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Auto-resenha sobre A poética do conto
Sem nenhuma ilusão quanto à possibilidade de uma visão totalizadora a
respeito do conto, definimos o objeto de nossa investigação – em A poética do conto, a ser publicado pela Editora Nova Prova em outubro de 2004 –, a partir de uma série de exclusões. Em primeiro lugar, não pretendemos fazer uma poética do gênero, no seu sentido lato, considerando que são muitos os teóricos, especialmente no continente americano e europeu, que o fizeram. Temos, por exemplo, em língua inglesa, francesa e italiana, entre outros, Brander Matthews, James Cooper Lawrence, Norman Friedman, Seymour Menton, Mary Rohrberger, Eileen Baldeshwiler, Ian Reid, Clare Hanson, Gerard Gillespie, Italo Tedesco, Alberto Moravia e Raul Piérola. Em língua espanhola, e de distintas nacionalidades – da Espanha, do México, do Chile, da Ve-nezuela, da Argentina, do Uruguai – podemos citar autores como Carlos Pacheco, Luis Barrera Linares, Gustavo Luis Carrera, Carlos Mastrángelo, Horacio Quiroga, Mario Lancelotti, Mariano Baquero Goyannes, Raul Castagnino, María Luisa Rosenblat, Ricardo Piglia, Juan José Millás, Edmundo Valadés, Enrique Anderson Imbert, Juan Bosch, Silvina Bullrich, Guillermo Meneses, Julio Torri, Marco Tulio Aguilera Garramuño, José María Merino, Luis Mateo Diez, José Balza, Alba Lía Barrios, Catalina Gaspar de Marquez, Violeta Rojo, Angel Gustavo Infante, Hernán Lara Zavala, Andrés Mariño Palacio e Oscar de la Borbolla. Em segundo lugar, não foi nossa intenção examinar a evolução histórica do gênero, desde suas manifestações orais, passando pelo período de narrativa intercalar, tão freqüente na Idade Média, até sua fase contemporânea, pós-moderna, embora reconheçamos a necessidade e pertinência de um trabalho dessa natureza e envergadura. Em terceiro lugar, não procuramos, tampouco, fazer a exegese da obra dos autores escolhidos. De tal forma são conhecidos e estudados, que evitamos acrescentar à sua fortuna crítica uma nova interpretação.
Nosso objetivo foi mais modesto, mais exeqüível e mais compatível com nossas aspirações e afinidades eletivas. Assim, num processo recorrente, circular e concêntrico, tratamos de estabelecer a poética de uma determinada espécie de conto, aquele nascido com a industrialização, filho da locomotiva e da imprensa, escrito
pelos norte-americanos, Nathanael Hawthorne e Edgar Allan Poe, e pelos latino-americanos, Julio Cortázar e Jorge Luis Borges, a partir da leitura que fazem uns dos outros. A opção por este corte é conjuntural e histórica, no primeiro caso; geográfica e idiossincrática, no segundo.
Edgar Allan Poe, pela primazia na discussão de uma poética do conto, por representar como ninguém a emergência de novas formas literárias do capitalismo – as histórias de crime e mistério, de viagens espaciais, de comportamentos desviantes, entre outras –, não poderia estar ausente de nosso trabalho. Todas as poéticas,
produzidas pelos teóricos já referidos, prestam a sua homenagem ao escritor de Boston. Nele se iniciam, dele se afastam, e a ele retornam.
Nathanael Hawthorne também não podia deixar de comparecer em nosso estudo, por ser o outro do par dialético, porque sem ele a teoria do efeito e da impressão não seria possível. Nele, Poe encontrou a resistência e o espelhamento necessários para a produção de sua síntese teórica.
Escolhemos Julio Cortázar por ter sido o escritor latino-americano que melhor encarnou a duplicidade artista/teórico, e por ter sido quem melhor compreendeu seu companheiro de ofício. Se se pode dizer que Charles Baudelaire é, na Europa, o irmão-gêmeo de Poe, aqui, na América Latina, esse título cabe a Cortázar.
O segundo par, além das razões geográficas, foi escolhido por conta da qualidade e da influência que exerce sobre os novos contistas. Inúmeros são os seus epígonos, em todos os quadrantes.
Como os extremos de uma ponte, com seus duplos corrimões, Hawthorne/Poe e Cortázar/Borges ligam um período histórico a outro. Por isto, os escolhemos – porque estão no princípio e no fim de um ciclo: o do capitalismo industrial, depois das diligências, e antes das viagens espaciais.
Além da obra contística dos autores, serviu-nos de material de pesquisa os ensaios, resenhas, orelhas, prefácios, cartas, diários e notas que produziram. Em alguns casos, realizamos as necessárias traduções, já que tais reflexões ainda são inéditas em língua portuguesa. Depois, procuramos dar a esse conjunto de informações dispersas uma coerência interna, tendo por base os elementos estruturais da narrativa, a personagem, o enredo, o narrador, o tempo e o espaço.
Algumas indagações nortearam nossa pesquisa.
Em primeiro lugar, tratamos de descobrir se há uma relação necessária e coerente entre o modelo idealizado – o que o contista A gostaria de encontrar no contista B – e o resultado prático – o que o contista A encontra, de si, no contista B. Em segundo lugar, procuramos comprovar se a leitura crítica do contista A em relação ao contista B é produtiva, ajudando-o a melhorar, aprofundar ou a recusar o seu próprio padrão. Em terceiro lugar, examinamos se o resultado dessas poéticas tem utilidade e se podem servir de modelo a novos contistas.
Nos três primeiros capítulos de A poética do conto, repete-se um mesmo percurso: o exame da obra crítica e o exame da obra do crítico a partir do modelo estabelecido por este.
No primeiro capítulo, Edgar Allan Poe lê Nathanael Hawthorne, rastreamos as concepções estéticas de Poe. É sintomático que essa primeira poética da história curta nasça de uma tríade de resenhas, escritas em abril e maio de 1842, e novembro de 1847. Assim como o conto moderno, a própria resenha literária está nascendo, no interior de um processo de rápidas transformações históricas, sociais e econômicas. Ao contrário do plácido mundo agropastoril, o agitado mundo industrial requer cidadãos capazes de ler os manuais de instruções das novas máquinas. Por necessidade interna, o emergente sistema capitalista massifica a educação. A classe média urbana, e parte do proletariado, quer diversão e entretenimento. A energia elétrica encurtou a noite, as novas leis criaram dias santos e feriados. O tédio, que antes morava nas aldeias, transfere-se para as cidades. Assim, multiplicam-se as revistas literárias e de variedades, e dentro delas, as secções de ensaio, ficção, poesia, filosofia, crítica. O sistema literário movimenta-se cada vez mais rápido, mimetizando o frenesi das rotativas. As revistas publicam contos de novos autores. As editoras publicam antologias, individuais e coletivas. Os novos livros passam a ser resenhados pelas revistas. Que geram novos leitores. Que geram novos autores. Que geram novos resenhistas.
Edgar Allan Poe, jovem contista, ataca um contista consagrado, e diz ao público o que é um bom conto. Rigoroso, examina os procedimentos construtivos de Nathanael Hawthorne, indica o melhor tratamento dos meios expressivos. O que gostaria de ler no outro, supõe que os seus pares encontrem em seus próprios textos, publicados na mesma revista em que veicula as resenhas: histórias de temática variada, originais e curtas, para que possam ser apreciadas numa viagem de trem, entre Boston e Nova Iorque. Como é um artista, e do artista sempre se exigiu um esforço extremado – o capitalismo levaria ainda algumas décadas para destruir esse mito –, é preciso polir a linguagem, economizar as palavras – que agora até o tempo é dinheiro –, adequar o tom da narrativa. Que o texto, de parágrafos leves e frases rápidas, precisa ser um espelho da grande agitação da cidade.
No segundo capítulo, Julio Cortázar lê Edgar Allan Poe, repetimos o processo. As concepções de Cortázar correspondem, no fundo, às de Poe, mas com outra nomenclatura. À totalidade, dá o nome de esfericidade; à unidade de efeito, chama de intensidade. Inova, de certa forma, no conceito de significação. Embora a unidade de efeito requeira, também, a excepcionalidade para realizar-se, Cortázar pensa um outro tipo de significação, já que até mesmo o não-excepcional, o cotidiano, o banal, podem assumir essa característica, decisiva para que o conto adquira estatuto estético. Esse elemento de sua poética torna-se incompreensível se não for pensado como uma abertura, uma passagem, uma metafísica. A rigor, é o retorno da epifania grega. Se lá a abertura para o divino dava-se no ser, em Cortázar ela se dá no que se chama realidade. Escritor não é apenas aquele que sente em si essa irrupção do numinoso, mas o que é capaz de ler no contingente a suprarrealidade. O mundo, depois de Edgar Allan Poe, mudou. E muito. Os processos que ele intuiu, concretizaram-se. No entanto, um século depois, Julio Cortázar ainda busca os paraísos artificiais, literários.
No terceiro capítulo, Jorge Luis Borges lê Nathanael Hawthorne, Edgar
Allan Poe e Julio Cortázar, completamos a volta no parafuso. Enquanto Poe, o implacável mensageiro da modernidade, desvelava o anacronismo de Hawthorne, colaborando para que o público passasse a ignorá-lo, Borges, o atento leitor dos mitos, espanou a pátina do esquecimento que recobria os contos do recluso de Salem. Borges, que se declarou melhor leitor que escritor, transformou o modo de ler seus pares em elemento estruturante de sua própria poética. Assumiu, desabusadamente, que o novo é impossível e que tudo não passa de sonho, ou literatura, o que vem a dar na mesma. Todos, dos assírios e babilônios a Nathanael Hawthorne, dos gregos, árabes e judeus a Edgar Allan Poe, dos chineses e tibetanos a Julio Cortázar, todos, indistintamente, escrevem o mesmo conto. Ou sonham que o escrevem.
No quarto capítulo, Leitura final, formulamos a teoria das variantes. Jogamos, todos, o mesmo grande jogo de xadrez da tradição ocidental do conto. Seria melhor falarmos em “Variante Poe”, “Variante Tchecov”, “Variante Borges”...
No setor de Anexos, incluímos nossas traduções das principais resenhas escritas por Edgar Allan Poe, já publicadas pela Bestiário
- Revista de Contos
CHARLES KIEFER é
natural de Três de Maio (RS). Estreou na ficção em 1982 com Caminhando
na Chuva, novela de temática adolescente que, já em sua 14ª edição,
transformou-se num clássico da literatura infanto-juvenil. Em 1985
Kiefer ganhou projeção nacional com a novela O pêndulo do relógio
agraciada com o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Em 1993,
com o livro de contos Um outro olhar e com Antologia Pessoal (primeiro
lugar na categoria Conto), o escritor recebeu novamente dois prêmios
Jabuti. O autor vem acumulando nos últimos anos uma série de outras
premiações, entre elas o Prêmio Guararapes, da União Brasileira de
Escritores, para o O pêndulo do relógio, Prêmio Afonso Arinos 1993, por
Um outro olhar, e Prêmio Altamente Recomendável para Adolescentes 1986,
pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, para o livro
infanto-juvenil Você viu meu pai por aí?.
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