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História natural
Quando as outras moléculas começaram a se agrupar, eu avisei que não ia
dar certo. Alguém me ouviu? Claro que não. Talvez o fato de que nenhum
de nós possuísse ouvidos naquela época deva ser considerado atenuante
para a presunçosa desatenção deles. E, depois de algum tempo, para que
não me chamassem de antiquado, misantropo ou démodé, também eu me
agrupei. E nos transformamos em células.
A vida de célula não era má. Era até, na verdade, bastante agradável,
embora tenha sido um pouco complicado, para mim, assimilar o conceito de
dentro e fora. Mas a invenção das membranas acabou tornando mais fácil
distinguir quem era eu e quem era o resto do mundo. A parte que eu mais
gostava, nesses tempos de célula, era a divisão celular. Era um ato que
começava solitário, quase masturbatório, até que, num orgiástico romper
de membranas, eu me tornava dois. Então nós dois virávamos quatro. E,
antes que nos déssemos conta, nós quatro já éramos quatrocentos
trilhões. Uma festa. Só que daí alguém voltou com aquela velha conversa
de se agrupar. Já não estávamos agrupados o suficiente? Avisei, de novo,
que não ia dar certo. De novo, ninguém me ouviu. De novo, acabei
seguindo a maioria. E me tornei organismo multicelular.
Vendo a coisa em retrospecto, não posso dizer que tenha sido um mau
negócio. Há um certo prazer lúbrico na vida multicelular. Meu principal
passatempo, naquela época, era o cultivo de apêndices externos. Flagelos
natatórios, tentáculos, barbatanas, uma infinitude de protuberâncias
capazes de balançar para lá e para cá. Porém o apêndice externo mais
divertido de todos, sem dúvida, era o pênis. Não ajudava nem um pouco na
locomoção, mas era ótimo para penetrar nos orifícios dos outros
organismos multicelulares. Sim, foi quando descobrimos o sexo. Ficamos
durante milhões de anos trepando como loucos no fundo do mar, sem que
ninguém nos incomodasse, até que um daqueles chatos cheios de opiniões
sugeriu: "E se a gente fosse para a terra firme?". Mais uma vez, avisei
que não ia dar certo. Foi inútil. Ninguém me ouviu, apesar de quase
todos nós já possuirmos ouvidos ou algo semelhante. Decidi acompanhar um
bando de imprudentes nessa aventura maluca, só para ver a confusão que
eles armariam. Acabei rastejando na areia quente, debaixo de um sol que
me torrava as escamas.
Que tolo eu fui, quando me condenei à eterna indecisão da vida de
anfíbio. Nostalgia é uma palavra salgada, como o mar que me viu nascer.
E foi num ímpeto de autodefinição, numa busca sôfrega por alguma
identidade mais sólida, que acompanhei os outros rumo ao interior
daquela imensidão de terra. Quando me dei conta, já era um dinossauro.
Não me senti feliz como dinossauro. Eu ainda sofria de saudades da
existência simples de molécula inorgânica. Nós, dinossauros, éramos uma
estirpe mutável e quase tão indecisa quanto os anfíbios. Não éramos
lagartos. Não éramos mamíferos. Aliás, naquela época desprezávamos os
mamíferos, aquelas asquerosas bolas de pelo com rabinhos cor-de-rosa.
Substituímos a pele lisa de anfíbio por uma casca grossa cheia de penas.
Sim, penas. Éramos todos empenachados, até os mais ferozes e carnívoros,
embora ninguém soubesse para o que serviam as penas. Até que algum
engraçadinho espalhou o boato de que as penas serviam para voar. E
viramos todos aves.
Eu sempre odiei voar.
Hoje vivo numa gaiola, na área de serviço de um apartamento no décimo
segundo andar de um prédio na Avenida Atlântica. Meu dono, que ironia
sádica, é um mamífero. Ainda não pude constatar se ele tem um rabo
cor-de-rosa, mas sei que ele não é mais uma bola de pelo: ficou careca
aos vinte e cinco anos.
A forração de jornal da minha modesta prisão muda todo dia. As notícias
e editoriais me deixam aterrorizado com o que acontece no mundo.
Minha única alegria, nesta vida gradeada, é bradar sem descanso, em
linguagem de canário, a todas as formas viventes que possam me escutar,
a todos aqueles ambiciosos, lunáticos, porraloucas e descompensados que
decidiram abrir mão da pacata existência molecular para poluir o mundo
com o milagre da vida: eu avisei, não avisei?
MAX MALLMANN
nasceu em 1968, em Porto Alegre (RS). Em 1997, recebeu o prêmio
Açorianos, concedido pela secretaria de cultura de sua cidade natal. Seu
romance Síndrome de quimera, publicado pela Rocco, foi finalista do
prêmio Jabuti em 2001 e foi vendido em 2003 para uma editora francesa, a
Éditions Joëlle Losfeld. Zigurate – Uma fábula babélica é o quarto livro
de sua carreira como escritor, iniciada em 1989. Casado com a também
escritora Adriana Lunardi, Max Mallmann atualmente mora no Rio de
Janeiro e trabalha como roteirista da TV Globo – são dele a novela
"Coração de estudante" (2002) e episódios da soap opera adolescente
"Malhação" (2001/2002).
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