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A Bailarina do Paralelepípedo
Anda pelos paralelepípedos gastos. Anda muito rápido, trôpega pela
velocidade e pelo desespero. Uma chuva torrencial cai sobre seu corpo
frágil e arrepiado pelo frio. Os pingos como agulhas afiadas maculando a
pele. O vestido transparente colado em seu corpo como um sanguessuga
faminto, lhe dá o aspecto de estar nua. O longo cabelo escuro é agora
uma massa compacta encharcada, lhe grudando nas costas. O rosto de
expressão imóvel contrasta com o corpo em transe. Olhos borrados de
rímel dão ao seu rosto pálido a cara da morte. Pés descalços com esmalte
carmim descascado nas unhas misturam-se ao sangue brotando das solas
feridas pela aspereza do calçamento. A garrafa de conhaque vagabundo na
mão direita, com dois dedos ainda da bebida no fundo. Ela não chora.
Pessoas apressadas com seus guardas-chuva coloridos olham a moça com
estranheza. Ela não os vê. Carros passam em velocidade, jogando lama em
suas pernas. Ela não sente.
Continua andando por muito tempo, até sentir um cansaço absurdo na alma.
A chuva ainda despenca ruidosamente. Ainda forte. Ainda machucando-a com
seus pingos de agulha. De repente ela para. Abraça-se à garrafa e
senta-se encolhida no meio-fio. Mas não bebe. Não mais. Fica ali, com o
mesmo rosto imóvel.
É então que acontece. Ela sente uma presença atrás de si. Levanta
devagar os olhos do chão hostil. Encara. É uma criança negra. Tem olhos
negros, intensos e profundos. Tem o cabelo trançado. Veste uma roupa de
bailarina, com sapatilhas de ponta cor de rosa. Abre um sorriso imenso,
onde faltam os dois dentinhos da frente. A moça sente o coração pular.
Tum!
A criança pega sua mão e ajuda-a a levantar-se. As duas lado a lado. A
pequena lhe encarando com o mesmo sorriso imenso no rosto e os mesmos
olhos cor de noite.
A moça sente então uma sensação de intenso bem estar. De quase alegria.
Sorri de volta, sincera. Vão caminhando juntas, sorrindo, de mãos dadas,
em direção à rua movimentada...Crasssssssshhhhhhh...O cantar de um
pneu...uma buzina estridente...gritos...vozes...e a chuva lavando os
paralelepípedos vermelhos.
ALESSANDRA MASCARENHAS, 34 anos, residente em Sorocaba/SP,
formada em História e Direito. Tem como hobby e paixão as palavras.
Escreve compulsivamente contos sobre temas diversos e os divulga em
sites especializados.
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