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Trinta e dois dentes
A mesma inquietação sufocante no ar pesado da noite permanecia suspensa
sobre minha cabeça, agora estendida em uma cama, outrora esborrachada
sobre a calçada. O sangue coagulado entranhou nos dentes. As narinas
doíam e sangravam com o atrito do ar. O oxigênio deslizava ressecado
pela garganta dolorida e feria meus pulmões.
Estava sonhando que recitava Ilíada diante de um espelho e meus dentes
caíam todas as vezes em que esquecia um trecho. O mais estranho é que
nunca li a Ilíada. Fiquei banguela.
"Canta-me a cólera — ó deusa — funesta de Aquiles Pelida..."
Foram minhas primeiras palavras ao despertar nauseado. Fiquei lá deitado
repetindo: Canta-me a cólera Canta-me a cólera Canta-me a cólera.
Senti meus molares cariados, pontiagudos, cravados no osso. Enquanto
deslizava a língua por toda a dimensão da boca, esbarrando em aftas e
dois recentes vãos, abertos a socos e pontapés, lembrava-me que já era
um homem. Sim, um homem que possuía uma arcada dentária completa e
saudável, como a de poucos homens, que pouco lhes restam na boca, a não
ser lamentações e gemidos.
Uma arcada que me permitia sorrir. Melhor exibi-la antes que mais alguns
golpes, me deixem sem a única coisa da qual ainda posso me orgulhar. Já
sou um homem e ainda possuo dentes, para com a boca escancarada,
gengivas inchadas, debochar da miséria que expia.
No espelho, admirado. Trinta de dois dentes fincados até a raiz.
ANA PAULA MAIA, carioca, 26 anos, autora do romance O habitante
das falhas subterrâneas editora 7 letras _ 2003 (coleção rocinante).
Participa da antologia 25 Mulheres que estão fazendo a nova literatura
brasileira, organizada por Luiz Ruffato, editora record _ 2004
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