mas não vamos até terminarmos esse gim medonho e vagabundo".

Terri disse, "Na verdade, ainda não comemos lá. Mas parece bom. Olhando de fora, sabe".

- Gosto de boa comida. - Mel disse. - Se pudesse começar tudo outra vez, eu seria um chef, sabe? Certo, Terri?

Ele riu. Moveu o gelo em seu copo usando o dedo.

- Terri sabe. - disse ele - Terri pode contar a vocês. Mas deixe-me dizer uma coisa. Se eu pudesse retornar em uma vida diferente, num tempo completamente diferente, sabe de uma coisa? Gostaria de voltar como um cavaleiro. Você ficava bem protegido vestindo toda aquela armadura. Ser um cavaleiro era muito bom até a pólvora, os mosquetes e as pistolas aparecerem.

- Mel iria gostar de andar a cavalo e carregar uma lança. - Terri falou.

- Carregar o lenço de uma mulher com você para todos os lugares. - Laura falou.

- Ou simplesmente uma mulher. - Mel disse.

- Que vergonha. - Laura disse.

Terri disse, "Suponhamos que você voltasse como um servo. Os servos não se davam muito bem naqueles tempos".

- Os servos nunca se davam bem - Mel falou. - Mas acho que até os cavaleiros eram os vessalos de alguém. Não era assim que funcionava? Mas então todo mundo era sempre um vessalo de alguém. Não está certo? Terri? Mas o que eu gostava nos cavaleiros, além de suas damas, era que eles tinham aquela armadura, sabe, e eles não eram feridos muito facilmente. Nada de carros naqueles dias, sabe? Nada de adolescentes bêbados para arrebentar o seu rabo.

- Vassalos. - Terri corrigiu.

- O quê? - Mel perguntou.

- Vassalos. - Terri disse. - Eles eram chamados de vassalos, não vessalos.

- Vassalos, vessalos. - Mel disse. - Que diferença essa porra faz? Você entendeu o que eu quis dizer. Tudo bem. Então eu não sou culto. Aprendi minhas coisas. Sou um cardiologista, um cirurgião, certo, mas sou apenas um mecânico. Eu vou lá e me ferro e eu conserto as coisas. Merda.

- Modéstia não é com você. - Terri disse.

- Ele é só um humilde serrador de ossos. - disse eu. - Mas, às vezes, eles sufocavam no meio de toda aquela armadura, Mel. Até mesmo tinham ataques cardíacos se ficava muito quente e se eles estivessem muito cansados e velhos. Li em algum lugar que eles caíam de seus cavalos e não conseguiam se levantar, pois estavam muito cansados para ficar de pé com toda aquela armadura sobre eles. Às vezes eles eram pisoteados por seus próprios cavalos.

- Isso é terrível. - Mel disse. - Isso é uma coisa terrível, Nicky. Acho que eles simplesmente ficavam lá deitados e esperavam até que alguém viesse e fizesse um picadinho deles.

- Algum outro vessalo. - Terri disse.

- Está certo. - Mel disse. - Algum vassalo ia aparecer e lancear o desgraçado em nome do amor. Ou seja lá qual for a porra pela qual eles lutavam naqueles dias.

- As mesmas coisas pelas quais lutamos hoje em dia. - Terri disse.

Laura disse:

- Nada mudou.

A cor ainda estava forte nas bochechas de Laura. Seus olhos brilhavam. Ela levou seu copo até seus lábios.

Mel serviu-se de mais um drink. Ele observou o rótulo atentamente como se estudasse uma longa fileira de números. Então ele lentamente colocou a garrafa sobre a mesa e lentamente apanhou a água tônica.

- E quanto ao casal de velhos? - Laura perguntou. - Você não terminou aquela história que você começou.

Laura estava tendo dificuldades para acender seu cigarro. Seus fósforos ficavam se apagando.

A luz do sol que penetrava no cômodo estava diferente agora, transformando-se, tornando-se mais tênue. Porém, as folhas lá fora da janela estavam ainda reluzindo, e observei o desenho que elas faziam nas panelas e no balcão de fórmica. Não eram os mesmos desenhos, claro.

- E quanto ao casal de velhos? - Eu perguntei.

- Mais velhos, porém mais sábios - Terri disse.

Mel olhou para ela.

Terri disse, "Continue com sua estória, querido. Eu estava só brincando. E então o que aconteceu?"

- Terri, às vezes. - Mel disse.

- Por favor, Mel. - Terri disse. - Não seja sempre tão sério, docinho. Será que você não aceita uma piada.

- E onde está a piada? - Mel disse.

Ele segurou seu copo e encarou sua mulher fixamente.

- O que houve? - Laura perguntou.

Mel pousou seus olhos sobre Laura. Disse:

- Laura, se eu não tivesse a Terri e se eu não a amasse tanto, e se Nick não fosse o meu melhor amigo, eu me apaixonaria por você. Eu a conquistaria, querida.

- Conte sua história. - Terri disse. - Então iremos àquele novo lugar, certo?

- Certo. - Mel falou. - Onde eu estava? - Ele olhou para a mesa e recomeçou. - Eu ia lá ver cada um deles todos os dias, às vezes duas vezes por dia se eu não estivesse atendendo a outras chamadas. Gesso e esparadrapo, da cabeça aos pés, os dois. Sabe, vocês vêem isso nos filmes. Era exatamente assim que eles pareciam, igualzinho nos filmes. Pequenos buracos para os olhos, as narinas, a boca. E ela tinha que ficar com a perna pendurada o mais alto possível. Mesmo depois que ele descobriu que sua esposa iria resistir, ele ainda estava muito deprimido. Não era por causa do acidente, eu acho. Quero dizer, o acidente foi uma coisa, mas não tudo. Eu me aproximei do buraco da boca dele, sabe, e ele disse que não, que não era o acidente propriamente, mas era porque ele não conseguia enxergá-la através de seus buraquinhos para os olhos. Ele disse que era isso que estava fazendo-o sentir-se tão mal. Dá para imaginar? Estou dizendo a verdade, o coração do homem estava se partindo porque ele não conseguia virar sua mal
ita cabeça e ver sua maldita mulher.

Mel olhou ao redor da mesa e sacudiu negativamente a cabeça para aquilo que ele ia falar.

- Quero dizer, isso estava matando o velho desagradável só porque ele não conseguia olhar para sua maldita mulher.

Todos nós olhamos para o Mel.

- Entendem o que estou dizendo? - perguntou ele.

Talvez estivéssemos um pouco embriagados então. Só sei que era difícil manter as coisas em foco. A luz estava escorrendo para fora do cômodo, saindo através da janela por onde entrara. Ainda assim, ninguém fez um movimento sequer para se levantar da mesa e acender as luzes do teto.

- Ouçam. - Mel disse. - Vamos terminar essa droga desse gim. Há o bastante aqui para mais um trago para cada um. Então iremos comer. Iremos ao lugar novo.

- Ele está deprimido. - Terri disse. - Mel, por que você não toma uma pílula?

Mel balançou a cabeça. "Já tomei de tudo o que existe"

- Todos nós precisamos de um comprimido de vez em quando. - disse eu.

- Algumas pessoas já nascem precisando deles. - Terri falou.

Ela estava usando seu dedo para esfregar alguma coisa sobre a mesa. Então ela parou de esfregar.

- Acho que quero ligar para os meus filhos. - Mel disse. - Tudo bem com vocês? Vou ligar para os meus filhos.

Terri disse, "E se a Marjorie atender o telefone? Vocês já nos ouviram falar a respeito de Marjorie? Querido, você sabe que não quer falar com a Marjorie. Isso vai fazê-lo se sentir ainda pior.

- Eu não quero falar com a Marjorie. - Mel falou. - Mas eu quero conversar com meus filhos.

- Não há um dia em que Mel não diga que quer que ela se case novamente. Ou morra. - Terri disse. - Por causa de uma coisa. Ela está nos levando à falência. Mel diz que é só por causa dele que ela não vai se casar outra vez. Ela tem um namorado que mora com ela e com as crianças, então Mel está sustentando o namorado também.

- Ela é alérgica a abelhas. - Mel disse. - Ela bem que podia se casar novamente. Estou rezando para que ela seja picada até a morte por um maldito enxame de abelhas.

- Que feio. - Laura disse.

- Bzzzzzzz - Mel disse, imitando com os dedos os movimentos das abelhas ao redor da garganta de Terri. Então ele deixou que suas mãos caíssem para os lados.

- Ela é uma depravada. - Mel disse. - Às vezes eu acho que vou lá vestido de apicultor. Sabe, com aquele chapéu que parece um capacete com um prato que cobre sua cabeça, as luvas enormes, e a roupa impermeável? Eu vou bater à porta e deixar uma colméia de abelhas entrar na casa. Mas, primeiro, vou certificar-me de que as crianças não estão em casa, é claro.

Ele cruzou uma perna sobre a outra. Pareceu levar muito tempo para ele fazer isso. Então colocou os dois pés no chão e inclinou-se para frente, cotovelos sobre a mesa, seu queixo apoiado sobre as mãos.

- Talvez eu não vá ligar para as crianças, afinal. Talvez isso não seja uma boa idéia. Talvez nós vamos simplesmente comer. Que tal?

- Parece bom para mim. - disse eu. - Comer ou não comer. Ou continuar bebendo. Eu poderia continuar até o sol se pôr.

- O que isso quer dizer, querido? - Laura perguntou.

- Só quer dizer o que eu disse - disse eu. - Significa que eu poderia simplesmente ir em frente. É isso que significa.

- Eu poderia ir comer alguma coisa sozinha. - Laura falou. - Acho que nunca me senti tão faminta em toda a minha vida. Tem alguma coisa aí para beliscar?

- Vou servir um pouco de queijo e biscoitos. - Terri disse.

Mas Terri apenas ficou sentada lá. Ela não se levantou para pegar nada.

Mel derrubou seu copo. Derramou-o sobre a mesa.

- O gim se foi. - Mel disse.

Terri perguntou, "E agora?"

Eu conseguia ouvir meu coração batendo. Eu conseguia ouvir o coração de todo mundo. Eu conseguia ouvir o ruído humano que nós, sentados lá, fazíamos, nenhum de nós se movendo, nem mesmo quando a cozinha ficou escura.

RAYMOND CARVER nasceu em Clatskanie, Oregon, em 1938, e apesar de ter vivido uma vida turbulenta, marcada por um grave problema com o alcoolismo, produziu vários contos que foram reunidos em coletâneas como What We Talk About When We Talk About Love (1981) e Cathedral (1983), indicado para o prêmio Pulitzer, além de poemas e ensaios. Em 1988, ano de sua morte, Carver foi eleito para a Academia Americana de Artes e Letras. Em 1993, alguns de seus contos e poemas inspiraram o diretor de cinema Robert Altman a rodar o premiado filme Short Cuts - Cenas da Vida.