Ilustração: Rosemary Aliukonis

O Corpo Morto

Major ex totus stupor etiam esses gigantous deliramenta.

A maior de todas assombrações também é o gigantesco dos devaneios.


Como podemos ser tão rudes a ponto de observarmos outros padecerem? De qual infâmia brotamos para alegarmos racionalidade ante simplória selvageria? Nosso 'Alef (1) parece-me substituído pelo desprovido A?n (2) . Em qual insanidade chafurda este mundo? Até quando, Deus meu, suportaremos tal loucura? Até sermos atingidos? Assim sendo, sou eu um espécime vivo do contágio. Trago dentro do meu 'Alef a maldição do A?n que o macula com o caos dos vislumbres fantasmagóricos, com os norteamentos das falas inaudíveis, com as sensações das coisas intangíveis.

O mundo pintado do mais intenso escarlate, infestado de glóbulos sanguíneos, esguichou em mim um espirro nefasto. E ao dar-me conta de meus atos, a vítima já havia descaído no ar, rumo a escuridão das ágeis águas do rio. Entre nuances turvos de água, vislumbrei-a tal qual peixe. Entretanto, na mais profunda das fendas do meu ser onde teias de aranhas se fazem miríades de vezes mais presentes do que suas criadoras, sabia eu de certeza que não aniquilara um peixe e sim findara com a vida duma mulher.

Ó Deus implorei a ti pelo castigo diante da realização da blasfêmia ousada por poucos! Pedi-lhe pela mais absurdas das condenações, pois não me deixaria seguir detido pelos meus semelhantes, aos seus tribunais impregnados de pessoas cuja alma há muito fora perdida.

Como pude ser rude a ponto de ceifá-la da existência? Se ao menos eu a conhecesse... De que adiantaria o meu conhecimento a respeito daquela pessoa? Em quais níveis meu ato seria afetado? Ao patamar da não criação? O que teria feito ela a minha pessoa? Quais encantos foram usados para conduzi-la junto a mim até este desolado pontilhão? Vivas como num passeio, nossas pegadas, emparelhadas, apagavam a simplória possibilidade de luta. Então, Deus, o que fizera eu?

Ao longe, o corpo viajava de forma desconcertada ao encontro da margem do rio, não mais arfando o líquido vital que acabara por matá-la.

Abaixo de um céu imundo em sangue, abutres pressentem a escassez de suas fomes.

Por mais resistências usurpadas por minhas fibras da natureza, a incredibilidade vergou-me o corpo em igual facilidade a de um forjador de pregos a medida em que ela, vítima do meu delírio homicida, chafurdava o semblante na lama.

Seria aquele abismo existente entre a ponte e o rio o verdadeiro limiar existencial; aquilo que intitulamos como morte?

***

Para ela foi-se os dias dos sonhos, as décadas das ilusões, as eras dos desejos. Foi-se o mundo e com ele desapareceram os entes queridos. As lágrimas por todos ansiadas poderiam não mais escorrer, apesar de o esperado motivo ter se apresentado de súbito.

Tal como ela, a fatalidade me surpreendeu.

Ali tudo ficara para o passado como uma mala mofada entregue ao destino contido numa estação vazia. A mulher era mais nada; nem uma efêmera fração do que fora num dia qualquer. Talvez uma consciência demasiado pesarosa quanto dolorosa. Inclusive lhe sendo passível a recordação de um punhado de ensaios encantados - visões de um futuro o qual jamais veria concretizado. Forçosamente atada à rendição, ao próprio lamento, ao meu terror.

Quanto a mim, ansiava mais do que tudo em vida, abandonar meu eu. Surpresas como aquela não seriam mais bem-vindas. Porque o amor desabitara meu coração. Não enxergava mais oportunidade em saborear as graciosidades em vida. Sempre que cogitasse ser apenas normal haveria o lúgubre ato a perseguir-me implacavelmente existência afora. Estava entregue a maldita agonia desvencilhada da vítima. A tristeza por ter sido eu o algoz daquilo; por ter sido eu o desajuizado que desatara os nós que a mantivera presa a este mundo - vil, é verdade -, mas seu mundo.

***

Posterior as chuvas, todos os arco-íris desistiram de brilhar. Estagnou-se o ar transformando as agitadas árvores em estátuas sem-graça. Sereno, afável, surgiu o silêncio incomodando-a. Falas? Jamais! Insignificância acobertava tudo. Inclusive a leveza daquele drapejar que numa hora... minutos atrás arranhara-lhe o corpo para lhe expor o semblante de cianóticos lábios, repletos de terra, para o céu.

Quem poderia afirmar que minha vítima poucas vezes percebera como as nuvens conduziam suas formas abstratas à semelhança dos vivos tanto quando das nossas criações? Ou se, noutras tantas situações, se deparou com o próprio semblante a lhe devolver o sorriso no céu? Talvez tivesse como o derradeiro desejo agraciar a lua com uma simples olhadela. E todos os sentimentos, todas as ânsias, lamentos e agonias, lhe seriam úteis para quê? Para morrer no final?

Por mais que se tente expressar em palavras um grotesco fato, o mais experiente dos redatores não conseguiria transpor ao papel todas as forças que acometem um ser em determinado instante de descoberta. A secura assoladora dos desertos abateu-me a boca. Trêmulas, as mãos impregnadas de maligno suor tentaram desembaçar-me as têmporas no mesmo ínterim em que o terror da verdade desvencilhava-se do lamaçal, das águas do rio, para erguer seu corpo morto feito vivo. Retinas (creio eu) outrora desfalecidas encontraram nas minhas semelhante fulgor. A sensação sobre a minha tez, além do rigor de uma barra de gelo, era de que a vitima ponha em mim a culpa pelo orgasmo vetado ao seu corpo.

Á minhas pernas o peso de toneladas de pedregulhos somou-se. Era impossível mover-me por mais intensa que fosse a tentativa. Talvez fosse esse o meu castigo implorado aos céus. De chofre, me senti comprimido por um moedor de carne, em especial a região do pescoço. Senti-lo daquela forma, causava-me mais norteamento do que o mais obscenos toques femininos. Não resistiria, tinha consciência disso. Aquele seria o dia...

Insistentemente na margem do rio, a vítima fitou-me dentro dos olhos. Tinha os braços erguidos não somente na direção do pontilhão onde eu estava plantado como, também, apontava seu dedo enrugado na minha direção, debutando sua beleza cadavérica. Tornara-se uma segunda pele a sedosa combinação a cobrir-lhe o corpo de seios miraculosamente tesos. Os úmidos e dourados cachos de cabelo acentuavam como negra tinta sob uma frase pouco perceptível todos os traços do semblante. Na tela expressionista que era aquela face, uma boca de lábios delgados, arroxeados, tecia perfeitas combinações com as maças graciosamente delineadas tanto quanto com o nariz afilado logo abaixo dos olhos mais moribundos que já vi em uma face. Para meu completo desespero, ambos refletiam ódio, sede de vingança em toda aquela profusão de azul sepulcral.

O gosto metálico do feito era o que realmente tornava tudo abjeto.

A loucura mostrou-se suficiente capacitada a persuadir-me a ir a antros cuja sanidade jamais me permitira conhecer... Minha existência que jamais rejeitara a própria alma rendera-se a perdição, rogando infâmias aos céus e aos infernos, onde desuses sem face gargalhavam em suas nuvens de algodão e chifrudos demônios realizavam orgias inimagináveis. Diante da desvairada realidade, abateu-se sobre o mim o ser desalmado. Às deusas somaram-se as cortesãs de Lúcifer para sorrirem sorrisos de escárnio ante minha sinistra possessão.

Das margens do rio, a mulher desaparecera entre alienígenas figueiras-de-bengala (como toda aquela exorbitância de raízes aéreas abortadas das extremidades dos galhos ao chão repleto de seixos), entre os amaldiçoados salgueiros e pinheiros cuja existência ali seria impossível.

O arrepio mais assombroso já sentido varou-me o corpo, eriçando os pêlos, me dando o desconcerto como soberbo presente no diminuto interior de uma caixa esverdeada, amarrada com fitas de cetim.

Na extremidade oposta da pista de chão batido e densamente molhado, ela surgiu. Ainda trazia os seios rijos a perfurar o vestido umedecido. Ainda trazia o quadro expressionista em lugar da face. Ao longe, mesmo estando eu consciente da sua morbidez, senti a beleza daquela mulher.

"Quando viva, deslumbrante dama", declarou. "Quando morta por másculas mãos, um amontoado de carne rejeitada pelo chão, entregue aos urubus içados no ar não mais respirável. Senhor... Por qual infame motivo ceifara de mim tão gracioso destino? Quando deveria ser eu sua eterna companheira... quando deveria ser do meu ventre todas as suas crias? Deveria todas ser eu, não?".

Desgostos revolvidos entre vermes debaixo da recente descoberta afloraram por toda minha pele, enquanto um sol desfraldado crepitava no horizonte, rasgando o ventre do dia e nele esguichando minhas desgraças, o meu penar, a minha dor.

***

Verdade, o retrospecto, em determinadas situações, poderá currar a pior das chagas. Noutras, o regresso transforma-se no passo atrás que não deve ser executado. Um regressar que trás consigo, dentro de um cesto a tira-colo, amargas lembranças, feridas reabertas com ferro em brasa, o odor da carne queimada - minha carne... queimada.

Desgraça maior não poderia advir. Assassinara minha esposa, a mulher com a qual gostaria de ter sobrevivido à vida para em meus termináveis dias reconfortar a cabeça em tão feminil ombro. As declarações da falecida, estagnada em toda sua falência distante de mim, atiçaram as brasas da fogueira das recordações. Do translúcido vislumbre, extraí a credibilidade de que nossos corpos moveram-se sim abraçados, sorridentes e molhados da contemporânea precipitação.

Demudei a visão da irrealidade do vislumbre para a realidade igualmente fantasiosa insistente em me circundar. Em pé permanecia minha falecida senhora. Em sua face tanto quanto por todo seu corpo se via o rigor mortuário. Alguns pontos do semblante já demonstravam equimoses arroxeadas. Buracos Negros declinaram do espaço sideral para todo redor dos olhos desfalecidos.

Não sei explicar como, mas me movi para adiante, na direção dela. Quando lhe toquei a face, todos os temores visíveis em tremedeiras não mais residiam no meu ser. Beijei a morta tal como feito nos primórdios dos nossos encontros - olhos dentro dos olhos. Em seus gélidos braços me deixei ser envolvido. De uma forma estranha, querendo ou não, novamente éramos nós.

"Jamais deixei de amar-te" Entre lágrimas, minhas palavras fugiam dos meus lábios.

"Eu sei, caro amado".

"Jamais a esqueceria por completo. Só lamento não me recordar do motivo que me impelira a lançar sobre ti a extinção".

"Não recordas, porque não fora você quem me assassinara".

"O que dizes, amada minha?!".

"Não o que digo, mas o que enxergas. Enxergas eu nas águas turvas do rio quando é você quem bóia, esvai-se e segue o perpétuo trajeto".

Assim sendo meu fado, desapareço, entre as figueiras-de-bengala, entre os amaldiçoados salgueiros na mesma linha traçada pelo rio por entre os pinheiros. Sempre assistindo as mutações nos relevos dos seixos. Sempre ansiando ter sido eu o homicida.

1 - 'Alef - Segundo o alfabeto Fenício significa Espírito Doce.
2 - A?n - Também de acordo com o alfabeto Fenício, A?n significa o Espírito Rude.