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Álcool & Nicotina
Mário e Marion namoraram dois anos antes de se casar. Moravam em
Niterói, trabalhavam no Rio. Ele no Museu da Imagem e do Som, ela no
Histórico Nacional. As afinidades começaram aí, pelos museus. Depois
descobriram outras, dormir de bruços, cinema novo, Rubem Braga, alho e
orégano, meia sem elástico e foto preto e branco foram apenas algumas,
serviram bem para o início.
Eles se conheceram na barca das seis. Mário perguntou se Marion gostaria
que ele segurasse um embrulho da Mesbla que ela carregava, parecia
pesado, na hora ele achou. Nem tava muito, não, lembrou Marion tempos
depois, foi pra me cantar mesmo.
Destinos cruzados, a pessoa certa na hora certa da vida - eles pensavam
- e Mário pediu Marion em namoro bem no meio da Baía, na barca Martin
Afonso. Mas não foi assim tão de repente. Demorou uns três meses, entre
Niterói e Rio, para que ele se declarasse. O pedido de casamento também
foi feito na barca, só que na Vital Brasil, enquanto ela manobrava na
Praça XV. Mas aí a situação era mais séria. Marion pediu tempo para
pensar. A resposta veio na barca do dia seguinte, a Icarahy.
Marion e Mário não casaram na realidade. Foram morar juntos. Normal,
eles acharam, quase todo mundo achou. A família dela ficou meio assim, a
avó, para dizer a verdade, mas depois aceitaram, ele era bom rapaz, ela
tinha juízo. Essa história de assinar papel, não sei não, pode
complicar, Mário dizia. Se não der certo, vai cada um pro seu lado, sem
ter antes que passar no juiz, dar dinheiro pra advogado, Marion
concordava.
Foram, pois, morar juntos. Ele queria se mudar pro Rio, pro Humaitá,
tentar ver a Lagoa esticando o pescoço na janela. Imagina, ela rechaçou,
agora que Niterói tem a quarta melhor qualidade de vida do país?
Alugaram um quarto e sala no Fonseca.
Um ano se passou feliz, sem a chancela civil. Os dois atravessaram a
baía juntos, superaram o dia a dia. Mais fortes que o tédio, driblaram a
rotina. Iam ao cinema, ao teatro, recebiam amigos, jantavam fora.
Aproveitaram o dólar estagnado, viajaram pra Disney e ainda estavam
pagando a quinta das doze prestações à agência de turismo, quando um dia
Mário chegou em casa de saco cheio com alguma coisa que não vinha ao
caso. Jogou as chaves em cima da mesa. Marion, na cozinha, pensava no
que iriam comer.
Ela foi até a sala e perguntou algo sobre salada de batatas com ou sem
salsinha. Mário estava junto ao bar, no canto, preparando um uísque e
não respondeu, ou porque não ouviu ou porque não quis. Marion voltou
calada à cozinha para tratar das batatas. Conseguiu ouvir a bebida
derramada outra vez no copo. Mário preparava a segunda dose. Ela deixou
vasilhas em cima da pia e, novamente na sala, sentou-se no braço do
sofá. De costas, o marido não percebeu a presença que o fitava
incomodada. Você bebe demais, ela comentou num tom de profundo
desagrado. Mário se virou, o quê? Na face expressões de enfado e espanto
de quem não entende o sentido de certas colocações. É isso mesmo, você
bebe demais, insistiu Marion, agora mais convicta. Mário mexeu o gelo
com o dedo, virou um gole e ficou segurando o copo, enquanto não lhe
vinha à cabeça uma frase com a qual também pudesse recriminar a mulher.
Até que encontrou. Bem, e você fuma demais. Com isso estavam quites, na
opinião dele. Não para Marion, que acabara de acender um cigarro e,
soprando a fumaça, mandou a réplica, muito menos do que você bebe. Mário
riu, irritado, só queria ficar calado e agora precisava devolver aquilo.
Claro que fuma, vê se eu trabalho ou ando pelo meio da rua com um copo
na mão. Virou de costas. E tinha mais, já que ela começou. Entortou o
pescoço pro lado, de forma que fosse ouvido melhor. Fora tudo isso, eu
não fico bebendo na cama depois de fazer amor, mas você acende um
cigarro e polui o quarto inteiro. Marion deu o assunto por encerrado e
apagou o cigarro. Acendeu outro cinco minutos depois, antes de tomar
banho. Mário ficou na janela, olhando a noite, tomando a quarta dose.
Jantaram calados, dormiram sem se falar.
A partir daí, os diálogos encurtaram e o silêncio aumentou entre os
dois. Um dia, Mário discutiu no museu, veio calado na barca. Chegou em
casa, tomou quatro doses, começou a enrolar a língua e, bêbado, nem
tirou a gravata para jantar. Aflita, Marion não perguntava nada. Acendia
um cigarro atrás do outro e assim pedia explicação.
Uma nuvem azul pairava sobre a sala. Mário terminou de comer e foi
deitar. Não tomou banho, não trocou de roupa, menos ainda deu boa noite.
Beijos antes de dormir já não existiam, nem dele, nem dela. Marion
arrumou tudo, deitou, apagou a luz. Mário roncava. Ela acendeu um
cigarro, enfumaçou o quarto. De tanto tossir, ele acabou acordando. Mas
que merda, resmungou, e foi dormir no sofá.
A cena virou chavão: o copo na mão dele, o cigarro entre os dedos dela.
Porra, não sabia que eu bebia? Bosta, não sabia que eu fumava? Eram as
únicas questões as quais se submetiam. Então, por que casamos?
Perguntaram um pro outro, vozes alarmadas, exatamente ao mesmo tempo.
Quanto mais crise, mais bebida, mais cigarro.
Enchi o saco da tua língua enrolada, do teu bafo de cana, dos teus
vômitos no banheiro, do teu pinto mole por causa dos porres, Marion
explodia e puxava tragadas. Cansei dessa fumaça impregnando as paredes,
dos teus dentes amarelos, do teu hálito de tártaro, do teu peito
rosnando na cama, da tua boca igual a um cinzeiro, Mário devolvia,
mexendo o gelo.
Naquela noite, Marion chegou sozinha em casa. Mário não apareceu na
estação, no horário de sempre. Pela primeira vez vieram em barcas
diferentes desde que se conheceram. Ele apareceu quase duas horas depois
e deu com ela na poltrona, cigarro na mão, soprando a fumaça na
penumbra. Mário entrou sem dizer nada e preparou uma dose. Copo cheio,
encarou Marion, raivoso, via-se nos olhos amortecidos por outras doses
na rua. Ela soprou a fumaça na direção do rosto dele e o cinismo foi o
troco para o olhar do marido.
Mário virou o copo, bebeu tudo praticamente em um único gole e com um
movimento leve matou aquele restinho que fica no fundo, abaixo dos cubos
de gelo. Foi para o quarto e trancou a porta. Marion intrigada escutava
da sala o barulho do guarda-roupa sendo remexido. Ouviu a janela ser
aberta com rispidez e Mário gritando logo em seguida, olha só o que eu
estou fazendo com a porra dos teus cigarros. A janela do quarto era
colada na da sala, de forma que pôde assistir ao marido destemperado
abrir dois pacotes de Minister que ela comprara para estocar no fim de
semana. Mário abria cada maço, quebrava um por um dos cigarros e os
jogava pela janela, gritando toma, sua tabagista inveterada, olha aqui
ó, sua boca de cinzeiro, espia só o que eu tô fazendo, sua acionista da
Souza Cruz, vai morrer em paz de câncer no pulmão, vai! Possessa, Marion
não teve dúvida, ah é? É isso que você quer então, não é? Amassou o
cigarro aceso no cinzeiro e tratou de trancar também a porta de um
pequeno hall que ligava a sala ao quarto.
Foi até o bar, pegou uma por uma das garrafas de uísque, abriu todas e
colocou-as lado a lado no parapeito da janela. Começou também a gritar,
olha aqui ó, seu cachaceiro, e berrava para o marido, mostrando uma
garrafa de ponta cabeça, todo o conteúdo sendo defenestrado. Olha só o
seu Chivas Reagal onde vai parar, agora o Ballantine's 12 anos, e a
edição especial do JB 25 anos, espia só, e despejava todos até a última
gota.
Ficaram assim um bom tempo, lançando na noite de Niterói uísque e
cigarros estraçalhados. Os vizinhos apareceram nas janelas, juntou gente
na calçada, êta mundo bom que chove pinga, comemorou um bêbado lá
embaixo, joga aqui tia, mais pra direita, gritava um outro pinguço,
abrindo a boca para o alto, manda um maço inteiro desse aí prá nóis,
tio, berrava o mendigo da rua.
Terminado o espetáculo, ela dormiu na sala. Fumou ainda os dois últimos
cigarros do maço que trazia consigo e que escapou da fúria do marido.
Ele dormiu trancado no quarto, depois de virar uma garrafinha de Jack
Daniel's escondida no bolso de um paletó guardado no armário. Talvez
tenham chorado, ninguém sabe, eles não disseram.
Só se falaram de novo na semana seguinte, quando um avisou, o caminhão
vem aqui às oito pegar minha mudança. Tudo bem, eu só faço questão da
poltrona, respondeu o outro.
A última vez que se viram foi na entrega do apartamento ao senhorio.
Depois disso, nunca mais.
Nem na barca.
ANDRÉ GIUSTI é carioca, nascido em 1968. Publicou três livros de
contos: Voando pela noite (até de manhã) (7letras, 1996); A solidão do
livro emprestado (Coleção rocinante, 7letras, 2003), do qual faz parte o
conto Álcool & Nicotina, e Eu nunca fecharei a porta da geladeira com o
pé em Brasília (LGE, 2004), que acabou de ser lançado. É também
jornalista e mora em Brasília, onde trabalha como apresentador na Rádio
CBN.
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