Telhados de vidro

Ribeira da Mata é uma corujeira esquecida entre fragas. Conta uns cinqüenta cortelhos, talvez menos, e à sua volta só estevas e tojais. Lá no cimo do monte, como sentinela, está o moinho do Fonseca a gemer quando há vento e o grão espera a moidela. A terra naquelas redondezas não quer amanho e se não fosse, cá em baixo, a Galgada a dar bons milheirais e feijão de se admirar a gente não se compreenderia ali a existência daquelas almas.

Estávamos nos princípios de setembro, dum setembro quente e abafadiço. A manhã ainda vinha longe mas a aldeola acordava já. Na casa do Aleixo a porta rangeu a escancarar-se e umas tairocas ressoaram no calhau do pátio.

- Ó Maria!

- Senhor!

- Traz-me daí uma palheca para dar a estes animais...

- E o Aleixo mal acordado, a abrir a boca e a esfregar os olhos, pôs a soga aos bois e puxou-os até ao portão do alpendre.

Era o dia da feira de Montemor e ali esperava-se todo o ano por aquele dia que era o da folgança. A'aldeia despovoava-se; portas trancadas e tudo despovoava-se, montes abaixo, montes acima, para encurtar caminho. As cachopas vestiam andainas novas de dar nas vistas e os homens iam todos apurados.

- Ó Maria! Diz ao senhor pai que se avie.

E a Casimira, frigidas as filhozes, pois que o resto do farnel ficara aviado de Véspera, foi-se a Vincar as quedas. Cantarolava a matutar nos rabiscos da blusa que havia de mercar às escondidas do seu Aleixo enquanto arrumava as marrafas aloiradas como estrigas.

A Maria, sua única cachopa, já a puxar a casadoira, ia pensando na maneira de se subtrair à vigilância materna para o encontro com o Manel da azenha. E o Aleixo, dada a palha às vacas, media o grão a querer que cinco alqueires rendessem seis, deitando já a conta à ganhuça. Ajeitou a canga, puxou os animais para o carro, estendeu-lhe dentro uma esteira de bunho, cobriu-a com a manta de retalhos e, feito isto, veio a impaciência.

- Ó Casimira! Atão vamos ou não vamos?! Diabos levem tanta penteadela. O carro esperava na rua; alguns já tinham abalado a juntar-se aos ranchos do Simeiro, dos Casais Galegos ou, de S. Pedro que levava tuna.

- Vai indo home, c'a gente já t'apilha... - era a Casimira aborrecida que não sabia onde metera o cordão com a medalha.

E a carripana lá seguiu a gemer e a querer partir-se em cada cova, em cada barranco.

- Eiá! Anda Malhada...

Era o Aleixo a gritar em pé, vistas de alto, a escolher caminho.

- Arredem, ó cachopas!

E seguia ralasso através do campo imenso que margeia aquela parte do Mondego até entrar na estrada nova. Ali o movimento já era grande. Magotes e mais magotes de todas aquelas redondezas, todos aperaltados, a porem cores vivas na estrada poeirenta.

A feira, toda tão igual, tinha sempre para sabor da novidade: Ou era uma faixa carmezim, uns sapatos à moda da cidade, uma torta mimosa com passas e canela, um namorisco alinhavado, um escandalozito que dava para trincar uns meses ou um bom negócio meio apalavrado. Tudo ali se mercava, tudo dali poderia nascer, tudo ali tinha cabimento.

- Arredem cachopas! - Continuava o Aleixo, com a boca aberta em êxtase, feliz e de olhos brejeirotes.

- Onde vão vocês os dois? - era ainda o Aleixo que perguntava à Ana Bicha que batia desalmadamente no jerico,- ajoujado com semelhante bunda.

- Ai és tu, trastalhão?!... Olha! Vamos para Montemor os três... - e riu-se enquanto o Aleixo se ficava de cara à banda.

O sol apontava já ao longe a doirar os campos em redor. E as gandarezas, de grandes açafates, pediam ao corpo todo o seu vigor para ainda alcançarem bons lugares na feira.

- Ai que lindo avental!

- A Esménia leva umas saias tão curtas que se lhe vêem as coxas!

- Olha, olha! - Bradejaram todas ao ouvirem o toque de S. Pedro. E vêm com moda nova!...

Chegavam. O sol começara a sua ascensão e o pó levantava-se em nuvem grossa na grande praça. Tudo ali era movimento e barulho. Vendiam-se as coisas mais variadas desde as ceroulas de flanela às alfaias de cavador, desde a seca aos botelhos de gravanço. Mulheres apreçavam lenços garridos de Viana, homens de grandes bigodes habilmente retorcidos discutiam o preço do grão, garotos roubavam melancias e a raparigada cabrejava em redor do Zê Lomba que trouxera o harmônio. Os farnéis desapareciam à sombra dos choupos do caminho, pobres de chagas pintadas enterneciam quem passava e rlcalhoiços aflitos rebuscavam pela vigésima vez os bolsos do colete em cata da corrente de oiro que se lhes fora no aperto...

- Õ Aleixo! Não sei onde dianho se meteu a nossa cachopa!

- Deixa lá, mulher, que em a fome lhe apertando, aí temos.

Mas a ela nem o comer lhe lembrava, toda enleada nos braços do seu Manel. Segredavam coisas que nas mesmas circunstâncias a todos ocorrem ou então olhavam-se e davam grandes suspiros a calarem os desejos cada vez mais atiçados - e aqueles seios, que metiam cobiça, a tornar o pobre do Manel zaranzo.

A tarde avançava. Feitas as compras ajeitavam-se às sombras e os velhotes refrescavam as guelas nas tascas de improviso com lenços de nós nas pontas, à laia de boina espanhola, que o calor era de quilate.

- Ó Manel! Espera-me ao pé das peixeiras que eu vou pela minha mãe.

- Não te demores.

E a Maria adocicou o adeus com um sorriso prenhe de promessas.

A tarde declinava e a estrada era outra vez um corrupio. O sol estava por pouco, e quem queria ainda ir ajeitar a ceia punha-se a caminho. As tendas eram alevantadas, aparelhavam-se os jericos, recolhia-se a semente e entrouxavam-se as mercas. E depois era o reboliço da procura: O Zézinho que ainda agora ali estava mas que já se postara embasbacado mais além naquela roda. Era o Felismino da Engrácia que se não agüentava de tão esquinado sem se atrever a lembrar-se do sitio marcado para o encontro. Eram as cachopas da Manica para quem as horas não contavam que os robertos estavam coisa apurada. E o sol roçava já pelo coruto dos milheirais, lá ao longe, para Campizes.

- Atão qu'é da tua cachopa?

- Vai com as de S. Pedro - elucidou a Casimira toda convencida e sossegada. - Que a minha Maria, não é por ser minha filha, é mulher de tino?... - acrescentava. - Sim, que agora as cachopas, pouco há que aproveitar... Umas doidivanas! Olha a Esteva, a do Pardal!... Um estupor que se eu fosse rapaz, nem dada! Uma desavergonhada que se atreveu a dizer mal da minha Maria! Que como a minha não há!... Trabalhadeira e como aquilo prá costura!...

Mas a Maria, ia mais o seu Manel a ficar-se para trás que as falas de namoro sabem melhor em segredo. Passaram a ponteca e meteram pelo carreirito que dá para a Granja e ali iam os dois coladinhos por aquela tira que mal dava para um.

- Achega-te para lá - murmurava a Maria, quando passava vizinho ou gente que os olhava. Mas depois as mãos tocavam-se e ela logo se rendia às blandícias do seu Manel tanto mais que os salgueiros, ali na esquina, ofereciam uma cumplicidade sem reservas. E a noite apanhou-os já povoação passada, a meio da Cabeça Gorda. Ali nem viva alma. Só silêncio nos pinheirais à volta. E a Maria surpreendeu-se aflita:

- Tenho que esperar pela minha mãe. O melhor é voltarmos a Gabrielos e ficar na loja. E tu, prós Casais Galegos vais melhor pelo atalho...

- Já agora vou contigo inté casa e esperamos lá que eu cá tenho muito tempo - dizia o Manel a compor que ele sabia que pés na loja, encantamento acabado.

- Mas a gente prá'qui sozinhos!... Se nos topam... O que dizem?!... - aventou a Maria meio enleada, de corpo a pedir-lhe mais abraços e aqueles beliscôes que a punham toda em alvoroto!

- O melhor é o que eu te digo. Demais a mais já estamos aqui!

E arrastou-a com brandura, de mãos a agarrá-la pela cintura enquanto ela resistia molemente e no coração toda a vontade de ir assim até ao fim do mundo. De cabeça baixa, falas mais medrosas e com aquele enleio doce como nunca tinha tido, seguiu muito arrimada a ele, a dizerem coisas que nem ligavam, de cabeça perdida e o corpo todo em fogo. E lá muito atrás, ainda na estrada nova a Casimira que era língua de trapos punha pelas ruas da amargura a Esteva essa "desavergonhada que traz saias tão curtas que se lhe vê o traseiro!..."

- O melhor é ires agora que o monte já se avista - dizia entre abespinhada e desculposa que o Manel tinha-se adiantado.

- Ná, ná. Já d'agora vou inté ao fundo da ladeira. - E apertou-a mais, a beijocá-la toda que a noite cobria as vistas e ele estava como doido...

- Mau! Se eu sabia tinha-me ficado c'as outras - defendia-se a Maria ao sentir-se toda apalpada que o raio do rapaz estava como sôfrego e os seus olhos metiam medo! Mas as palavras começaram a ser um murmúrio atarantado e os protestos diluíram-se que o corpo, em quebreira, abandonava-se...


- O tio Aleixo, a modos que vem alegrote!

- Disse uma do rancho de Vila Nova que andava aos ovos e conhecia a Casimira.

- Guarde-a Deus, mulher!.. Aquilo há-de passar-lhe... - e virou-se para as do Roque que eram onzeneiras de fama a apontar a mulher dos ovos que se perdia, lesta, na escuridão - uma desavergonhada... logo que o home morreu deu-lhe cabeçada... tudo m'as porcas... que como a minha Maria! Não é por ser minha filha... mas como aquilo!...

VASCO Augusto Ferreira BRANCO nasce em Aveiro a 27 de Setembro de 1919. Em 1930, termina o Curso Comercial, na Escola Comercial e Industrial. Entre 1933 e 1935, freqüenta o Curso Industrial de Desenho e Pintura Cerâmica. Aí segue as aulas de Silva Rocha e Gervásio Aleluia, bem como as de modelação do escultor Romão Júnior. Em 1944, termina o Curso de Farmácia na Universidade do Porto, onde convive com um dos mais prestigiados professores da U.P., o Professor Abel Salazar, médico, pintor e teórico de arte. Em 1945, faz a sua primeira exposição individual. Inicia em 1947 uma colaboração regular em Mundo Literário, a revista dirigida por Adolfo Casais Monteiro. De resto, a sua colaboração em jornais e revistas vai continuar ao longo dos anos: Bandarra, Litoral, entre outros. A sua primeira produção literária em livro, Telhados de Vidro, data de 1952 e é uma edição de autor. Em 1955, funda com outros aveirenses o Cine-Clube de Aveiro; em 1958, surge o seu primeiro filme O Bebé e Eu, galardoado com o primeiro prémio no Concurso Nacional do Clube Português de Cinema de Amadores de Lisboa. A sua actividade ramifica-se: ministra um Curso de Iniciação Cinematográfica (1961) e profere algumas conferências em 1962.
A sua produção como pintor não diminui. Em 1963 colabora na Exposição Colectiva que tem lugar no Teatro Aveirense.