Ontem, hoje e amanhã

Hoje estou sozinho no apartamento. Todos os dias estou. Parece que vivo num prédio de fantasmas. O único que ainda vejo é o vizinho surfista que leva seu cachorro para passear. E às vezes, encontro a senhora que limpa o prédio pelas escadas, sempre com rolinhos na cabeça.

Passei a semana doente. Uma tosse seca me perturbou muito. Ainda não posso tomar gelados. Tossi tudo que há dentro de mim nos últimos dias. Estou carente. Uma carência mal humorada. Louco por um abraço, por um afago. Mas repilo qualquer aproximação. Tudo tão estranho. Queria entender o que se passa comigo. Compreender o que estou fazendo comigo. Me odeio. Estou bem. Estou feliz. Por estar feliz. Apenas isso.

Ontem eu imaginava que o motivo da solidão, eu mesmo e minha incapacidade de mudar as coisas, me deixava um pouco preocupado. Solidão. Os copos estavam todos sujos na cozinha e não tive coragem de lavá-los. Será que ficarei mesmo só?

Já sei que ganharei o esquecimento. Estou tentando rir. Que coisa mais boba! Ficar rindo sozinho.

Trabalhei da quarta a sábado, em noites mal trabalhadas. Passei o domingo morto. Zumbi. Dormindo. Tinha que acordar cedo e aproveitar o dia para escrever e estudar muito. Não consegui. Fiquei de molho. Uma hora que me levantei, cozinhei alguma coisa parecida com sopa, ri um pouco sozinho e joguei conversa fora com minhas plantinhas. Elas ouviram tudo e concordaram.

Pensei até em ir ao teatro, cinema ou caminhar na praia. Comer uma pizza. Mas estava tão cansado que sugeri a mim mesmo comer o resto da sopa e ficar no apartamento escutando Wagner, pensando bobagens.

Dormi cedo. Tive um sonho estranho. Eu sonhei que o mundo estava para se acabar e que todos nós sabíamos o desfecho trágico que teríamos. Mesmo assim, alguns acreditavam que havia lugares seguros onde poderíamos nos esconder em busca de proteção. Naquela correria, eu reencontrava a casa de nossa família e lá estavam meu pai, minha mãe e meu irmão. Nos abraçávamos e começávamos a juntar alguns pertences que agora entendo que eram objetos que possuíam forte apego familiar, que retratavam nossa família. Depois abandonávamos a casa e buscávamos abrigo, mas antes parávamos em uma ponte. Foi quando começamos uma discussão: eu, meu pai e minha mãe. Meu irmão já não estava mais na ponte. Comentávamos como cada um não entendia o outro e eu, claro, era o foco dela. Falava coisas fortes, chegava a gritar com ambos, principalmente com meu pai. Minha mãe também participava da discussão, mas de forma discreta. Lembro que comecei a falar e me emocionar com o que estava dizendo e que falei coisas fortes, mas também da importância que eles tinham para mim. No meio da conversa, olhava para baixo da ponte e via um turbilhão de desesperados, de pessoas que tentavam atravessar o rio e não conseguiam. Ventava muito, uma ventania que fazia sacudir a ponte em que estávamos. Só nós três. Foi estranho. Lembro-me que antes de acordar, que falava ao meu pai com muita dificuldade, que o amava muito e eles eram muito importantes para a minha vida. No entanto, não tive tempo para ouvir a resposta. Fui acordado pelo despertador.

Percebo agora que não foi um pesadelo ou um sonho angustiante, apesar do cenário ser de desespero. Estávamos ali para discutir a relação de pais e filho. E mesmo na iminência da morte, estávamos felizes. Fazia tempo que não me sentia tão mal.

Estou triste. Queria chorar mas não posso entornar minhas lágrimas. Sinto uma dor forte, aguda e crescente. Em meu peito. Será que meu coração passou a doer? A dor do sentimento.

É engraçado porque não posso sentir o que sinto. Preciso reservar esta dor, dando razão a ela quando for o tempo certo pois ainda tenho que correr atrás de tantas coisas. Desejaria ficar em lugar seco, escondido e escuro. Ficar deitado, encolhido e escondido de todos. Não sei o que me faz assim. Na verdade eu sei. No entanto é tão difícil admitir que prefiro dizer para mim mesmo que desconheço a dor das minhas dores. Hora do remédio.

Desculpe-me por estas palavras, mas precisava escrever para alguém uma vez que não tenho com quem falar. Devem estar pensando que estou indo desta para melhor. Ou pior. Estou assustado comigo. É que não me sinto preparado, muito menos me considero um sábio. Estou longe disto. Não sei como explicar, mas eu consigo sentir alguma coisa. Não só as picadas das agulhas. Eu sempre soube quando alguém muito querido está morrendo ou morrerá em breve. Foi assim com meus familiares, amigos ou pessoas conhecidas. Eu passo geralmente o dia inteiro sem sensações. Passo a desconhecer se estou com frio ou calor, se sinto fome ou não. É estranho, mas sempre foi assim. E acredito que quando chegará o momento certo. Não sei se estou escrevendo bobagens, mas não me imagino partindo assim. Tenho que escrever. Há alguém que diz que ainda tenho muito a fazer nessa vida. O que é muito bom ou ruim. Obrigado.

Tudo fica um pouco mais difícil com o passar do tempo e estou com tantos problemas. Não sei se devo procurar uma força maior. Estou mal. Não sei se é depressão. Não suporto mais remédios. Não desejo mais isto. Estou alimentando pouco meus sofrimentos. Eles estão tão fracos. Preciso ficar forte.

Amanhã fecharei para balanço. Trancarei meu coração, meu cérebro, minha mente, meu espírito em um calabouço. Sufocarei meu gemidos. Estão tos presos em minha redoma, em meu castelo de pedras. Permanecerão o tempo que for necessário. Continuarei vivendo e sendo feliz. Poderei ser feliz. Receberei o amor e o afago que necessito.

Não penses que estou triste. Estou bem. Estou feliz. Também tenho uma série de providências a serem cumpridas. Tenho fé e grandes esperanças. Vou me ocupar com o que poderá trazer benefícios a todos. Melhor partir. Deixo o amor para os homens de coração livre. Eu já não sou mais livre. Amanhã serei.

O diário foi encontrado na cabeceira da cama. O corpo foi encontrado no banheiro.