A vingança


Ele andava lentamente à minha frente. Aproximei-me. Emparelhamo-nos. Sorri:

- Bom dia.

- Bom dia.

O bom dia dele foi de susto e curiosidade. Voltei a sorrir:

- O senhor não me conhece. Mas devo conhecê-lo.

- De onde?

- Depois lhe digo.

Chuvinha miúda e nós dois sem guarda-chuva. Poucas pessoas passavam por nós. A igreja ali em frente, a banca de jornais e revistas tampando-me um pouco a visão da fachada. Meu desprezo por aquele homem ampliava-se:

- Vai comprar jornais ou vai rezar?

- Vou rezar.

- Acompanho.

- Mas quem é você? Não estou reconhecendo.

Os olhos dele eram apertados, como de míope, mas não usava óculos. A calvície luzidia, onde rebrilhavam pingos de chuva.

- Não importa agora. Não vai rezar? Eu o acompanho. Rezar é bom. Alivia. Não é mesmo?

Olhava-me com rapidez. Apressou o passo. Apressei o meu. E emparelhados chegamos à igreja. Dei-lhe passagem, que a porta era estreita:

- Faça o favor.

Ele se ajoelhou próximo ao altar, olhos meio fechados fitos na cruz enorme, a cabeça de Cristo bambeada para a esquerda. Procurava afastar-se de mim, visivelmente incomodado, e eu pregado nele. As suas mãos, cruzadas, tremiam, e os lábios caídos balbuciavam palavras em direção à cruz.

A raiva não me cessou. Cresceu. Não me contive, cochichei-lhe ao ouvido:

- Você me paga, canalha. Vai ver.

Pela primeira vez abriu desmesuradamente os olhos, pestanejando muito, e eu me fui, o eco dos meus passos reboando na nave quase deserta, duas-três cabeças dispersas e contritas.

Na rua, sol nos olhos, que a chuva se fora, desorientei-me um pouco. Depois, suando muito, andei de cá para lá, de lá para cá, concentrando-me, inutilmente, para descobrir quem seria aquele homem, a fim de vingar-me dele.

Desalentado, voltei para casa.

CAIO PORFÍRIO CARNEIRO é natural de Fortaleza (1º de julho de 1928), tendo se radicado em São Paulo em 1955. Tem cultivado o conto com regularidade. Sua estréia no gênero se deu em 1961, com o elogiadíssimo Trapiá. Seguiram-se Os Meninos e o Agreste (1969), O Casarão (1975), Chuva - Os Dez Cavaleiros (1977), O Contra-Espelho (1981), Viagem sem Volta (1985), Os Dedos e os Dados (1989), A Partida e a Chegada (1995) e Maiores e Menores (2003). Seus romances são O Sal da Terra (1965) e Uma Luz no Sertão (1973). Publicou as novelas Bala de Rifle (1965), Três Caminhos, Dias sem Sol e A Oportunidade, estas em 1988. É autor também de ensaios, como Do Cantochão à Bossa Nova (ensaio sobre música popular brasileira), literatura juvenil (Profissão: esperança, Quando o Sertão Virou Mar..., Da Terra Para o Mar, do Mar Para a Terra, Cajueiro Sem Sombra), poesia (Rastro Impreciso), reminiscências (Primeira Peregrinação, Mesa de Bar, Perfis de Memoráveis). Tem recebido diversos prêmios, como o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1975.