|
|
 |
A toga
A procura de contacto, o falar e ouvir é um alimento que vai
escasseando. Andamos esfomeados de comunicação, não da social que nos
mata mas da individual, do diálogo vivo. Não é tanto pelo café que se
pede, é muito mais pela companhia que se toca, pelas palavras e pelo
olhar e mão que se estendem. Quem vai às compras gosta de regatear
porque afinal poupa, mas muito mais porque pode falar e ouvir, acender
uma chama que aquece. Ainda estava casado, precisou a minha consorte de
mandar fazer a sua capa de solicitadora. Estávamos no Porto e, talvez
por vaidade, lembrei-me então que a minha toga precisava de reforma ou,
quando muito, seria bom, ter uma outra de reserva, aproveitando o facto
de, por certo, duas encomendas irem encher o magro bolso de lauto
desconto. O alfaiate que mais parecia um empresário de sucesso, depois
de eu lançar várias vezes a réplica da quantia que entendia justa, mais
para mim do que para ele, confesso, pelo preço das duas peças, lá acedeu
em tirar as medidas para a minha nova toga. Que fique bem feita para
ficarmos clientes, soltei ao mesmo tempo que apertava a mão grossa e
pensante do meu novo amigo. Talvez um fato viesse a ser a próxima
encomenda enquanto sorria para aqueles olhos finos e sabedores. O
pagamento, por ancestral norma da casa, deveria ser feito logo no
início. O nome da casa, as instalações, o requinte e as mesuras,
quebraram -me qualquer eventual suspeita, tanto mais que fiz questão de
entregar cheque com o nome do portador bem legível. Eis então, passados
uns meses, que são enviados pelo correio os dois artefactos. A capa da
minha consorte esplêndida. A minha toga, com uma carreira de botões na
frente até estava engraçada na sua simplicidade, só que, é verdade meus
amigos, ficava-me pelo meio das pernas. O raio do homem havia tirado no
pano o que eu julguei tirar-lhe no preço. De vez em quando e porque
algumas vezes sigo a regra preguiçosa de pouco me levantar, ainda a levo
ao Tribunal para me lembrar que, o homem não é o bicho mais racional da
natureza mas sim o mais engraçado.
JOÃO SEVIVAS é advogado e
poeta nascido em 1954 em Castro Daire, Portugal, aonde exerce advocacia. Obras
publicadas: 1989- Flor de Abril, teatro; 1990 - Para Ti, poesia; 1990 -
Peixinho Solitário, conto; 1991- Fim do Mal, poesia; 1992- Os Últimos
Momentos de uma Mentira, teatro; 1993 - O Grito, poesia; 2001- Os Calos
da Alma, poesia, Editorial Minerva, Lisboa; 2002 - Vertigens de Lua
Cheia, poesia, Editora Hugin; 2002 - Os Sons da Noite, poesia, Editorial
Amores Perfeitos; ´2003 - Redemoinho-, poesia, Editorial Minerva,
Lisboa; 2004- Sonetilhas, poesia, Editorial Minerva, Lisboa; 2004- Ler
não faz mal à saúde, Editorial Minerva, poesia.
|