Um jeito machadiano de falar de amor 

Histórias mirabolantes de amores clandestinos
Edgard Telles Ribeiro
Record
144 páginas

Cuidado com a elegância de Edgard Telles Ribeiro, ou melhor, com a elegância de seus personagens, da condução segura de suas tramas, do ritmo absolutamente controlado e rico de prismas significantes de suas frases. Já no conto de abertura de sua mais recente coletânea de contos, ''Horário nobre'', a surpresa nos toma de arrasto, tão súbita como uma surpresa legítima sabe ser, e acabamos o conto literalmente fulminados. Literalmente, se por um átimo que seja encarnarmos o protagonista, o que o autor tão bem sabe fazer: levar-nos a vestir a pele arrepiada por encruzilhadas que só a possibilidade de êxtase físico nos propõe. 

Toda história de amor oferece, no poço de seu arrebatamento, instantes de horror. As oito narrativas (algumas longas) de Histórias mirabolantes de amores clandestinos não poupam a experiência - sempre prometedora - das conjunções carnal e de almas de um desencontro que em geral aponta para outro lado, mais sombrio. O ficcionista, praticante extremoso de um cuidado tanto formal quanto temático, não investe na situação se esta não investir sobre o personagem, que fatalmente se debate, sob nossos olhos atônitos. Como Edgard Telles Ribeiro sabe da vida, como escreve! 

Sem pressa, quase torturantemente atento a cada nuance dos significados que luzem sobre situações criadas mais pelas sombras de nossos movimentos desviantes do coração de histórias de amores e perdas (que se encontram e se entregam, sendo amor e perda simultaneamente), o escritor costura um manto verbal impecável a envolver esses indícios - porque parece, sempre, tratar-se de indícios e não de paixões cruas e explícitas, ficando o ''mirabolantes'' do título justificado pela natureza de desconcerto que possuem, nos surpreendendo sempre, mas sendo essa surpresa invariavelmente de um subtom. 

''The man I love'' narra o fascínio de um pianista de bar de um hotel de luxo por uma pseudo-princesa egípcia viciada em jogo de cartas. O pianista, através da força sonora de seus sinais e, sobretudo, de uma música em particular, enceta uma relação que parece encaminhá-lo para aquela figura tão irreal quanto desejável. A realidade, entretanto, mostra-se em seguida, só que de forma insólita. O destino do pianista vai longe, mas não chega ao Cairo. 

''Getúlio'', para o gosto do resenhista, é obra-prima desse escritor machadiano na condução e nas direções para onde caminha. Trata-se, mais simplesmente, de um segredo de família, que se desvenda de um jeito quase a recusar-se ao desvendamento. E mesmo depois de desvendado ainda carrega um manto, não mais de dúvida da testemunha assombrada pela descoberta, mas de renovado assombro. O que houve durante décadas, nas quais tudo parecia estar protegido por uma imperturbabilidade digna, agora, mesmo depois da morte de um dos impedimentos para que a revelação brote aos olhos de todos, ainda segue em seu temor pela própria febre. Tarde demais para o filho que, no enterro do pai, compreende afinal onde residiu o amor da mãe durante uma vida inteira. Não é para o túmulo que ela olha. 

O conjunto é homogêneo, num equilíbrio deslumbrante porque se sustenta impávido sob o peso de um sem-número de observações destiladas parcimoniosamente, num ritmo frasal que coleia até onde o ouvido sorri, e ali pára. Musical sem ser fácil, muito menos leviano. Psicológico além dos limites de certo psicologismo sem cansar o interesse do leitor, mesmo o leitor apressado. Muitos contos parecem receber o tratamento da novela, com um pé em Henry James, não fosse a síntese sintática, a limpeza e o corte (mesmo elegante) tão seco quanto preciso. James, justificadamente, falava por seu século. Edgard, pelo nosso. 

Os amores em torno dos quais se debruça a prosa exuberante (sem um grama a mais de gordura) do escritor penam por se fazer visíveis, bem ao contrário da forma um tanto vulgar ou desamorosa com que têm sido narrados por muitos artistas de tantas palavras e pouca atenção. Sem poesia, sem estilo, sem nada que se possa chamar de mirabolantes e cuja clandestinidade é de segunda linha, tais amores condenados precisam ler o livro de Edgard Telles Ribeiro. Saberão então que talvez nunca tenham amado de verdade. Saberão que seus possíveis segredos no máximo resumem-se às palavras ''traição'' e ''banal''. Saberão que do amor nunca se sabe ao certo e só quem se ampara claudicando nessa região delicada e quase impenetrável onde corpos buscam almas é que pode chegar aos dois.

PAULO BENTANCUR é escritor e crítico literário, colaborador de diversos periódicos do país. Autor de, entre outros, Instruções para iludir relógios (Artes e Ofícios, 1994, cronicontos), Frio (Sulina, 2001, contos), e a coleção Brincando de pensar (Artes e Ofícios, 2001, infanto-juvenil). Atualmente é Coordenador do Livro e Literatura da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre.