Sozinho

O ruído estridente do interfone me desperta do estado de entorpecimento que tenho vivido nos últimos dias. Meus olhos se entreabrem devagar. Primeiramente penso em não atender. Não quero ver nem muito menos falar nada com ninguém hoje. Por isso, fecho os olhos outra vez e continuo na cama. Mas a campainha irritante do interfone é persistente e insiste em tocar de forma aflita. Entreabro novamente os olhos e, muito contrafeito, penso, vou precisar levantar. A simples idéia de ter que me levantar me deixa muito cansado. Tenho me sentido tão exausto nesses últimos dias.

Eu tenho quarenta e sete anos e moro sozinho em uma grande cidade. Uma cidade cheia de gente que passa por mim e vai embora. Cheia de gente que vai embora de ônibus, de táxi, de carro. Para onde toda essa gente vai?
Este apartamento que aluguei recentemente é muito estreito. Há uma pequena cozinha, que também serve de sala de estar e de jantar. O banheiro é muito pequeno e tem barras de apoio nas paredes. Creio que o antigo morador mandou instalá-las, pois tinha dificuldades para se locomover. Mas eu não preciso delas para me apoiar. Pelo menos ainda consigo andar sozinho, sem a ajuda de ninguém. Isso já é um motivo de orgulho para mim.
O meu quarto tem uma janela pequena. Quando amanhece, demora para o sol entrar. Mas eu geralmente deixo essa janela fechada. Comecei a trancá-la depois que um pássaro estúpido veio voando sei lá de onde e entrou no meu quarto. Acho que ele estava machucado e, por isso, ficou quieto, escondido debaixo da minha cama. Eu não o vi entrar, pois deveria estar no banho ou na firma. Mas senti o cheiro horrível quando voltei do trabalho um dia e, seguindo o fedor, encontrei o pássaro morto. Ele tinha o peito muito ferido, sem penas e com arranhões profundos na carne. Deve ter sido um gato ou outra coisa terrível que fez aquilo. Esse pássaro provavelmente agonizou dias naquele canto até finalmente morrer. Mas, de qualquer forma, ele morreu por falta de cuidado e, desde então, não costumo abrir muito a janela.
Eu trabalho a maior parte do tempo aqui no meu quarto, no meu computador. Há meses estou tentando desenvolver um sistema de informatização e automatização para um grande banco que fica no centro da cidade. A idéia desse sistema de dados é emitir com maior rapidez e segurança os relatório de lucros com a cobrança de juros e multas. Mas, hoje em dia, estou tendo dificuldades até em criar esse simples programa de computador. Não estou conseguindo identificar todos os erros na sintaxe de programação do sistema. E esses mínimos erros não permitem que o programa funcione direito. Meu prazo está se esgotando e, se não entregar o banco de dados a tempo, a corporação pode me afastar e designar outro funcionário para continuar o projeto.
O problema do meu trabalho é que ele tem que ser sempre exato. Não pode conter falhas. É um trabalho muito importante e necessário. Não é como o trabalho de um antigo colega meu que pesquisava literatura. Nós dividíamos um apartamento na época da faculdade. Dividíamos é um termo bem apropriado, pois eu não conseguia me misturar com o tal cara. Eu separava as minhas coisas das dele. Na geladeira, a minha comida era identificada com uma etiqueta. Cada um colocava suas roupas, seus sapatos, suas revistas em um lado do armário. As minhas coisas eu colocava em um canto, as coisas dele, pela lógica, deveriam ficar no outro canto. Mas ele era um desorganizado e gostava de misturar tudo.
Vitor era o seu nome. Falava as coisas mais estranhas, tinha a mania irritante de ficar tocando nas pessoas quando conversava com elas. Mas o que eu mais odiava nele era como ficava olhando dentro dos meus olhos quando falava comigo. Era perturbador. Mas, enfim, esse meu colega estudava literatura, estava escrevendo sua tese de doutorado sobre um escritor qualquer. E ainda era financiado pelo governo! Imagine só, o governo dar dinheiro para alguém estudar literatura! Para que serve literatura? Ninguém quer ler nada hoje em dia. Todo mundo trabalha muito e só quer sentar à noite diante da televisão. E literatura é só um monte de livros que contam histórias inventadas de gente que não existe. No que isso ajuda as pessoas? As pessoas têm problemas reais, vivem no mundo real e precisam de profissionais que comprem e vendam, que inventem máquinas novas, que construam viadutos de concreto armado, barragens, hidroelétricas, presídios, não de poetas e outros desocupados que fiquem lendo livros e escrevendo livros sobre livros que não ajudam a solucionar nada.

A campainha irritante soa mais uma vez. Eu permaneço deitado na cama, como se não tivesse escutado o interfone. Mas quem poderia ter vindo me chamar? Isso não faz sentido. Eu nunca trouxe nenhum amigo aqui em casa. Creio que ninguém nem sabe onde eu moro, meu endereço, meu telefone. Mas seja lá quem for, continua pressionando o botão lá embaixo.

Há pouco tempo descobri que esse prédio onde moro não tem zelador. É um edifício pequeno, sem escada de incêndio nem área de lazer. Mas o corretor não mencionou nada disso quando assinei o contrato.
Morar em um lugar tão pequeno tem suas vantagens. Não preciso pagar ninguém para fazer faxina. Eu mesmo posso organizar as coisas, sem perder muito tempo com essas insignificâncias da vida doméstica. Mas nem isso tenho feito ultimamente. Os pratos sujos, as panelas vazias e os copos encardidos estão empilhados sobre a pia. Mas não faz mal, não recebo visitas aqui mesmo.
Minha mulher foi embora há alguns anos e levou minha filha. Levou meu carro e a metade do que era meu. Naquela noite, eu cheguei atrasado para o jantar mais uma vez e tudo que encontrei foi um bilhete. Nas palavras dela, eu tenho "a sensibilidade de quem racha lenha". Mas eu não me lembro de ter ouvido ela reclamar uma vez sequer. De qualquer forma, eu não entendi muito bem o que aconteceu. O que ela fez não foi muito racional.
Desde então fui me mudando para lugares cada vez menores. Afinal, para que uma casa grande se sou só eu agora?

Essa campainha continua emitindo seu som metálico e eletrônico. Muito me admira que esse interfone ainda esteja funcionando. Há alguns dias uma forte chuva desabou sobre a cidade, arrancou postes, destruiu árvores, arrastou carros e puxou pessoas para dentro dos bueiros escuros. Eu estava em casa durante essa tempestade e pude ver da janela um raio de luz espocar entre as nuvens. Ele atingiu a terra com um estrondo poderosíssimo. O clarão foi tão forte, mas eu não consegui enxergar nada. Meus olhos não puderam suportar tanta luz e eu fiquei cego por uns instantes, caminhando sem rumo pela casa e tropeçando nos móveis. Mas nos atenhamos aos fatos concretos. O fato é que desde essa descarga elétrica, todos os aparelhos não estão funcionando mais. O rádio ficou mudo, não se vê nada na TV e as coisas que estavam na geladeira derreteram e começaram a apodrecer. Só meu computador não queimou, pois eu havia desconectado o plug da tomada pouco antes da chuva. Mas já iniciei uma luta com a companhia energética, pois quero ser indenizado. Alguém terá que pagar pelas minhas perdas e pelos meus danos. Eu não quero pagar por eles. E não adianta aqueles executivos engravatados virem me dizer que os raios e os trovões não são responsabilidade deles, que essas forças da natureza são incontroláveis, e blá blá blá. Se as forças da natureza são mesmo incontroláveis, como conseguem barrar um rio gigantesco, construir uma usina e gerar 127 volts para o meu consumo? Não, não me venham com essa, senhores. Eu não acredito nessas historinhas que vocês contam para driblar os promotores e não pagarem indenizações. Eu não sou um imbecil que acredita em historinhas, em fenômenos e em literatura. Bem ou mal, eu sou um homem prático e só me atenho a coisas exatas.

Mas essa campainha não vai parar de tocar. E, portanto, muito contrariado, me levantar da cama. Não sei se já é dia ou se ainda é noite. A luz do sol não entrou até agora. Fico sentado na cama e olho para o meu colo. Minhas pernas estão finas e brancas. Há pouca carne grudada aos ossos. Seria pior se eu tivesse muita gordura acumulada. Nessa fase da minha vida, passei a eliminar tudo o que não fosse necessário. Como um balonista que vai jogando as coisas fora para poder subir mais alto em seu balão.
Isso começou, na verdade, depois que minha mulher me abandonou. Decidi me mudar para uma casa menor e, ao encaixotar as coisas para colocar no caminhão, optei por me desfazer de velhas cartas que ela me escrevia, seus equipamentos de ginástica, as redações dos seus alunos, seus livros de poesia e até um violão sem cordas. Joguei todas essas coisas fora. Só espero não ter me desfeito de alguma coisa que fosse importante.
Mas chega de divagações. O fato é que me levantei da cama com um pouco de vertigem e caminhei pisando duro até o interfone. Coloquei o fone junto ao ouvido. Não escutei nenhum som. Então perguntei, quem é? Uma voz respondeu nervosa, oi, Elizeu, aqui é o Ademar. Preciso lhe falar o que está acontecendo comigo. Tem sido tão difícil. Posso subir?
Eu estranhei tudo aquilo e disse, escuta, aqui não mora nenhum Elizeu. A voz de homem, meio chorosa, perguntou, não é o Elizeu? Mas o Elizeu me disse que morava aí, no apartamento 35. Eu esbravejei, o Elizeu mentiu para você. Aqui não mora nenhum Elizeu, não Senhor. Agora dê o fora daqui, pois não mora ninguém aqui além de mim, Vicente M.............
Parei subitamente antes que pronunciasse o meu nome inteiro. Como pude ser tão descuidado? Quase dei meu nome a um desconhecido.

Por um minuto fiquei petrificado. No rosto um semblante de espanto. E se isso foi um truque e o homem lá embaixo é um assaltante? Agora ele sabe meu nome, ou parte dele, meu endereço e até o número do meu apartamento. E o principal, agora ele sabe que estou sozinho. E se ele enganar algum outro morador e conseguir que lhe abram o portão? Esse edifício não tem porteiro nem zelador. Eles foram substituídos por aparelhos eletrônicos. E se essa pessoa entrar aqui no prédio e vier atrás de mim. Ele sabe que estou sozinho, que não tem mais ninguém aqui. O que eu faço? Essa é uma cidade violenta.
Estou com medo. Porém, não é só do homem que agora sabe tudo sobre mim. Sabe meu endereço, meu número, que estou só e sabe até uma fração do meu nome. Antes de a campainha tocar eu já estava com medo. Antes de acordar eu já estava com esse sentimento comichando lá dentro do vácuo do meu peito. Um sentimento que não consigo classificar, que não tem nome.
Mas isso não faz diferença. O meu prazo está praticamente esgotado e não vai fazer diferença se vou conseguir terminar meu trabalho ou não. Pensando bem eu já nem me importo. Acho que eu estou virando literatura.

RICARDO DA SILVA SOBREIRA é mestrando em Teoria da Literatura pela UNESP - Universidade Estadual Paulista, câmpus de São José do Rio Preto. Em sua pesquisa, patrocinada pela CAPES, Sobreira estuda as estratégias ficcionais do Minimalismo literário em contos do escritor norte-americano Raymond Carver. Sobreira é autor de vários artigos sobre o gênero conto, entre os quais destacam-se "Talking About the Procedures of Raymond Carver" (2002), publicado na página
 <http://world.std.com/~ptc/main.html>,
site dedicado à vida e à obra de Carver e "O papel da indeterminação no conto pós-moderno" pela Revista do Grupo de Estudos Lingüísticos de São Paulo, no prelo.