A Faca da Disciplina: O Mentiroso

O livro “O mentiroso” (editora 7 letras, 2003), do escritor paulista Tony Monti, tem quatro contos que surpreenderão os que notarem sua pouca idade (bastante evidente na explicação que ele próprio realiza antes de começarem as histórias). É verdade que a força de um texto depende da biografia do leitor, dos seus valores, do seu humor e pressa, da sua capacidade de entender as entrelinhas – de maneira que um bom conto pode funcionar com uns e não com outros –, mas há também a aptidão daquele que narra em apanhar o leitor e tê-lo a concorrer com as personagens, seus destinos, e na própria história oculta. Justamente por isto recomendo os contos “O outro”, “Ao museu do prado”, “Palavras entre as linhas” e “A colméia”. Tony Monti, em sua narrativa sem truques, consegue ao final de cada uma dessas histórias desequilibrar o leitor, ganhando-o.

Dentre os contos, há um que tenho na lista dos melhores lidos em 2003, é “O outro”. Sob o aspecto formal não chega a ser perfeito (sem erros de linguagem e narração), mas é um desses que se conduz e se resolve de maneira incomum; constrói uma perspectiva rara (eu vejo assim) na qual os gestos rotineiros se tornam, de repente, a composição de todas as escolhas – e desta composição sairá exato e justo o resultado que resolverá cada possibilidade aberta anteriormente. É um texto despretensioso, mas que se confirma com mais força cada vez que enfrentado; e, até onde sei, não se pode querer mais.

PAULO SCOTT é autor do livro de poesia "Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimento dos monstros" (Sulina, 2001); com a ajuda do músico Flu e do desenhista Fábio Zimbres, criou o cultuado evento literário de Porto Alegre ´PóQUET: rUÍDO & LITErATUrA >>> ESCRITORES QUE TOCAM – MÚSICOS QUE ESCREVEM <<<´. Recentemente lançou o livro de contos "Ainda orangotangos" pela editora Livros do Mal.