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Assalto em Sampa
Quando Glorinha Mello Cavazotti vinha, de Itararé para São Paulo, um
pouco passear e, na realidade também fazer uma montoeira de compras para
a sua popular Loja da Glória, lá na Rua XV de Novembro, centro velho de
cacau quebrado (paralelepípedos) de minha Estância Boêmia de Itararé,
aldeia paulista mas ainda bem na rabeira com o Paraná, a conterraninha
ficava bem instalada em nosso apartamento de três quartos, ali na
Alameda Barros, bairro de Santa Cecília, até porque, além da grande
amizade que nos unia, éramos meio parentes, talvez primos assim
distantes...
Pois foi num começo de dezembro de um ano passado aí, já nos idos de uns
três ou quatro primaveras, que ela chegou toda trancham, vaidosa,
alvissareira, faladora, muito bem arrumada, cabelos claros ondulados,
olhos castanhos sob cavidades frontais em formato de amêndoas, além dos
peculiares lábios grossos, próprios da mistura de italiano com português
algo puxado a mouro.
Mal a vimos chegar, eu e minha patroa Zoraide, e comentamos que ela
estava muito chique para andar por São Paulo a fora, entre lojas,
shoppings e mesmo atacadistas, principalmente pelas jóias nas orelhas
cor de rosa, no pescoço esguio, e o bem aparecido rolex feminino de ouro
no branquelo braço fino.
Mas ela retrucou, bem ao jeitão dela:
-O quê? É bem perigoso! Se uma pivete se meter a besta comigo, quiser me
assaltar, cubro a tipa de porrada. Sou boa de briga, tenho tamanho, sou
a filha mais valentona dos Mello, e, se bobear, amarro a metida a sebo
com os cadarços do kédis, e levo a saranga arrastada até um posto
policial mais próximo. Ficou nessa toleima o disparate de conversa
fiada. Só vendo pra crer.
Confesso, rimos muito dessa rápida coragem caipira dela, até porque, em
São Paulo a coisa tava feia mesmo, em tempos de impunidade, corrupção e
de violência generalizada. Eram mortes, assaltos, furtos, roubos,
latrocínios, máfias, quadrilhas, seqüestros, arrastões, narcotráfico e
outras barbaridades mais.
Ela mesma comentara a respeito, pois assustada e com preocupação via
diariamente nos jornais e nos noticiários de tevê, o que se passava na
desvairada Paulicéia Bandeirante.
E depois, a bem dizer, ela teria que pegar a linha de ônibus da circular
Avenidas, que era a que fazia as ruas principais da cidade, como a
Angélica, Consolação, Paulista, São João e outras, portanto, tinha que
se cuidar direitinho, ficar esperta. E, a bem dizer, tinha sido bem
avisada, inteirada dos riscos, pelo menos.
Que ela se precavesse com as jóias, os cartões, os cheques especiais e a
pose de madame interiorana de boa família.
Ela já morara em Sampa nos idos dos anos 60, quando freqüentara a USP,
se formara em Biologia, e, ao voltar para Itararé, lá se casara com um
membro rico da família dos Cavazzotti, e depois, largando de reger aulas
em escola pública porque sempre pagam mesmo uma mixaria de dar dó,
montara uma loja de presentes e armarinhos, abrira uma boa freguesia,
fincara notoriedade, ganhara dinheiro e muita paz, e, de-assim estava
levando a vida numa boa.
Volta e meia, no entanto, garrava de volta a capital do estado, fazer
compras. Levava sacoladas de roupas de grife, algumas pedia para
despacharem pela transportadora, e assim renovava estoque, ganhava uns
cobres a mais, passando pelo menos um dia conosco, quando lembrávamos os
áureos tempos em que o conterrâneo Maestro Paschoal Mellilo tocava piano
com galhardia na Boate Moringa, ali bem pertinho da Ipiranga com a São
João, lados da Boca do Lixo, quase ao lado do antigo Bar Redondo, tão
famoso e de clientela farta e concorrida.
Pois o causo dessa vez é que Glorinha saiu cedo de casa, depois que nos
despedimos. Tomamos o desjejum juntos, e lá fomos à luta, pro batente.
Eu fui fazer meu mestrado na PUC, minha esposa foi levar os trigêmeos ao
Colégio Santo Agostinho, e, enfim, a vida naquela primavera quente tomou
seu prumo e turno.
À noite, claro, nos encontraríamos para um carteado costumeiro, umas
cervejas das boas, também ouvir Taiguara (Glorinha adorava meus elepês),
depois, no beiço na noite, ela picava a mula de volta pra casa, pegando
um táxi e indo ate a Estação Barra Funda, onde tomaria o ônibus que a
levaria para nossa pitoresca, bucólica e superencantada Estância Boêmia
de Itararé.
Pois se deu que desta vez aconteceu o que se segue. Deixem-me contar
tudo direitinho, enquanto tomo essa refrescante e efervescente Tubaína
de Limão que ela me trouxe da terrinha, bebida deliciosa assim só tem lá
de gasosa sem igual.
Vencendo aquele dezembro ensolarado a tábua da carne de mais um dia de
peleja, retornei pra casa e lá estava minha mulher Zoraide e os meus
filhos Thiago, Pedro e Saulo Ely. Mas o que despertou de supetão a minha
curiosidade de encardido pronto para saber causos e acontecências, foi à
estranha panca da Glorinha.
Será o impossível?
Toda topetuda, nariz arrebitado, contando palha, dizia ter tido um ótimo
dia, ter sido muito feliz nas compras, e, o melhor, contou ela mesma,
com as próprias palavras, agora carregadas de ênfase:
- Imaginem vocês, meus queridos, eu tava dentro do lotadíssimo ônibus
Avenidas, no cruzamento da Rua Augusta com a Paulista, quando vi uma
caipora de uma Zinha com o meu relógio.
Imaginem só.
Pronto, pensei, sobrou pra ela que deve ter azedado a polenta quando
reparou isso, pilha curta que era.
E ela lá, toda cor-de-rosa, em alto e bom tom, contando a havência:
- Pois eu fiquei uma fera. O céu por testemunha. Vocês sabem que eu não
sou flor que se cheire, nem de fritar bolinhos, e nem muito menos sou de
dar guarida pra qualquer dianha que dê nó em pingo dágua. É bem fácil,
ché!
Minha patroa até parou a lépida colher que mexia o toddy gelado dos piás
no caneco de cristal, apreciando o desmonte da narrativa da amiga
conterraninha.
- O quê você fez afinal, cobrei, já açodado nos nervos para saber o
resultado daquele guaiú todo, daquele forfé.
Onde já se viu?
Minha amiga parou um pouco a falácia, tirou a mecha da gadelha do
pega-rapaz da fronte com a brilhosa mão direita - enquanto mantinha a
esquerda nas cadeiras - fazendo tipo de Super-Moça depois da maleita, e
desandou a falar.
- Pois eu cheguei pra lazarenta bem de fininho, quase de-través, depois
a mirei bem nos olhinhos de lambari maleixo, e, ao pé douvido da galega
murmurei curto e gosso, de forma imperativa e peremptória:
- Peque esse relógio AGORINHA, e coloque aqui na minha sacola, se não eu
vou cobrir você de porrada, e você não vai ter tempo nem de piscar o
olho uma só vez, sua biscate porqueira!
Paramos a expectativa no ar. Meus filhos curtiam o enredo, olhos
brilhando. Minha mulher caiu o queixo. Eu ali, só sapeando a demolição,
nos andaimes das acontecências.
-E ela? E ela! - perguntei. -Sim, cobrou minha mulher, me repetindo: -E
ela? - Curiosidade por atacado.
Glorinha me olhou toda pançuda, seios fartos estrebuchados na blusinha
de seda com flores, contando palha toda feliz e garbosa:
- A mocinha nem pestanejou, claro. Ainda bem, acho. Num átimo de
silêncio movimentou-se e, em instantes colocou o relógio nessa sacola,
disse, mostrando o invólucro de grife alemã, e radiante sacando a jóia
mais preciosa que tinha, e que recuperara na marra e no muque.
Meus guris aplaudiram o forfé, minha mulher disse um comprido Graças a
Deus depressinha e foi ver o bolo de fubá salgado feito cuque, que
estava já passando do ponto de ser tirado do forno elétrico, e cujo
cheiro invadia o nosso lar com tão querida visita.
Ainda bem que tudo terminara numa boa, pensei com os meus botões do
terno de tweed xadrez. Aquela Glorinha Mello era mesmo única, quando não
da pá virada.
Que pedaço de mulher!
Minha esposa, musa-vítima, anunciou o lanche, pois tinha feito também um
delicioso chá Matte com limão, e íamos manjar antes do carteado, ou
tranca, nosso jogo predileto.
Glorinha então pediu para ir tomar uma ducha rapidinha, deixando as
sacolas de compras sob o sofá marrom.
Pois mal ela entrou suada no banheiro, e ouvimos o inusitado grito
louco.
Uma lagartixa xadrez? Pensei.
Uma barata voadora? Imaginei.
Um choque de plug com gambiarra? Calculei.
A saboneteira de acrílico tinha escorregado o sabão de coco? Podia ser.
Antes fosse.
Pior.
Corremos acudir, preocupados, claro, né.
A atônita Glorinha, pingando suor em trajes mínimos, saiu chorando do
lavabo com o bendito relógio de pulso na mão esquerda, apontando com a
sardenta mão direita, o outro relógio igualzinho que estava sob a mesa
perto do barzinho da sala.
Ela é quem na verdade tinha assaltado a medrosa passageira do ônibus!
SILAS CORRÊA LEITE é educador, poeta e jornalista, de Itararé-SP.
Prêmio Ligia Fagundes Telles Professor Escritor 2004. Esse conto é parte
do livro aprovado pela Comissão 450 Anos de São Paulo, em fase de
avaliação pela Editora João Scortecci para ser editado.
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