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Ciclistas
O homem cruza a rua até o Parque Público.
Quando atravessa o portão, ajeita-se na bicicleta, dá o primeiro
impulso. O ar corta suas bochechas como uma plaina; formam-se lascas em
torno da boca de lábios secos. Há pessoas que, atraídas por suas roupas
singulares (terno xadrez, calças vermelhas, sapatos bicudos e dourados,
o chapéu de arlequim, terminando tricorne) param ao longo do passeio,
para admirá-lo. As crianças sorriem, lhes apontam o dedo.
Logo depois, chega Sílvia Pina. Como é de
costume, antes de iniciar seu expediente no escritório, dá um passeio de
bicicleta no Parque Público. Vê-se a maleta pendurada no selim. Veste
saia preta, suéter azul. Cabelos louros e soltos. Sapatos pretos, meias
até os joelhos. Óculos.
Ela caminha entre a massa de árvores de um
lado, do outro o lago que ocupa metade do Parque. No centro, emergindo
da água, a estátua de um homem, com roupas campesinas, tocando flauta.
Feito de bronze, um alforje a tiracolo pende-lhe do braço. De pé, no
topo da gruta, cujo acesso se dá por uma ponte, espécie de píer que liga
a alameda com seu interior. Ao fundo, esfumaçados sob o céu de inverno,
destacam-se os prédios, fábricas, armazéns.
Sílvia Pina distingue o homem de chapéu
tricorne, avançando à sua frente. Ao virar à direita, num bolsão de
pequenas árvores vê um grupo de velhos jogando cartas. Depois, de uma
sebe de buxos, sai uma menina com um cachorrinho. Ela atira um objeto
sobre Sílvia Pina que, assustada, consegue desviar a tempo de não
atingir o cachorro correndo pela alameda à procura do brinquedo. Uma
velha dá de comer aos pombos: aves inchadas, pretas e brancas, de olhos
vermelhos.
As folhas das árvores refletem-se nas
roupas do homem. Sílvia Pina percebe que nas pontas de seu chapéu
tilintam guizos. Que mal há em segui-lo?, ela pensa. Agora, já
alcançou a ponte, flutuando na água. À esquerda, os pedalinhos
enfileirados parecem pássaros brancos. O vendedor dos bilhetes, sentado
num banco de madeira, fuma cachimbo.
O homem chegou ao meio da ponte. Sílvia
olha para o alto: as feições bonachonas da estátua a agradam. A flauta,
ereta e silente, cobre metade do caminho. Parece que a escultura está a
atrair alguém que se esconde na massa compacta de árvores. Dali, olhos
curiosos devem espreitá-la, aguardando que comece a tirar uma canção do
instrumento. Então, irão sair do meio da folhagem e, numa fila, serão
guiados para dentro da gruta, onde pressentem um lugar de proteção.
Acolhimento: não há dia em que se encontre
essa palavra no vocabulário de Sílvia Pina. Numa daquelas formas
enevoadas dos prédios que surgem ao longe, paira seu apartamento. O que
sente? Frio, frio. Pequeninas nuvens que cortam suas janelas, sol,
chuva. Deitada na cama, vendo a cidade se estender como uma gigantesca
artéria, interrompida por esse corpo estranho que incha e encolhe, em
posição fetal, enrolada num lençol, numa manta, lembrando-se do
escritório. Se não fosse por ela, fluiria novamente a cidade, sua
multidão, transitando normalmente pelos seus canais. Mas ela, como um
coágulo impedindo a corrente, alcança a gruta, pousa a bicicleta de
encontro à parede de rocha limosa, escuta um ruído ciciante no interior,
como de uma fonte.
Sente calor envolver seu corpo. Dentro da
gruta, há um tanque de água. Tão limpa, pode olhar o fundo de rocha, as
diversas lâminas de pedra formam uma cadeia de rugas calcárias. Nenhum
peixe. De uma abertura no teto entra a claridade cinzenta do inverno.
Mas Sílvia procura pelo homem e o vê, de pé, na outra margem do tanque.
Ele segura o guidom da bicicleta. O rosto
descascado. Lascas de pele, como farpas. Parece que é feito de madeira.
Sorri. Sílvia Pina observa-o como se diante de um ente saído de uma
árvore, pois o chapéu de três pontas lembra uma copa, em cujos galhos
brilham frutinhas de metal.
A figura cresce ao longo do tanque. Seu
reflexo na água se expande, o rosto ocupa, por um momento, todo o
diâmetro; não consegue encontrar seus olhos, como duas cavidades ocas,
comidas por cupins. Quente, muito quente, o sussurrar da água escorrendo
pelas paredes da gruta, enchendo a bacia de pedra. As mãos abaixo de sua
saia, Sílvia se deixa ser absorvida pelo homem refletido na água,
quente, como num batismo. Arde, dentro e fora, as mãos agora encontram
seu pescoço, tanta ardência, as costas batendo no chão de pedra, ar,
não, ar, a árvore possui um rosto, aliás, todas elas, a alameda com
rostos, árvores de chapéus tricornes, com frutinhas tilitantes...
, noite. O Parque Público fechado. Só o
guarda noturno passeia pela alameda. Brinca com o cassetete, golpeia o
ar. Assobia uma canção. Tão frio, veste um casaco por cima da farda.
Acabou de comer um sanduíche, termina de mastigar um pedaço de maçã,
cospe os caroços no chão. Saindo da alameda, vê a estátua, cuja cabeça
encontra-se encoberta pelas nuvens. A ponta da flauta sobressai, como
uma buzina, voando. Bem pequena, a gruta, o interior iluminado. Se o
guarda resolver atravessar a ponte, verá a bicicleta encostada na
entrada. Lá dentro, a mulher à beira do tanque de água, rindo, os olhos
ocupando o rosto inteiro, a saia levantada até a cintura, os óculos no
fundo da água.
Mas não, ele avança pela direita. As
árvores parecem cantar. Uma canção como que de uma flauta. Alguém deve
estar tocando uma, atrás desses troncos despidos. O guarda pára, tenta
escutar mais atentamente, olhando para o vazio formado por duas árvores.
É só o vento de inverno, ele pensa. Melhor voltar para sua cabine de
vigia, aí se aquecer.
Em frente a um bar, encostada num poste, a
bicicleta. Dentro do estabelecimento, ocupando uma mesa próxima ao
balcão de bebidas, o homem retira o chapéu tricorne e o pousa sobre o
tampo. Ninguém parece se assustar com o fato de que, do lugar onde está,
ele dê a impressão de não ter olhos. Mas isso, provavelmente, se deve à
luz ambiente, bastante precária e, ainda, de que a sombra de uma garrafa
projeta-se exatamente em seu rosto. Um senhor se aproxima, escolhe a
mesa bem em frente à sua. Não se sabe porque, mas com uma expressão
entre inquieta e inquiridora, olha os guizos do chapéu tricorne,
refletindo-se em suas pupilas. É um homem de madeira!,
conjectura. Pergunta, engolindo saliva: você lê o futuro? O homem
não responde. Por que, bem, sinto que me falta algo. Pode me ajudar?
Algo brilha nas órbitas vazias – um cupim? Pode ser que ainda ache
alguém... Em meio a tudo isso, encontre alguém. E sabe, há uma mulher,
bem, uma mulher loura, de óculos, somos colegas de trabalho, chama-se
Sílvia Pina. É por quem estou interessado. O homem de madeira
arranca os guizos do chapéu. Como se fossem dados, ele os sacode nas
mãos em concha, para lá, para cá. Solta-os, eles ricocheteiam no tampo
da mesa, giram como piões, enfim param. Passa os dedos nodosos sobre
eles, o rosto de madeira aproxima-se do senhor, soprando um bafo quente.
E aí, alguma coisa nos guizos? O senhor parece a par desse tipo
de prática. Quase um sorriso, interceptado por nós de madeira nos cantos
dos lábios, o homem fala: Mas veja, não é que para amanhã os guizos
prometem? Amanhã de manhã, o senhor pode vir passear comigo, de
bicicleta. Tem uma? No Parque Público. Exatamente. Quer um encontro com
Sílvia Pina? Que tal, na gruta?
LEONARDO VIEIRA DE ALMEIDA é
formado em Arquitetura pela UFRJ e cursa o mestrado em Literatura
Brasileira na UERJ. Autor do livro de contos Os que estão aí,
Ibis Libris, 2002, e de contos publicados no suplemento literário
Rascunho, do jornal do estado do Paraná, no jornal Panorama e no site
literário Paralelos. É também tradutor e mora no Rio de Janeiro.
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