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A Primeira Comunhão
Gustavo Faraon
Chovia forte. Irritado, bati a porta do carro com toda força. Pulei a
poça que se formava junto ao meio-fio e atravessei correndo o antigo
portão enferrujado. Pra evitar um banho ainda maior, fui vencendo de
dois em dois aquele lance interminável de degraus escorregadios. Vencida
a escadaria, me restava ainda uma corrida de uns quarenta metros até
alcançar uma das três grandes portas da igreja. Em poucos segundos o
trajeto até a porta central havia sido percorrido, mas não fui rápido o
suficiente e fiquei encharcado. Entrei assim mesmo, com as roupas
escorrendo água. Dentro da igreja havia uma luminosidade fraca, que me
aqueceu num primeiro instante.
Observei duas senhoras que aguardavam a tempestade cessar para voltar a
suas casas após uma manhã de orações. Não parecia haver mais ninguém na
igreja além das duas. Olhando em volta, caminhei devagar por entre as
fileiras de bancadas antigas, de madeira envelhecida e desbotada. Ouvia
o estalar dos pingos que caíam da minha roupa no piso que um dia fora
cuidadosamente colocado, peça por peça, formando uma espécie de mosaico.
A água se acumulava nas divisas entre cada uma das peças daquele
quebra-cabeça. Segui adiante, buscando com meu olhar a ajuda de alguém.
Cheguei em frente ao altar e dei as costas ao crucifixo que me observava
do alto. Respirei fundo. O único barulho era o da chuva caindo lá fora.
Quando tornei ao altar, um homem caminhava na minha direção. Não era
velho. Devia estar nos seus trinta e cinco, e não parecia um padre.
– Pois não? – perguntou o homem, olhando para as minhas calças
empapadas.
– Estou procurando o padre Ludenweber – respondi. – Vim pra fazer aula
de primeira comunhão.
O homem achou graça. Disse que aula de primeira comunhão ele não
conhecia, mas que se por acaso eu estivesse me referindo ao catecismo,
ele poderia me ajudar.
– Eu sou o padre Luden, muito prazer. Infelizmente, acho que erraste o
dia, meu jovem. As aulas serão dadas todas as quintas-feiras, a começar
por amanhã.
Baixei a cabeça, envergonhado. O padre completou:
– Volte amanhã. As aulas são dadas ali atrás. A entrada é também pelos
fundos, não dá acesso por dentro da igreja.
Apenas assenti com a cabeça, lamentando que o banho de chuva tivesse
sido em vão. Chateado, arrastei-me até o primeiro banco e sentei,
encolhido.
– Moras longe? – perguntou padre Luden.
– Estou esperando a minha mãe. Ela vem me pegar às onze.
– Mas então terás que esperar ainda um bocado. Vais é acabar te
gripando, molhado desse jeito – proferiu o padre, com o semblante
preocupado. – Vem comigo que eu te empresto umas roupas secas. Amanhã
devolves.
Recusei, um pouco reticente.
– Deixa disso... – e por um instante pareceu buscar na memória o meu
nome. Mas eu não havia tido a chance de dizê-lo.
– Daniel.
– Daniel. Pare com isso, Daniel. Tens mais de uma hora e meia para
esperar. Não seja orgulhoso. Vem comigo.
Baixei a cabeça e o segui, calado. Ele era simpático e transmitia muita
confiança, contrariando tudo o que eu imaginava sobre padres. Caminhou
devagar, sempre ao meu lado, com a mão sobre a minha cabeça. Entramos
por uma porta estreita que ficava do lado esquerdo do altar e através de
um corredor bem escuro chegamos até um lugar que o padre chamava de
“quarto de estudos”. Durante o percurso, ele ficou falando do tempo, que
estava uma loucura e que nunca vira tanta chuva. Quando chegamos na sala
de estudos, padre Luden imediatamente saiu da peça, me deixando sozinho.
Pouco depois, voltou com um cobertor nas mãos e colocou-o sobre as
minhas costas.
– Vai te esquentando, meu filho, enquanto procuro umas roupas. – E
deixou novamente a saleta, dessa vez a passos rápidos.
Não entendi de que me poderia ser útil um cobertor, já que me secar com
ele seria complicado, e ficar embrulhado nele com as minhas roupas
encharcadas não parecia boa idéia. Na dúvida, deixei-o ali, servindo
como uma espécie de capa não sei para quê. Não demorou e o padre estava
de volta com as roupas que prometera.
Para minha surpresa, depois de largar a pilha de roupas dobradas no meu
colo ele não se retirou da sala, ou indicou qualquer lugar para que eu
pudesse me trocar. Ao contrário, aproximou-se querendo me ajudar.
Não consegui sequer balbuciar palavra. Simplesmente não consegui
entender o que aquele homem pretendia. Fiquei petrificado, assistindo ao
padre lentamente tirar o cobertor das minhas costas e deixá-lo cair
displicentemente sobre o assoalho molhado. Com as duas mãos, foi tirando
minha camiseta encharcada que colava no corpo. E eu apenas obedecia as
suas ordens sem questioná-las ou tentar de qualquer modo resistir. Não
que aquilo me fosse agradável. Pelo contrário. O problema nem era como
reagir, mas ter certeza do que é que, a final de contas, estava
acontecendo ali.
Deixou que a camiseta empapada pousasse delicadamente sobre as costas de
uma poltrona de forro surrado, tão surrado que seus pequenos furos iam
aos poucos sorvendo a água que escorria. Da diminuta pilha de roupas
secas que trouxera, pegou uma toalha bem pequena e começou a me secar.
Eu tremia. Deslizou-a pelo meu rosto, dando a volta pelo pescoço e
subindo pelos cabelos. Depois desceu, traçando a linha da espinha dorsal
até o início da parte lombar da coluna, e por lá demorou-se por alguns
instantes. Contornou meu tronco, ainda com a toalhinha, até o abdômen,
secando com jeito cada centímetro da minha pele. Passeou em subida até o
peito, e então voltou aos ombros, de onde podia escorregar para cada um
dos dois braços.
– Te senta – ordenou.
Puxei a cadeira que ficava debaixo da escrivaninha e o obedeci. Então, o
padre abaixou-se e puxou minhas calças, tirando-as com um golpe só, e me
deixou apenas de cuecas. Acocorado, do pé esquerdo foi me secando muito
concentrado até chegar à coxa, passando pela canela e pelo joelho. Tomou
a parte de trás da perna e então secou em sentido contrário, da parte
posterior da coxa até o calcanhar, passando pela fossa poplítea e pela
panturrilha. Procedeu da mesma maneira com a perna direita, só que com
um pouco mais de vigor. Eu tremia, meus dentes batiam-se uns contra os
outros. Meus pêlos dos braços e pernas ouriçavam-se. Por precaução,
fechei os olhos. Nesse momento, deixando que a toalha caísse aos meus
pés, o padre disse:
– Agora te veste.
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