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Sujeito e objeto
No final do corredor, o número que procurava: apartamento 509. Tocou a
campainha e, em poucos instantes, a porta se abriu. Com certeza ela já
estava à espera. Viu-a recortada contra a luz da janela e a primeira
coisa que pensou foi que devia ser braba, pois era muito grande, muito
morena e tinha um buço. Chamava-se Jerusa e ganhava a vida dando aulas
particulares. Sua agenda era cheia, fora difícil conseguir aquela hora.
- Você é que é o Flávio? - perguntou ela - Maior do que eu esperava.
Entre.
Na sala pequena, havia tantos móveis, almofadas, quadros e bibelôs que
não sobrava quase espaço. Seguiu-a até a mesa redonda perto da janela,
esgueirando-se entre os objetos, com medo de, num daqueles gestos
estabanados em que era mestre, acabar quebrando alguma coisa.
Sentaram-se lado a lado. Diante dele, havia uma estante, onde um pierrô
com a cara de louça e o corpo de cetim lilás reinava sobre gramáticas e
dicionários. O boneco ficou olhando pra ele com um olhar parado.
- Quer dizer que está fraco em Português. - disse Jerusa.
- É, o professor não explica direito.
- Sétima série?
- Sim senhora.
- Bom, não vamos perder tempo. Me dá o seu caderno.
Enquanto ela examinava o caderno, observou-a disfarçadamente: os cabelos
compridos e crespos, os olhos puxados, a penugem escura descendo pelo
rosto moreno e o buço sobre os lábios grossos. Coroa, mas não muito,
diria até que mais pra moça, em se tratando de uma professora. Vestia
uma blusa de malha justa e uma bermuda. Vinha dela um cheiro de canela,
identificou logo pois gostava muito de canela e punha em cima de quase
tudo, banana, pudim, até pastel. Achou engraçado que a cor dela fosse só
um pouco mais clara do que a do pozinho que tinha o seu cheiro.
Tomou um susto quando ela levantou a cabeça e encarou-o, como se não
tivesse gostado que ele a observasse. Mas não devia ser isso, pois não
reclamou de nada. Falou apenas num tom parecido com o de todos os
professores:
- Vamos começar pelos termos da oração. O sujeito pode ser claro,
oculto, indeterminado ou inexistente. Isso você sabe, não é?
- Mais ou menos.- respondeu, com vergonha de dizer que não se lembrava
mais de quase nada.
- Faz este exercício aqui.
Pegou a folha que Jerusa lhe estendia.
- É pra dizer o tipo do sujeito?
- É.
- Acho que eu não sei.
- Tente.
Abaixou a cabeça sobre o papel, mas não conseguiu se concentrar no
dever. Tinha a impressão de que havia alguém com os olhos fixos nele e
isso prejudicava sua concentração. Ergueu a cabeça, mordendo o lápis e
fingindo que pensava na resposta, pra confirmar se ela estava olhando
pra ele, mas não estava, talvez fosse o pierrô lilás com seus olhos de
contas azuis. Distraída, ela fixava o recorte de céu que se via pela
janela. Aproveitou pra dar uma espiada nos seios, que se desenhavam por
trás da blusa, redondos, grandes, num sutiã de renda. Aquele era o tipo
de sujeito que não chegava a ser claro, mas também não era totalmente
oculto.
- Acabou? - perguntou ela, vendo que ele não escrevia.- Deixa eu ver.
Entregou do jeito que estava, não ia acertar mesmo. As mãos que
seguravam o papel tinham unhas longas, pintadas de vermelho, iguais às
de uma atriz loura de um filme de sacanagem que vira no vídeo de um
colega. Aquelas unhas primeiro acariciavam o pescoço de um homem, depois
iam descendo, descendo... Num gesto nervoso, levou a mão à cabeça e
coçou os cabelos da nuca, molhados de suor.
- É, não está sabendo direito. - disse a professora, após examinar o
trabalho - Mas isso você vai aprender rapidinho, basta prestar atenção.
Ele prestou. Os lábios grossos se abriam e fechavam, faziam bicos nos os
e us, pareciam sorrir nos is, destacavam as palavras que, arrumadas em
frases, eram enfiadas pelos seus ouvidos a dentro. O cérebro perturbado
por outras sensações, se confundia e não conseguia captar outra coisa
que não fosse o movimento da boca, o batom, a pontinha da língua que
aparecia nas pausas, umedecendo os lábios.
- ...e predicado nominal, quando o verbo é de ligação.
Entre o nariz e a boca, a penugem escura ia se cobrindo de minúsculas
gotas de suor. Quantas gotas cabiam ali? Cinquenta? Cem?
Ela devia ter percebido a direção de seu olhar, pois enxugou o suor com
o dedo e interrompeu a explicação.
- Que calor está fazendo hoje!
- É, tá quente, Dona Jerusa.
Jerusa. Era a primeira vez que dizia o seu nome. Quando disse Jerusa,
foi como se estivesse comendo uma fruta doce, mole, quase se estragando
de tão madura, um caqui, uma manga, um bago de jaca. Não, uma banana
dágua cozida fumegando, com uma porção de açúcar e canela por cima.
A professora voltou à explicação. Falava agora sobre predicativo,
objeto, adjunto. Seu pensamento, entretanto, se desviava dos predicados
da oração para os de Jerusa, mais concretos, as coxas suadas sob a mesa
- juntas, adjuntas, apostas, vocativas - e um objeto escondido entre
elas, que podia ser direto ou indireto.
- Está entendendo?
- Estou. Direto, sem preposição, indireto, com preposição.
O calor pesava. Teve a impressão de que o pierrô lilás o olhava
tristonho, na certa reprovando-o por não parar de se mexer, balançando
as pernas, coçando o queixo, e por não saber nem mesmo o que era um
adjunto adverbial. Queria ir logo embora dali, correr pra casa, onde
podia ficar em paz, sem sujeitos nem objetos, longe do perfume de
canela, do calor, dos lábios grossos, dos seios redondos e das coxas
nuas pulando da bermuda justa.
- Como você está suando! - disse a professora - Quer um pouco dágua?
Recusou a água, sentindo uma estranha perturbação, que se agravava por
ela não tirar os olhos dele. Viu que examinava a acne, o princípio de
barba, os braços e o peito onde os músculos já ensaiavam crescer.
Parecia que só agora ela o via de verdade. O seu rosto estampava uma
expressão nova, que podia ser curiosidade, surpresa, satisfação ou até
mesmo pena. Podia também ser uma mistura de tudo aquilo e mais alguma
coisa, que, esta, ele não sabia o que era.
Sem tirar os olhos dele, a professora se abanou com uma das mãos,
enquanto a outra afastava o decote da blusa e levantava os cabelos
- Hoje está mesmo quente demais! - disse - Se quiser, pode tirar a
camisa.
- Não precisa - ele falou depressa, embaraçado, sentindo a vergonha se
misturar a uma vaga e medrosa esperança que não sabia direito onde
colocar.
- Vamos continuar - disse Jerusa ainda mais esquisita, um pequeno
sorriso que estava mais nos olhos do que na boca, bem diferente da
professora de poucos instantes atrás - O aluno deseja ... digamos ... a
flor. Qual é o sujeito? Aluno, não é mesmo? E o objeto de deseja? Você
sabe?
A mão de unhas vermelhas tinha pousado na sua perna, ele sentia o calor
que vinha dela e parecia queimar a sua pele através do jeans.
- Qual o objeto de deseja, Flávio? - repetiu ela, aproximando o rosto do
dele.
- A flor - sussurrou - percebendo, por trás do mistério da oração,
outros mistérios que também precisavam ser desvendados.
Ela deu um risinho e acariciou seus cabelos desgrenhados.
- Muito bem. - disse, satisfeita.
Afastou a cadeira, levantou-se e arrumou melhor o pierrô lilás na
estante. Depois se voltou pra ele e concluiu num tom profissional:
- Temos que terminar agora, o aluno das cinco deve estar chegando. Volta
aqui quarta-feira no mesmo horário. Vamos retomar o assunto no ponto em
que paramos hoje.
(Publicado em Grandes peixes vorazes - 1997)
MIRIAM MAMBRINI é carioca, formada em Letras pela PUC/RJ. É
autora de O baile das feias (contos, Obra Aberta, 1994), Grandes peixes
vorazes (contos, 7Letras, 1997), A outra metade (romance, 7letras, 2000)
e As pedras não morrem (novela, Bom Texto, 2004). Participou das
antologias de contos 12 autores e suas histórias (Bom Texto, 2003),
Contos de escritoras brasileiras (Martins Fontes, 2003), entre outras, e
colaborou na revista Ficções. Ganhou vários prêmios literários,entre
eles o Stanislaw Ponte Preta (1º lugar, conto, 1991).
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